AULA 1 - CIVILIZAÇÃO E CULTURA
CIVILIZAÇÃO E CULTURA
Civilização e cultura são, como conceitos, dois
importantes instrumentos de análise da História. Você saberia dizer o que cada
um significa? Comece pelo dicionário. Leia atentamente as definições abaixo:
No dicionário Aurélio eletrônico, você pode
ler as seguintes definições de civilização:
1. Ato, processo ou efeito de civilizar (-se).
2. Estado ou condição do que se civilizou: povos
que se encontram num estado avançado de civilização.
3. O conjunto de características próprias à vida
social coletiva; cultura.
4. Processo pelo qual os elementos culturais
concretos ou abstratos de uma sociedade (conhecimentos, técnicas, bens e
realizações materiais, valores, costumes, gostos etc.) são coletiva e/ou
individualmente elaborados, desenvolvidos e aprimorados.
5. Por extensão: O estado de aprimoramento ou
desenvolvimento social e cultural assim atingido.
6. Por extensão: Tipo de sociedade resultante de
tal processo, ou o conjunto de suas realizações; em especial, aquele marcado
por certo grau de desenvolvimento tecnológico, econômico e intelectual,
considerado geralmente segundo o modelo das sociedades ocidentais modernas,
caracterizadas por diferenciação social, divisão do trabalho, urbanização e
concentração de poder político e econômico: a civilização egípcia; a
civilização helênica.
Como você percebeu, as definições do Aurélio apontam
para dois sentidos básicos da palavra. O primeiro gira em torno da idéia de
civilizar-se. O segundo frisa a idéia de desenvolvimento. Civilizar-se é
tornar-se cível, ou seja: aquele que vive na cidade e compartilha de suas
regras. A palavra cidadania também é um desenvolvimento desse mesmo radical.
Portanto, podemos concluir que civilizar-se é uma maneira de participar da vida
social das cidades, observando as suas regras e desfrutando dos seus benefícios.
Vamos à palavra cultura. No mesmo Aurélio,
encontramos as seguintes definições:
1. Ato, efeito ou modo de cultivar; cultivo.
2. Restritivo: Cultivo agrícola.
3. Atividade econômica dedicada à criação,
desenvolvimento e procriação de plantas ou animais, ou à produção de certos
derivados seus.
4. Por extensão: Os animais ou plantas assim
criados.
5. O conjunto de características humanas que não
são inatas, e que se criam e se preservam ou aprimoram através da comunicação e
cooperação entre indivíduos em sociedade. [Nas ciências humanas, opõe-se por
vezes à idéia de natureza, ou de constituição biológica, e está associada a uma
capacidade de simbolização considerada própria da vida coletiva e que é a base
das interações sociais.
6. A parte ou o aspecto da vida coletiva
relacionados à produção e transmissão de conhecimentos, à criação intelectual e
artística etc.
7. O processo ou estado de desenvolvimento social
de um grupo, um povo, uma nação, que resulta do aprimoramento de seus valores,
instituições, criações etc.; civilização, progresso.
8. Atividade e desenvolvimento intelectuais de um
indivíduo; saber, ilustração, instrução.
9. Refinamento de hábitos, modos ou gostos.
Vamos destacar também, das definições do Aurélio,
os dois aspectos mais evidentes de cultura. É bom começar pela acepção mais
abandonada ultimamente. Quando falamos de cultura, raramente levamos em conta o
trabalho na terra, a agricultura. Porém, é importante partir daí, pois este foi
o sentido original da palavra. Cultura da vinha, cultura do trigo são apenas
alguns dos exemplos que nos remetem à idéia de que tanto a vinha como o trigo
desenvolvem-se à medida que são cultivados. Para que os brotos das plantas
floresçam na terra, é preciso cuidado, limpeza, adubação, irrigação.
