As línguas de sinais como fenômeno
lingüístico
As
línguas de sinais, línguas de modalidade gestual-visual, têm sido utilizadas
pelos surdos e identificadas como meio de expressão natural desses sujeitos,
mesmo antes de seu reconhecimento pela linguística, na década de 1960, como
sistemas linguísticos. O primeiro pesquisador de língua de sinais foi William
Stokoe que interessou-se pelo assunto quando de sua entrada
para
lecionar no então Colégio Gallaudet
As diferenças entre as línguas faladas e as
sinalizadas estão relacionadas, principalmente, às condições para produção e
recepção das mesmas. A língua de sinais não é produzida apenas com as mãos, mas
utiliza, também, meios não manuais como expressões faciais, movimentos de boca
e direção do olhar, que permitem uma simultaneidade de produção de informações
linguísticas. (Svartholm, 1999).
Stokoe
apresentou algumas características dessa língua como a não existência de
artigos, preposições, e outras partículas, e definiu três principais elementos
do sinal, mais tarde ampliados para quatro, com contribuições de outros
pesquisadores, entre eles Woodward (1990).
Diversos autores (Klima, Bellugi e Emmorey, 1993; Ferreira
Brito, 1990; entre outros) descrevem os sinais como sendo compostos por quatro
parâmetros fonológicos básicos:
ü
configuração das mãos: são as formas que as mãos tomam na
realização de um sinal.
ü
localização ou ponto de articulação: é o
espaço em frente ao corpo ou região do próprio corpo ou no rosto, onde os
sinais são articulados.
ü
movimento: é um parâmetro complexo de movimentos internos de mão e
pulso e movimentos direcionais no espaço.
ü orientação:
direção da palma da mão durante o sinal: para
cima, para baixo, para o corpo, para frente, para esquerda e para
direita.
ü Mais
recentemente, incorporou-se a expressão facial e/ou corporal como mais
um parâmetro das línguas de sinais.
Nas línguas sinalizadas existem regras que restringem a
combinação dos cinco elementos de um sinal.
Havia,
anteriormente, a idéia de que a língua de sinais seria uma mistura de pantomima
e gesticulação concreta, incapaz de expressar conceitos abstratos e
apresentando sistema de comunicação superficial, conteúdo restrito, e
inferioridade linguística, expressiva e estética, em relação às línguas orais.
As
línguas de sinais são sistemas linguísticos independentes dos sistemas das
línguas orais, por estabelecerem-se através da visão e da utilização do espaço,
e não do canal auditivo-oral; e o entendimento de que desenvolveram- se a
partir da necessidade de comunicação das pessoas surdas que utilizam-se do
canal gestual-visual como modalidade linguística.
As
línguas de sinais são sistemas abstratos e complexos, naturais às comunidades
surdas, diferentes em cada país e, como em qualquer outra língua, é possível a
produção de expressões metafóricas (Klima, Bellugie e Emmorey, 1993; Quadros,
1997).
A
Língua Brasileira de Sinais – LIBRAS ou LSB, conforme denominada por alguns
autores, é a principal língua de sinais falada no Brasil, mas há também em
nosso país, a Língua de Sinais dos índios Urubu-Kaapór – LSKB, tribo indígena
estudada pela linguista Lucinda Ferreira Brito.
As
propostas educacionais direcionadas para o sujeito surdo têm como objetivo
proporcionar o desenvolvimento pleno de suas capacidades.
Diferentes
práticas pedagógicas envolvendo os sujeitos surdos apresentam uma série de
limitações, e esses sujeitos, ao final da escolarização básica, não são capazes
de ler e escrever satisfatoriamente ou ter um domínio adequado dos conteúdos
acadêmicos.
Heinicke
é considerado o fundador do oralismo e de uma metodologia que ficou conhecida
como o "método alemão". Para ele, o pensamento só é possível através
da língua oral, e depende dela. A língua escrita teria uma importância
secundária, devendo seguir a língua oral e não precedê-la.
Para
De L'Epée, a linguagem de sinais é concebida como a língua natural dos surdos e
como veículo adequado para desenvolver o pensamento e sua comunicação. Para
ele, o domínio de uma língua, oral ou gestual, é concebido como um instrumento
para o sucesso de seus objetivos e não como um fim em si mesmo. Ele tinha
claras as diferenças entre linguagem e fala e a necessidade de um
desenvolvimento pleno de linguagem para o desenvolvimento normal dos sujeitos.