Cobertos de cuidados, os espécimes florescem e
enchem a terra com seus brotos e frutos. Isso se chama cultura, uma atividade
primária do homem, que requer observação e cuidado. E é da terra cuidada e
cultivada que se extraem os frutos que alimentam o homem na sua jornada de
criação de outras culturas. Assim, podemos dizer que a nossa sobrevivência está
intimamente ligada a um esforço de criação e reprodução.
CIVILIZAÇÃO OU CULTURA?
Você já sabe distinguir civilização de cultura, num
grau primordial. As definições do Aurélio e as explicações que as
seguiram cumpriram a função de apresentar os sentidos mais usualmente aceitos
das palavras em questão. Agora você vai conhecer um pouco do debate sobre a
utilização dessas palavras como conceitos historiográficos. Como eu disse no começo
desta aula, os historiadores trabalham com conceitos; são seus instrumentos de
análise. E os conceitos de civilização e cultura dividem as suas preferências,
que são forjadas em função de opções teóricas e metodológicas.
A CRESCENTE IMPORTÂNCIA DO CONCEITO DE CULTURA
Não há como negar: a palavra cultura está em todas
as bocas, em todos os cantos, em todos os textos contemporâneos. Atualmente,
falar em cultura é um lugar-comum. É quase uma palavra de apoio. Mas em geral,
quando empregamos a palavra cultura, estamos nos referindo às definições
apresentadas nos dicionários. Muitas vezes, chegamos mesmo a usar a palavra
cultura como um critério de distinção: “Fulano estudou no exterior, fala muitas
línguas, é uma pessoa muito culta.” Cultura aqui aparece como “bagagem” e
formação. Ou ainda, poderíamos dizer que ela assume uma de suas especificações,
que é a idéia de cultura intelectual.
Vamos começar pela mais geral. Pode-se dizer que
cultura é tudo aquilo que foi transformado pelo homem. Pense num campo muito
seco. A vegetação perdeu a umidade, faz um tremendo calor, o sol queima forte
as folhas já ressecadas das plantas. Essas circunstâncias acabam provocando um
incêndio. Natureza ou cultura? Natureza. Não houve atuação do homem na situação
em questão. Agora pense que depois que o fogo começou e se alastrou pelo campo,
um homem recolhe um pedaço de madeira incandescente, leva-o até a sua caverna e
passa a utilizá-lo para iluminar o ambiente e para cozinhar os alimentos.
Natureza ou cultura? Cultura. O fogo foi manuseado com intenção pelo homem;
houve uma transformação.
A segunda premissa de cultura está relacionada ao
particular: é o conceito que dá atenção especial às diferenças, à identidade
particular dos grupos. A cultura é um produto de determinada vivência social.
CONCLUSÃO
O historiador trabalha com conceitos. Eles são os
seus instrumentos de análise. Os conceitos de civilização e cultura abrem
possibilidades diferentes para compreensão e explicação das experiências
históricas. O primeiro exige uma leitura mais abrangente, enfatizando o que há
de comum entre os grupos sociais. O segundo possibilita a observação
circunstanciada das experiências sociais,
destacando as diferenças.
RESUMO
Você aprendeu algumas faces de dois conceitos que
são importantes para a operação histórica. Esteja você estudando, pesquisando
ou lecionando, vai acabar se deparando com os conceitos de civilização e
cultura. Agora você já sabe ao
que cada um deles se refere. Aprendeu que eles são
aplicados em função das opções teóricas e metodológicas, além de ter adquirido
noções básicas de seus significados e origens.
AULA 2 - CIVILIZAÇÃO E CULTURA 2
CULTURA E CIVILIZAÇÃO
O homem – a criatura pensante – tem o poder de
criar e transformar, a partir da abstração do pensamento, o que é dado
naturalmente (inato). Diferindo-se dos demais seres – as outras feras – ele é
capaz de constituir cultura, é capaz de criar.
É exatamente a essa ação do homem sobre a Natureza
que os conceitos de cultura e de civilização estão relacionados. Se, por um
lado, a idéia de cultura apresenta um significado mais amplo, por outro, a
idéia de civilização retrata um conjunto específico da criação cultural do
homem em coletividade. Dessa forma, podemos dizer que nossos ancestrais hominídeos
já produziam cultura, mas só podemos pensar em civilização alguns séculos antes
de 3000 a.C., quando importantes transformações ocorreram em algumas sociedades
da Mesopotâmia e do Egito.
Mas quais são as características fundamentais da
cultura civilizada? Em primeiro lugar, o surgimento da organização espacial
urbana: a cidade. Em segundo lugar, associa-se o surgimento da cidade a uma
organização política mais complexa do que a daquelas conhecidas até então pelos
grupos nômades e sedentários:
ESTADO.
a. TRABALHO - Ação transformadora do homem.
b. CULTURAL - Resultado da ação direta do homem.
c. NATURAL - Existência independente da ação
humana.
Complete os círculos do esquema com as letras
correspondentes aos conceitos.
RESPOSTA COMENTADA
A ação transformadora do homem (trabalho) altera a
Natureza e produz o que chamamos de cultura, quer material ou imaterial.
CULTURA E CIVILIZAÇÃO NO ENSINO DAS SÉRIES INICIAIS
No contexto do ensino de História, a diferença
entre os conceitos de cultura e de civilização deve ser progressivamente
trabalhada. Para perceber a diversidade como o resultado do processo
cultural, o aluno precisa ter a dimensão dessa capacidade criativa do homem,
sem juízo de valor. É necessário desmistificar o conceito de civilização,
dissociá-lo da idéia de superioridade, sem abdicar da percepção da complexidade
que essa criação social traz.
Os PCN propõem eixos temáticos como norteadores do
ensino de História nas séries iniciais. No primeiro ciclo, o eixo é a História
local e a História do cotidiano. Os PCN priorizam para esse eixo alguns
conteúdos, a saber: levantamento de diferenças e semelhanças individuais e
sociais entre os componentes da turma; identificação de transformações e
permanências dos costumes das famílias dos alunos e nas instituições escolares;
levantamento de diferenças e semelhanças entre pessoas e os grupos sociais que
convivem na coletividade;
O PRIMEIRO CICLO
O primeiro passo é buscar as informações entre os
próprios alunos e envolvê-los com a pesquisa do tema proposto. Tendo como ponto
de partida o universo do aluno, podemos trabalhar a comparação entre
grupos sociais contemporâneos e de outras épocas. As Histórias local e do
cotidiano permitem a percepção das diversidades de forma lúdica. Coleções sobre
as histórias do cotidiano podem ser a base do estudo para o professor (exemplo:
História da Vida Privada). Existe hoje uma boa variedade de paradidáticos que
abordam o cotidiano. Veja nas leituras recomendadas alguns exemplos.
Assim, é importante que se evidenciem – nesse ciclo
utilizando mais acentuadamente a linguagem visual – as diferenças das
residências, das roupas, da forma de educar, da comida, da cultura material que
cerca as pessoas e das brincadeiras infantis.
O SEGUNDO CICLO
Embora não seja impossível trabalhar o conceito de
civilização na proposta de eixo temático e conteúdos sugeridos pelos PCN para o
primeiro ciclo, vamos dar ênfase na sua abordagem no segundo ciclo.
Podemos começar destacando a importância das
migrações e da urbanização na História. Os homens sempre buscaram condições de
sobrevivência melhores. Isso está associado à longa tradição de migrações ao
longo da sua História. Identificar as demandas de qualidade de vida que incentivaram
grupos a se deslocarem no espaço ao longo dos séculos é importante.
CONCLUSÃO
A comparação entre realidades diversas propicia
momentos de análise mais ricos e motivantes, que são fundamentais para a
apreensão dos conceitos de maneira natural, para que, em momentos posteriores,
o aluno possa fazer o registro de seus significados por meio da linguagem
escrita.