Em
conseqüência do avanço e da divulgação das práticas pedagógicas com surdos, foi
realizado, em 1878, em Paris, o I Congresso Internacional sobre a Instrução de
Surdos, no qual se fizeram acalorados debates a respeito das experiências e
impressões sobre o trabalho realizado até então. Naquele congresso alguns
grupos defendiam a idéia de que falar era melhor que usar sinais, mas que estes
eram muito importantes para a criança poder se comunicar. Alí, os surdos
tiveram algumas conquistas importantes, como o direito a assinar documentos,
tirando-os da "marginalidade" social, mas ainda estava distante a
possibilidade de uma verdadeira integração social.
Para os
oralistas, a linguagem falada é prioritária como forma de comunicação dos
surdos e a aprendizagem da linguagem oral é preconizada como indispensável para
o desenvolvimento integral das crianças. De forma geral, sinais e alfabeto
digitais são proibidos, embora alguns aceitem o uso de gestos naturais, e
recomenda-se que a recepção da linguagem seja feita pela via auditiva
(devidamente treinada) e pela leitura orofacial (Trenche 1995).
Na década de
1960, começaram a surgir estudos sobre as línguas de sinais utilizadas pelas
comunidades surdas. Apesar da proibição dos oralistas no uso de gestos e
sinais, raramente se encontrava uma escola ou instituição para surdos que não tivesse
desenvolvido, às margens do sistema, um modo próprio de comunicação através dos
sinais.
A primeira
caracterização de uma língua de sinais usada entre pessoas surdas se encontra
nos escritos do abade De L'Epée. Muito tempo se passou até que o interesse pelo
estudo das línguas de sinais de um ponto de vista lingüístico fosse despertado
novamente, o que ocorreu nos anos 60 com os estudos de Willian Stokoe (1978).
Stokoe
propôs também em sua análise que um sinal pode ser decomposto em três
parâmetros básicos: O lugar no espaço onde as mãos se movem, a configuração
da(s) mão(s) ao realizar o sinal e o movimento da(s) mão(s) ao realizar
o sinal, sendo estes então os "traços distintivos" dos sinais.
"A
Comunicação Total é a prática de usar sinais, leitura orofacial, amplificação e
alfabeto digital para fornecer inputs lingüísticos para estudantes
surdos, ao passo que eles podem expressar-se nas modalidades preferidas"
(Stewart 1993, p. 118). O objetivo é fornecer à criança a possibilidade de
desenvolver uma comunicação real com seus familiares, professores e coetâneos,
para que possa construir seu mundo interno.
A oralização
não é o objetivo em si da comunicação total, mas uma das áreas trabalhadas para
possibilitar a integração social do indivíduo surdo. A comunicação total pode
utilizar tanto sinais retirados da língua de sinais usada pela comunidade surda
quanto sinais gramaticais modificados e marcadores para elementos presentes na
língua falada, mas não na língua de sinais. Dessa forma, tudo o que é falado
pode ser acompanhado por elementos visuais que o representam, o que facilitaria
a aquisição da língua oral e posteriormente da leitura e da escrita (Moura
1993).
O que a
comunicação total favoreceu de maneira efetiva foi o contato com sinais, que
era proibido pelo oralismo, e esse contato propiciou que os surdos se
dispusessem à aprendizagem das línguas de sinais, externamente ao trabalho
escolar. Essas línguas são freqüentemente usadas entre os alunos, enquanto na
relação com o professor é usado um misto de língua oral com sinais.
O modelo de
educação bilíngüe contrapõe-se ao modelo oralista porque considera o canal visogestual de
fundamental importância para a aquisição de linguagem da pessoa surda. E
contrapõe-se à comunicação total porque defende um espaço efetivo para a língua
de sinais no trabalho educacional; por isso advoga que cada uma das línguas
apresentadas ao surdo mantenha suas características próprias e que não se
"`misture" uma com a outra.
Ao
sinalizar, a criança desenvolve sua capacidade e sua competência lingüística,
numa língua que lhe servirá depois para aprender a língua falada, do grupo
majoritário, como segunda língua, tornando-se bilíngüe, numa modalidade de
bilingüismo sucessivo. Essa situação de bilingüismo não é como aquela de
crianças que têm pais que falam duas línguas diferentes, porque nesse caso elas
aprendem as duas línguas usando o canal auditivo-vocal num bilingüismo
contemporâneo, enquanto no caso das crianças surdas, trata-se da aprendizagem
de duas línguas que envolvem canais de comunicação diversos.
O objetivo
da educação bilíngüe é que a criança surda possa ter um desenvolvimento
cognitivo-lingüístico equivalente ao verificado na criança ouvinte, e que possa
desenvolver uma relação harmoniosa também com ouvintes, tendo acesso às duas
línguas: a língua de sinais e a língua majoritária.