A percepção do significado de cultura e de
civilização, sem os preconceitos que porventura foram incorporados aos seus
sentidos no passado, é fundamental. Dessa forma, você estará contribuindo para
uma educação comprometida com a formação de indivíduos que saibam viver com a
diversidade, valorizando-a como resultado da criação das relações dos homens
entre si e com a Natureza.
RESUMO
esclarecimento do conceito de cultura e de
civilização é aconselhável desde as séries iniciais. As orientações didáticas,
os eixos temáticos e os conteúdos gerais propostos pelos PCN evidenciam a
possibilidade de realização do trabalho com conceitos complexos, na
introdução ao ensino de História.
AULA 3 - Antigüidade clássica: Gregos e Romanos
EDUCAÇÃO E SOCIEDADE NA GRÉCIA CLÁSSICA
A cidade grega que mais vai nos interessar será
Atenas, pois nela aconteceram as principais inovações que fariam da Grécia o
berço do Ocidente. Atenas foi a cidade-estado (pólis) por excelência, seu
desenvolvimento histórico e sua cultura favoreceram o surgimento de várias
atividades que colocaram em destaque o espírito de pertencer ao quadro dos
cidadãos. Os atenienses inventaram o conceito de cidadania que hoje para nós é
tão importante. Em Atenas a política foi instaurada como prática da comunidade
dos cidadãos, os que não pertenciam à aristocracia tradicional puderam
passar a participar, opinar ou pelo menos votar as decisões da assembléia dos
cidadãos.
AS TRANSFORMAÇÕES SOCIAIS, POLÍTICAS E INTELECTUAIS
NA GRÉCIA CLÁSSICA
Você, agora, vai compreender como e o que aconteceu
na Gréci para que ela seja tão importante para o nosso tempo e para nossos
futuros alunos. Entre os séculos VIII a.C. e o século V a.C., a Grécia, em
particular a cidade de Atenas passou por transformações políticas, econômicas,
sociais e culturais que proporcionaram o nascimento do Ocidente.
SOFISTAS
Foram os primeiros grandes intelectuais da
Grécia clássica, precursores da pedagogia e mestres da retórica e da oratória.
Imprimiram ao saber autonomia individual, desenvolvendo um grande senso crítico
acerca das verdades tradicionais. Colaboraram na intensa revolução de saberes
ocorrida na Grécia.
A SOCIEDADE ROMANA ANTIGA
No mesmo tempo em que as cidades-estados gregas
deixavam para trás o seu poderio comercial, aparecia uma sociedade que, assim
como os gregos, exerceu profundas influências no desenvolvimento da História do
Ocidente. Essa sociedade não só dominou a bacia do Mar Mediterrâneo como também
expandiu seus domínios, ao longo de mais de quinhentos anos, por outras partes
do mundo. “Todos os caminhos levam a Roma”. Essa foi a grande epígrafe que
traduzia a importância política, cultural e social que a República e depois o
Império Romano tiveram na Europa, no norte da África e no Oriente Próximo. Se
os gregos nos legaram através da sua cultura os fundamentos do olhar ocidental,
os romanos nos legaram suas realizações institucionais nos mais diversos
campos, nos quais até hoje estamos enredados, sejam eles religiosos,
econômicos, políticos, sociais e culturais. Acompanhando a história da evolução
política de Roma você poderá perceber se a citação anterior é verdadeira e até
que ponto ela o é.
CONFLITOS SOCIAIS DA SOCIEDADE ROMANA CLÁSSICA
A partir do final do século VI a.C. foi instituída
a República, dominada por patrícios. A plebe se encontrava alijada de qualquer
participação política nas chamadas magistraturas – cargos que permitiam o
controle político, financeiro, administrativo, moral e jurídico da sociedade
romana. Papel relevante era exercido pelo Senado – assembléia composta por
membros das famílias dos patrícios, que eram os responsáveis pela criação de
leis.
A grande questão social e política do período
republicano romano foi o conflito entre os patrícios e os plebeus. Uma das
principais reivindicações da plebe era a extinção da lei que permitia que
plebeus fossem escravizados por causa de dívidas contraídas junto aos
patrícios. Além disso, desejavam acesso aos cargos políticos, o direito de
casar com patrícios; enfim, toda uma série de medidas que visavam à criação de
maior igualdade de direitos políticos, econômicos, sociais e culturais dentro
da sociedade.
A EXPANSÃO ROMANA
Roma dominou militarmente toda a Península Itálica,
aumentando seu território, aprimorando e desenvolvendo suas práticas
comerciais, e a partir do século III a.C. estava pronta para estender seus
domínios para outras regiões. Um dos marcos fundamentais da expansão romana
foram as chamadas Guerras Púnicas, travadas contra a cidade de Cartago (cidade
localizada no norte do continente africano). Por mais de cem anos Roma e
Cartago tiveram desavenças que culminaram com a destruição total desta última.
Durante esse período, Roma estendeu seus domínios por todo Mediterrâneo
Oriental (Grécia e Ásia Menor).
IMPÉRIO ROMANO
Foi durante o chamado Alto Império (séculos I e II
d.C.) que Roma viveu seu período de maior esplendor. A tentativa de solucionar
conflitos sociais fez com que a sociedade se dividisse, não entre patrícios e
plebeus, mas sim, de acordo com a riqueza de cada um. A organização e a
administração do Império proporcionaram, à época de Augusto, a Pax Romana. A
cultura romana foi difundida por todas as regiões dominadas, consolidando a
contribuição cultural dos romanos para o Ocidente (idioma, costumes,
instituições, urbanização). Foi nessa época que surgiu e se expandiu o
cristianismo, religião perseguida pelo Estado romano, mas que cada vez mais
ganhava apoio dos menos favorecidos e se espalharia por todo Império, até ser
aceita pelo próprio Estado durante o período do Baixo Império (séculos III, IV
e V d.C.). Quanto mais se acentuava a decadência do Império, mais o
cristianismo, baseado em princípios de igualdade, ganhava corações e mentes. O
Baixo Império é identificado como o período de decadência de Roma.
CONCLUSÃO
Você pôde perceber ao longo de nossa aula as
principais contribuições dos gregos e romanos da época clássica para a
construção do Ocidente. A marcante herança intelectual dos gregos clássicos
expressa na cultura artística, filosófica e científica. A fundamental criação
do conceito de cidadania e do de democracia. Os romanos nos legaram importantes
instituições políticas e administrativas. Os conflitos sociais da sociedade
romana e a gestão do Estado romano são lições que nos auxiliam a compreender o
nosso tempo.
RESUMO
Algumas das principais questões que constituíram a
História do Mundo Greco-Romano durante o período clássico estão relacionados à
compreensão racional das potencialidades do homem. Nesse sentido, as inovações
políticas e intelectuais dos gregos e as tentativas de solucionar conflitos
sociais adotadas pelos romanos são exemplares. Vários valores do mundo
contemporâneo tais como Democracia, Educação, Direito, Filosofia, são heranças
da Antigüidade Clássica.
AULA 4 - A ANTIGUIDADE CLÁSSICA: GREGOS E ROMANOS 2
IDENTIDADE E CIDADANIA
Um bom exemplo inicial é a questão da identidade.
Na atualidade costumamos relacionar a identidade cultural com a nacionalidade.
Sabemos, entretanto, que o conceito de NAÇÃO, nessa acepção, é recente.
Sabemos também que essa percepção de unidade é sempre relativa, dependendo dos
referenciais que escolhemos para nossa análise. Nos entendemos como brasileiro,
por exemplo, mas possuímos identidades específicas relacionadas com aspectos
locais e regionais. A identidade é complexa porque resulta de uma rede ampla de
relações do indivíduo com a sua comunidade, o ambiente e outras sociedades.