Com o
surgimento da comunicação total, a grande mudança pedagógica foi a entrada dos
sinais em sala de aula. O uso dos sinais pode ser muito variado, dependendo da
opção feita no trabalho de comunicação total. Pode-se encontrar a língua de
sinais sendo usada separadamente da fala, uso do português sinalizado
acompanhando a fala numa prática bimodal, fala acompanhada de sinais retirados
da língua de sinais, tentativas de representar todos os aspectos do português
falado em sinais etc.
As três
principais abordagens de educação de surdos (oralista, comunicação total e
bilingüismo) coexistem, com adeptos de todas elas nos diferentes países. Cada
qual com seus prós e contras, essas abordagens abrem espaço para reflexões na
busca de um caminho educacional que de fato favoreça o desenvolvimento pleno
dos sujeitos surdos, contribuindo para que sejam cidadãos em nossa sociedade.
Lingua(gem) e identidade: a surdez em questão
A
proposta de educação bilíngüe sugere-nos, então, mudanças que se mostram
necessárias, sendo a mais importante delas o respeito à língua de sinais como
língua natural1 e de direito do surdo.
Para
Vygotsky, a relação do homem com o mundo não é direta, mas mediada, e as
ocorrências de mediação primeiramente vão emergir de outrem e depois vão
orientar-se ao próprio sujeito. Portanto,
“a
dimensão significativa da mediação semiótica é também afirmada quanto à relação
do homem consigo próprio” (Góes, 1994, p. 95) e essa relação não é direta, mas
mediada pelo signo.
Parafraseando
Geraldi (1996), a língua e o sujeito constituem-se nos processos interativos.
“Isto implica que não há um sujeito dado, pronto, que entra em interação, mas
um sujeito se completando e se construindo nas suas falas e nas falas dos
outros” (idem, ibid., p. 19).
Assim,
para que a construção da identidade surda aconteça é essencial o encontro
surdo-surdo, pois temos observado, nesses anos de interação professor
ouvinte/professor surdo, que o interlocutor privilegiado da criança surda é o
próprio surdo.
Faz-se
necessário ressaltar que a surdez não é homogênea, ou seja, o grupo de surdos
não é uniforme. Dentro do que denominamos surdos, fazem parte os surdos das
classes populares, as mulheres surdas, os surdos negros, surdos de zona rural,
entre outros (Skliar, 1998).
Assim,
temos os surdos oralizados que não consideram necessária a oficialização da
língua de sinais e, em contrapartida, os surdos filhos de pais surdos, usuários
da língua brasileira de sinais (LIBRAS), e que não se consideram deficientes
auditivos.
Enfim,
podemos considerar a possibilidade de múltiplas identidades surdas, ou seja,
elas são heterogêneas e apresentam diferentes facetas. Perlin (1998) vai além,
classificando a identidade surda em cinco grupos:
1)
identidade surda: aquela que cria um espaço cultural visual dentro de um espaço
cultural diverso, ou seja, recria a cultura visual, reivindicando à História a
alteridade surda;
2)
identidades surdas híbridas: aquelas de surdos pós-locutivos, que nasceram
ouvintes e se tornaram surdos;
3)
identidades surdas de transição e formadas por surdos que viveram sob o domínio
da cultura ouvinte (em geral, os surdos oralizados) e que posteriormente são
inseridos na comunidade surda (processo de “des-ouvintização”3 da representação
da identidade);
4) identidade surda incompleta: aquela dos
surdos que vivem sob o domínio da cultura ouvinte e negam a identidade surda;
5)
identidades surdas flutuantes, formadas por sujeitos surdos que reconhecem ou
não sua subjetividade, mas que desprezam a cultura surda, não se comprometendo
com a comunidade.
Na
medida em que os surdos legitimam sua língua e sua comunidade, temos como
decorrência dessa convivência minoritária o nascimento da cultura surda (arte,
humor, teatro, poesia etc.). “É necessário manter uma posição intercultural
mesmo que seja de riscos. A identidade surda se constrói dentro de uma cultura
visual. Essa diferença precisa ser entendida não como uma construção isolada,
mas como construção multicultural” (Perlin, op. cit.).
É
comum o aluno corrigir os sinais utilizados por integrantes do grupo (surdos e
ouvintes) e, não raro, fazer consultas ao professor surdo. Essa
interdependência4 evidente dos professores também contribui para o fato de o
professor surdo ser considerado “a referência” para o uso da língua; ou seja, a
língua de sinais é tarefa e esfera de competência do professor surdo.
A
partir do momento em que os alunos começam a vivenciar diferencialmente estas
línguas – português e língua de sinais – e a perceber que cada uma delas possui
seu valor e sua função, eles se identificam como grupo usuário da língua de
sinais, considerando o professor ouvinte, muitas vezes, fora desse grupo.