OS MOVIMENTOS MIGRATÓRIOS
Outro aspecto que pode ser valorizado é o papel das
migrações na constituição, fortalecimento e declínio dos “gregos” e dos
romanos. A ocupação dos Bálcãs, por exemplo, foi resultado de um movimento
migratório contínuo de povos que
propiciou um processo de aculturação, base da
formação da chamada civilização grega.
ORGANIZAÇÕES E INSTITUIÇÕES POLÍTICAS
É inegável, entretanto, que a herança greco-romana
no campo da política tenha se destacado. Um primeiro aspecto a destacar é o do
desenvolvimento da República em oposição à Monarquia. Nas monarquias, a direção
do Estado está vinculada a uma pessoa, a qual exerce esta função com as
características de perpetuidade (qualidade do que é perpétuo, perene, eterno) e
irrevogabilidade (estado do que é irrevogável, definitivo). O rei é geralmente
investido de seu poder pelo nascimento, em função de uma distinção de sua
família, reconhecida pela sociedade. O rei e a rainha estão investidos de
importância mágico-religiosa e/ou simbólica.
RESUMO
A partir da identificação de alguns importantes
pontos de contato entre a História da Antiguidade Clássica e as preocupações
prioritárias identificadas pelos PCN para o ensino de História nas séries
iniciais, destacou-se as possibilidades de discussão da identidade, da cidadania,
do papel dos movimentos migratórios e dos significados das formas de
organização do Estado.
AULA 5 - IDADE MÉDIA: O NASCIMENTO DO OCIDENTE
UM DIFÍCIL COMEÇO
No ano 476 da nossa era, o chefe germânico Odoacro
tomou de assalto a capital do Império Romano, destitui o jovem Rômulo Augusto e
enviou a Constantinopla as insígnias imperiais. Esta data marcou, na cronologia
histórica, o fim do Império Romano do Ocidente e o nascimento da Idade Média. A
mesma data e o mesmo evento assinalaram o encerramento de uma fase da História
e o início de outra: a Idade Média nasceu dos escombros do Império Romano;
construiu-se com os seus restos, alimentou-se de suas ruínas. Durante muito
tempo, os homens da Idade Média e da Antigüidade romana viveram uma longa
transição. Já não eram romanos, mas também ainda não eram medievais.
Qual a diferença? O escravo pertencia a um senhor.
Ele era coisificado, ou seja, era tratado como um objeto destituído de vontade
e deveria submeter-se a toda e qualquer decisão do seu senhor. Não havia
negociação entre eles. Em contrapartida, o servo medieval dependia de um
senhor: a ele estava submetido, mas não lhe pertencia. Antes, o servo
pertencia à terra! Imagine, por exemplo, que um
proprietário queira vender, doar ou deixar de herança uma parte de suas terras.
Ele não o pode fazer sem os servos, pois estes estão ligados diretamente à
terra. Não são meros objetos; não podem ser tratados como mercadorias e
separados das terras que os contêm!
DOS REINOS BÁRBAROS AO SACRO IMPÉRIO ROMANO
GERMÂNICO
Você aprendeu, até agora, que alguns povos bárbaros
penetravam o Império Romano e nele estabeleciam morada. Mas de que forma?
Estariam eles acampando, como faziam antes das invasões? Que tipo de
organização política adotavam? Os povos germânicos, que compunham grande parte
dos chamados bárbaros, não conheciam a cidade, a escrita, nem padrões políticos
fixos. Eles se organizavam em tribos, que eram guiadas por chefes guerreiros.
Tiravam seu sustento da criação de animais e do butim de guerra, que era
dividido entre os combatentes. O valor máximo atribuído aos homens livres era o
de guerreiro. Trabalhar a terra, pastorear o gado, erguer muros eram atividades
desconhecidas ou negligenciadas.