Temos
observado, então, que o reconhecimento de sua condição surda começa a aparecer
em crianças na idade de 5-6 anos. Antes do contato com o surdo adulto esse
reconhecimento se dava tardiamente ou nem chegava a acontecer.
A
discussão sobre o processo intersubjetivo implica um aprofundamento sobre a constituição
do sujeito na relação, considerando que este não é dado, não está pronto, mas
que ao interagir se completa e se constrói na sua fala e na fala do outro.
A
presença do professor surdo contribui expressivamente para que as crianças
adquiram a língua de sinais e passem a identificar-se com este sujeito que
apresenta um papel de destaque na sala de aula. Esta convivência possibilita
não só o reconhecimento da identidade surda, mas a identificação política e
social com essa comunidade, pois é preciso trazer para a sala de aula a
história da comunidade surda, de suas lutas e vitórias.
Assumir
a identidade surda é ainda um processo complexo para muitos surdos pois isso
significa assumir a própria condição de surdez e o compromisso de pertencer a
um grupo minoritário e, infelizmente, ainda muito discriminado.
1.
Estou considerando a língua de sinais uma língua natural, com características
próprias de uma língua natural qualquer e não no sentido de inato ou de língua
universal.
2.
Skliar significa a surdez com base em quatro níveis diferenciados, porém
politicamente interdependentes: como diferença política, como experiência
visual, caracterizada por múltiplas identidades, e, finalmente, localizada
dentro do discurso da deficiência (Skliar,1999).
3.
Ouvintismo é um termo utilizado por Skliar (1998) e definido como sendo um
conjunto de representações dos ouvintes sobre a surdez e sobre os surdos, a
partir do qual o surdo estará obrigado a olhar-se e a narrar-se como se fosse
ouvinte. Daí decorrem as percepções do ser deficiente, as quais legitimam as
práticas terapêuticas habituais.
4.
Interdependência porque o professor surdo é usuário fluente da língua de sinais
e o professor ouvinte é responsável pelo conteúdo educacional que se desenvolve
com o apoio do primeiro.
PRÁTICAS
DE LETRAMENTOS NA EDUCAÇÃO BILÍNGÜE PARA SURDOS1
Sueli
Fernandes
Com
muita clareza e propriedade, Góes e Tartuci (2002, p.114) nos revelam em suas
pesquisas acerca da inclusão na escola regular, as situações excludentes a que
são submetidas crianças e adolescentes surdos, simulando o papel de aprendiz e
reproduzindo os rituais escolares para ocupar o lugar de aluno em sala de aula:
“copiar da lousa, copiar do colega, copiar de seu próprio caderno – o aluno
surdo aprende e acaba por fortalecer este tipo de estratégia: copiar para se
manter vivo no ambiente”.
A
simulação da aprendizagem é uma estratégia de “sobrevivência” em sala de aula e
revela uma atitude de resignação, a despeito da exclusão na interação e na
aprendizagem, motivada pela ausência de um território lingüístico compartilhado
no contexto escolar.
Muitas
outras estratégias poderiam ser citadas, já não de submissão, mas de
hostilidade ou confronto, diante de um sistema educacional que ignora suas
necessidades lingüísticas diferenciadas: a agressividade, a indisciplina, a
evasão pelo fracasso escolar – mecanismos de defesa ou resistência ao
instituído.
Kleiman
(1999, p. 268) pontua dois perigos presentes. O primeiro deles sinaliza para o
fato que, quase sempre, o ensino da língua oficial do grupo dominante
transformar-se em alvo a ser alcançado, secundarizando a língua minoritária.
A
segunda ameaça diz respeito à destruição de aspectos culturais que permitem a
preservação ou reafirmação da identidade desses grupos, já que, mesmo
adotando-se a língua minoritária no ensino, a língua oficial opera de forma
dominante nos demais componentes da proposta pedagógica, tornando-se um
instrumento de colonização do currículo.
As
propostas de educação bilíngüe em curso são desenvolvidas apenas no contexto
das escolas especiais, pois as escolas regulares sequer cogitam a diferença
lingüística dos surdos e, quando o fazem, a única preocupação efetiva que se
manifesta é com a ausência de intérpretes, já que acreditam ser deles a
responsabilidade da educação dos alunos surdos.
Ironicamente,
alguns dos objetivos e pressupostos de “Milão” sobrevivem no espaço escolar,
travestidos em uma nova “roupagem”: a fala não é mais o foco do trabalho, mas,
sim, o português oral e escrito; as questionáveis práticas de treinamento
auditivo são substituídas pela nova promessa tecnológica do implante coclear; a
língua de sinais é “tolerada”, desde que permaneça obediente fora da sala de
aula, nos momentos de recreio ou situações “menos importantes”; os surdos
adultos são convocados a colaborar no processo educacional, desde que sejam
apenas instrutores de Libras, ainda que tenham formação para atuar como
professores. Os professores ouvintes continuam “falando” em suas aulas (e
inserindo sinais na enunciação); estão fartos de cursos de Libras e discussões
teóricas, mas não percebem que sua aprendizagem lingüística depende da
interação efetiva com surdos adultos, fluentes em língua de sinais.
Por
que estrangeiros dentro do seu próprio país?
Pelo
fato de, mesmo nascendo no Brasil e compartilhando aspectos culturais que
constroem a identidade nacional, não aprenderem a língua pátria como língua
materna, tal como acontece com a maioria dos brasileiros.
Deposita-se
na educação escolar a retomada desse “elo perdido” entre brasileiros falantes
de variedades lingüísticas do português, brasileiros imigrantes falantes do
português e de sua língua pátria, indígenas brasileiros falantes de inúmeras
línguas e brasileiros surdos usuários da Libras.
Assim,
as crianças surdas começam a copiar o desenho de letras e palavras e simulam a
aprendizagem, prática que se perpetua ao longo da vida escolar.
A
condição diferenciada dos surdos que aprendem a ler e escrever o português sem
passar pelo conhecimento fonológico da língua é denominada como a de ‘leitores
não alfabetizados’. Isso significa que são leitores competentes em uma primeira
língua não-alfabética e dominam a forma escrita de outra língua alfabética, sem
conhecer os sons de suas grafias (SÁNCHEZ, 2002).
No
caso dos surdos, a leitura não ocorrerá recorrendo às relações letra-som (rota
fonológica). Desde os primeiros contatos com a escrita, as palavras serão
processadas mentalmente como um todo, sendo reconhecidas em sua forma
ortográfica (denominada rota lexical), serão “fotografadas” e memorizadas no
dicionário mental se a elas corresponder alguma significação. Se não houver
sentido, da mesma forma não houve leitura.
As
crianças surdas, que têm nas práticas bimodais o principal modelo para
identificação lingüística na infância, acabam por desenvolver um sistema
híbrido de comunicação e crescem acreditando ser esse sistema de signos
legítimo. Ao produzir “sinais na fala”, ou a “fala sinalizada”, crêem dominar uma
única língua combinada e não duas (português e libras), o que lhes
oportunizaria a reflexão sobre sua condição bilíngüe e os desdobramentos dela
decorrentes.
A
ÚNICA via de acesso à língua portuguesa para os surdos é a escrita. Para os
surdos, aprender a escrita significa aprender língua portuguesa:
escrita e língua fundem-se em um único conhecimento vivenciado por meio da
LEITURA.
As atividades de leitura em segunda
língua para aprendizes surdos, principalmente na fase inicial, devem ser contextualizadas
em referenciais visuais que permitam uma compreensão prévia do tema
implicado, de modo que esse conhecimento seja mobilizado no processo de leitura
propriamente dita. A leitura de imagens conduzirá o processo de reflexão e de
inferências sobre a leitura da palavra.
Em um primeiro momento é necessário que
o aluno visualize o texto como um conjunto composto de linguagem verbal e
não-verbal e realize associações entre ambas as linguagens para a
constituição de seus sentidos.
A
proposta é “garimpar” textos interessantes, ricos em imagens que ofereçam
apelos visuais sedutores para o aluno, independente do meio de materialização:
fotografias, desenhos, caricaturas, cartazes, outdoors, folhetos,
informativos, revistas, jornais, gibis...
Sugestão
de planilha para o registro do planejamento do professor
§
Contextualização visual do texto.
§
Exploração do conhecimento prévio e de elementos intertextuais.
§
Identificação de elementos textuais e paratextuais.
§
Leitura individual e discussão das hipóteses de leitura no grupo.
§
(Re)elaboração escrita com vistas à sistematização.
O
intérprete educacional
O
intérprete educacional é aquele que atua como profissional intérprete de língua
de sinais na educação. É a área de interpretação mais requisitada atualmente.
O
intérprete assumirá somente a função de intérprete que em si já se basta e caso
seja requerido um professor que domine língua de sinais que este seja
contratado como tal.
Nos
Estados Unidos já houve tal discussão e foi determinado ser anti-ético exigir
que o intérprete assuma funções que não sejam específicas da sua atuação
enquanto intérpretes, tais como:
•
Tutorar os alunos (em qualquer circunstância)
•
Apresentar informações a respeito do desenvolvimento dos alunos
•
Acompanhar os alunos
•
Disciplinar os alunos
•
Realizar atividades gerais extra-classe.
Alguns
elementos sobre o intérprete de língua de sinais em sala de aula que devem ser
considerados:
• Em
qualquer sala de aula, o professor é a figura que tem autoridade absoluta.
•
Considerando as questões éticas, os intérpretes devem manter-se neutros e
garantirem o direito dos alunos de manter as informações confidenciais.
• Os
intérpretes têm o direito de serem auxiliados pelo professor através da revisão
e preparação das aulas que garantem a qualidade da sua atuação durante as
aulas.
• As
aulas devem prever intervalos que garantem ao intérprete descansar, pois isso garantirá
uma melhor performance e evitará problemas de saúde para o intérprete.
•
Deve-se também considerar que o intérprete é apenas um dos elementos que garantirá
a acessibilidade. Os alunos surdos participam das aulas visualmente e precisam
de tempo para olhar para o intérprete, olhar para as anotações no quadro, olhar
para os materiais que o professor estiver utilizando em aula. Também, deve ser
resolvido como serão feitas as anotações referentes ao conteúdo, uma vez que o
aluno surdo manterá sua atenção na aula e não disporá de tempo para
realizá-las. Outro aspecto importante é a garantia da participação do aluno
surdo no desenvolvimento da aula através de perguntas e respostas que exigem
tempo dos colegas e professores para que a interação se dê. A questão da
iluminação também deve sempre ser considerada, uma vez que sessões de vídeo e o
uso de retroprojetor podem ser recursos utilizados em sala de aula.
0
código de ética prevê que o intérprete seja discreto e mantenha sigilo, não
faça comentários, não compartilhe informações que foram travadas durante sua
atuação.
0
próprio MEC está procurando formar professores enquanto intérpretes. Isso
acontece, pois alguns professores acabam assumindo a função de intérprete por
terem um bom domínio da língua de sinais. Nesse caso, esse profissional tem
duas profissões: a de professor e a de intérprete de língua de sinais. A
proposta do MEC em formar intérpretes selecionando professores da rede regular
de ensino objetiva abrir este campo de atuação dentro das escolas. Assim, o
"professor-intérprete" deve ser o profissional cuja carreira é a do
magistério e cuja atuação na rede de ensino pode efetivar-se com dupla função:
1) Em
um turno, exercer a função de docente, regente de uma turma seja em classe
comum, em classe especial, em sala de recursos, ou em escola especial (nesse
caso, não atua como intérprete).
2) Em
outro turno, exercer a função de intérprete em contexto de sala de aula, onde
há outro professor regente.
As
pessoas que dominam a língua de sinais acabam assumindo a função de intérprete
sem a devida qualificação comprometendo a qualidade da interpretação. Os surdos
agradecem o fato de terem intérpretes, mas sofrem com a qualidade da
interpretação tendo, muitas vezes, o seu processo de aprendizagem prejudicado.
A
educação de pessoas com surdez se fundamentaram em três abordagens diferentes:
a oralista, a comunicação total e a abordagem por meio do bilinguismo. As
propostas educacionais centraram-se, ora na inserção desses alunos na classe
comum, ora na classe especial ou na escola especial.
As escolas comuns ou especiais, pautadas no
oralismo visaram à capacitação da pessoa com surdez para a utilização da língua
da comunidade ouvinte na modalidade oral, como única possibilidade lingüística
o uso da voz e da leitura labial, tanto na vida social, como na escola.
As
propostas educacionais, baseadas no oralismo, não conseguiram atingir
resultados satisfatórios, porque, normalizaram as diferenças, não aceitando a
língua de sinais dessas pessoas e centrando os processos educacionais na visão
da reabilitação e naturalização biológica.
A
comunicação total considerou a pessoa com surdez de forma natural, aceitando suas
características e prescrevendo o uso de todo e qualquer recurso possível para a
comunicação, procurando potencializar as interações sociais, considerando as
áreas cognitivas, lingüísticas e afetivas dos alunos. Os resultados obtidos com
esta concepção são questionáveis quando observamos as pessoas com surdez frente
aos desafios da vida cotidiana.
A
linguagem gestual, visual, os textos orais, os textos escritos e as interações
sociais pareciam não possibilitar um desenvolvimento satisfatório e esses
alunos continuavam segregados, permanecendo em seus guetos, ou seja, marginalizados,
excluídos do contexto maior da sociedade. Esta concepção, não valorizou a
língua de sinais, portanto, pode-se dizer que a comunicação total é uma outra
feição do oralismo.
Os
dois enfoques - oralista e comunicação total - deflagraram um processo que não
favoreceu o pleno desenvolvimento das pessoas com surdez, por focalizar o
domínio das modalidades orais, negando a língua natural desses alunos e
provocando perdas consideráveis nos aspectos cognitivos, sócio-afetivos,
lingüísticos, políticos, culturais e na aprendizagem. Em favor da modalidade
oral, por exemplo, usava-se o português sinalizado e desfigurava-se a rica
estrutura da língua de sinais, cujo processo de derivação lexical é descartado.
Por
outro lado, a abordagem educacional por meio do bilinguismo visa capacitar a
pessoa com surdez para a utilização de duas línguas no cotidiano escolar e na
vida social, quais sejam: a língua de sinais e a língua da comunidade ouvinte.
Estudos têm demonstrado que esta abordagem corresponde melhor às necessidades
do aluno com surdez, em virtude de respeitar a língua natural e construir um
ambiente propício para a sua aprendizagem.
As
pessoas com surdez não podem ser reduzidas à condição sensorial,
desconsiderando as potencialidades que as integram a outros processos
perceptuais, enquanto seres de consciência, pensamento e linguagem.
Na
perspectiva inclusiva da educação de pessoas com surdez, o bilinguismo que se
propõe é aquele que destaca a liberdade de o aluno se expressar em uma ou em
outra língua e de participar de um ambiente escolar que desafie seu pensamento
e exercite sua capacidade perceptivo-cognitiva, suas habilidades para atuar e
interagir em um mundo social que é de todos, considerando o contraditório, o
ambíguo, as diferenças entre as pessoas.
De
acordo com o Decreto 5.626, de 5 de dezembro de 2005, as pessoas com surdez têm
direito a uma educação que garanta a sua formação, em que a Língua Brasileira
de Sinais e a Língua Portuguesa, preferencialmente na modalidade escrita,
constituam línguas de instrução, e que o acesso às duas línguas ocorra de forma
simultânea no ambiente escolar, colaborando para o desenvolvimento de todo o
processo educativo.
O
AEE para alunos com surdez, na perspectiva inclusiva, estabelece como ponto de
partida a compreensão e o reconhecimento do potencial e das capacidades dessas
pessoas, vislumbrando o seu pleno desenvolvimento e aprendizagem.
As
práticas de sala de aula comum e do AEE devem ser articuladas por metodologias de
ensino que estimulem vivências e que levem o aluno a aprender a aprender, propiciando
condições essenciais da aprendizagem dos alunos com surdez na abordagem
bilíngüe.
O
AEE promove o acesso dos alunos com surdez ao conhecimento escolar em duas
línguas: em Libras e em Língua Portuguesa, a participação ativa nas aulas e o
desenvolvimento do seu potencial cognitivo, afetivo, social e linguístico, com
os demais colegas da escola comum.
A
prática pedagógica do AEE parte dos contextos de aprendizagem definidos pelo
professor da sala comum. O professor de AEE entra em contato com esse plano de
trabalho para desenvolver as atividades complementares com os alunos com
surdez.
Conforme
Damázio (2007), o AEE envolve três momentos didático-pedagógicos:
l
Atendimento Educacional Especializado em Libras
l
Atendimento Educacional Especializado de Libras
l
Atendimento Educacional Especializado de Língua Portuguesa.
O
AEE em Libras fornece a base conceitual dos conteúdos curriculares
desenvolvidos na sala de aula. Esse atendimento contribui para que o aluno com
surdez participem das aulas, compreendendo
o que é tratado pelo professor e interagindo com seus colegas.
O
AEE em Libras ocorre em horário oposto ao da escolarização o professor do AEE
trabalha com os conteúdos curriculares que estão sendo estudado no ensino comum
em Libras, articuladamente com o professor de sala de aula. Trata-se de um
trabalho complementar ao que está sendo estudado na sala de aula, de uma
exploração do conteúdo, em Libras; em que o professor de AEE retoma as idéias
essenciais, avaliando durante o processo o plano de atendimento do aluno com
surdez.
O
planejamento do AEE em Libras é atribuição do professor deste atendimento,
conforme as seguintes etapas essenciais:
-
Acolhimento de todos os alunos, que precisam ser valorizados, mantendo uma
relação de respeito e confiança com o professor.
-
A identificação das habilidades e necessidades educacionais específicas dos
alunos contemplando a avaliação inicial dos conhecimentos dos alunos.
Avaliação
da aprendizagem por meio da Libras é importante para que se verifique a
compreensão e a evolução conceitual dos alunos com surdez no AEE. Considerando
que a educação escolar dos alunos com surdez tem como língua de instrução a
Libras e a Língua Portuguesa, o aluno realizará suas avaliações em sala de aula
comum em Língua Portuguesa e em Libras, de acordo com os objetivos propostos.
As
línguas de sinais são línguas naturais e complexas que utilizam o canal
visual-espacial, articulação das mãos, expressões faciais e do corpo, para
estabelecer sua estrutura. Todas as línguas são independentes umas das outras e
as línguas de sinais possuem estruturas gramaticais próprias, compostas de
aspectos lingüísticos: fonológico, morfológico, sintático e semântico -
pragmático. As línguas de sinais, assim como as línguas orais, possibilitam aos
seus usuários discutir, avaliar e relacionar temas relativos a qualquer ramo da
ciência ou contexto científico.
A
língua de sinais não é universal e cada país possui sua própria língua de
sinais com variações regionais. No Brasil, a Libras, reconhecida pela Lei
10.436/2002, é entendida como a forma de comunicação e expressão em que o
sistema lingüístico de natureza visual- motora, com estrutura gramatical
própria, constitui um sistema lingüístico de transmissão de idéias e fatos,
oriundos de comunidades de pessoas surdas do Brasil.
É
direito das pessoas surdas o acesso ao aprendizado da Libras desde a educação
infantil para sua apropriação de maneira natural e ao longo das demais etapas
da educação básica, com a presença de um profissional habilitado,
preferencialmente surdo. Essa habilitação para o ensino da Libras pode ser
obtida por meio do exame Prolibras promovido pelo MEC/INEP, ou por meio do
curso de licenciatura Letras/Libras.
LIBRAS:
PARÂMETROS QUE A ESTRUTURAM
Como
língua a Libras tem suas normas, padrões e regras próprias. Seus sinais são
formados pelo movimento e pelas combinações das mãos com o espaço em frente ao
corpo.
Segundo
Brito (1995), a estrutura da Libras é constituída de parâmetros primários e
secundários: configuração das mão, ponto de articulação, movimento e disposição
das mãos, orientação da palma das mãos, região de contato e expressões faciais.
Os
parâmetros definem as articulações das mãos com os componentes do corpo e conferem
à Libras uma organização dos movimentos gestuais e das expressões por ela
transmitida.
As
mãos assumem diversas formas para a realização de um sinal. De acordo com
estudos apresentados pelo Instituto Nacional de Educação dos Surdos - INES, são 63 posições diferentes, dos dedos e da
mão.
PONTO
DE ARTICULAÇÃO, ORIENTAÇÃO/DIREÇÃO E REGIÃO DE CONTATO
O
ponto de articulação é o espaço em frente ao corpo ou uma região do próprio
corpo, onde os sinais se articulam.
Orientação/direção:
direção é a forma que a palma da mão assume durante o sinal;
Orientação
das mãos é a região de contato (parte da mão que entra em contato com o corpo).
MOVIMENTO
São
diversos os movimentos e deslocamentos que a mão assume para realizar um sinal:
internos da mão, do pulso e direcionais no espaço.
EXPRESSÃO
FACIAL E CORPORAL
São
componentes não-manuais muito importantes, que participam da composição da
língua de sinais, constituindo elementos diferenciadores para expressar
sentimentos e determinar significados (interrogação, exclamação, negação,
afirmação).
Na
organização do AEE, o professor de Libras deve planejar o ensino dessa língua a
partir dos diversos aspectos que envolvem sua aprendizagem, como: referencias
visuais, anotação em língua portuguesa, dactilologia (alfabeto manual),
parâmetros primários e secundários, classificadores e sinais.
O
professor do AEE avalia sistematicamente a aprendizagem dos alunos em Libras:
conhecimento dos sinais, fluência e simetria. Em fluência e simetria, analisam:
configuração de mão; ponto de articulação; movimento; orientação e expressão
facial. Avaliam também o emprego de termos técnico- científicos, de acordo com
o ano ou ciclo escolar em que o aluno se encontra.
A
proposta didático-pedagógica para se ensinar português escrito para os alunos
com surdez orienta-se pela concepção bilíngüe - Libras e Português escrito,
como línguas de instrução destes alunos. A escola constitui o lócus da
aprendizagem formal da língua Portuguesa na modalidade escrita, em seus vários
níveis de desenvolvimento. Na educação bilíngüe os alunos e professores
utilizam as duas línguas em diversas situações do cotidiano e das práticas
discursivas.
Para
fases iniciais de aprendizado da Língua Portuguesa no AEE:
l
Expressão corporal;
l
Expressão artístico-cultural;
l
Dramatização
l
Contextualização de situações vividas;
l
Aula-passeio;
l
Sessão de filmes.
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