O FEUDALISMO
Você já ouvir falar em Feudalismo. Agora você vai
compreender como a Idade Média construiu esta complexa experiência política,
social, econômica, jurídica e religiosa. Parece um exagero apontar tantos
setores da vida social como marcados pelo feudalismo, mas você perceberá que
ele esteve presente em vários aspectos da vida dos medievais. Vou começar com
uma afirmação e tentarei explicá-la nas próximas linhas. Houve relações feudais
durante toda a Idade Média, mas não houve feudalismo em toda a Idade Média. Por
quê? Bem, relação feudal pressupõe a presença do feudo intermediando um
contato, um acordo, enfim, uma relação. E feudalismo indica um sistema
sociopolítico regulado pelas relações feudais.
O CÉU ESTRELADO DA NOITE MEDIEVAL
Você já viu uma catedral gótica? Observe a imagem a
seguir. Trata-se de uma construção enorme, muito alta, bem iluminada por um
complexo jogo de luz, que consiste em filtrar o sol por múltiplos pedaços de
vidros coloridos, que formam imagens sacras. A catedral ergueu-se no horizonte
medieval como símbolo de crescimento, vigor e fé.
A CRISE: “OUTONO DA IDADE MÉDIA OU PRIMAVERA DOS
NOVOS TEMPOS”
Os séculos XIV e XV foram marcados por guerras,
fomes, pestes, insurreições, desvalorizações monetárias e queda na produção. A
Idade Média caminhava para seu fim, ostentando um quadro de penúria e
degradação. Deste quadro, emergirá mais tarde a Idade Moderna, inaugurada pelo
brilho do Renascimento.
No período de expansão, você aprendeu que a
necessidade de terras cresceu e elas foram buscadas nos campos e nas florestas.
Grande parte das porções de terras conquistadas não eram muito férteis. Depois
de algumas colheitas elas começaram a produzir menos. As florestas, que foram
derrubadas para dar lugar à plantação e também para gerar a energia que
alimentou o crescimento, recuaram em níveis alarmantes, provocando
desequilíbrios ecológicos. Chuvas torrenciais e invernos prolongados afetavam
as colheitas, provocando a fome em várias regiões. As populações estavam menos
alimentadas e as guerras ceifavam a vida dos mais jovens e resistentes.
CONCLUSÃO
Você acabou de estudar alguns traços da civilização
medieval. Pode-se dizer que foi uma época marcada por avanços e recuos no campo
da paz, da produção, das doenças e da política. Uma época de muitos conflitos,
mas que teve a força de definir o que seria o Ocidente. Hoje, quando olhamos
para o mapa da Europa, deparamo-nos com vários países que estavam sendo
gestados na Idade Média. Quando pensamos no cristianismo e em sua enorme força,
podemos observar o seu crescimento e estabelecimento como religião soberana na
Europa medieval. As universidades nasceram de exigências e conflitos tipicamente
medievais. Importa aqui ressaltar que neste período, chamado por muitos Idade
das Trevas, forjaram muitas das instituições que até hoje caracterizam a
História do Ocidente.
RESUMO
O período compreendido entre o desmoronamento do
Império Romano e o final da Idade Média é um capítulo complexo da História do
Ocidente. Foi marcado pela oscilação entre centralização e descentralização do
poder e pela variação no
estatuto do trabalhador e sua relação com a terra.
O poder estava diretamente ligado à posse de terra; os cavaleiros formavam uma
elite especializada no mando e na guerra, e a Igreja crescia auxiliada por
imperadores. Foi pontuada, ainda, por oscilações de fome e pela cruel
decadência que se abateu depois de um período de prosperidade e exploração
agressiva da Natureza.
AULA 6 - A IDADE MÉDIA: O NASCIMENTO DO OCIDENTE 2
REFLETINDO SOBRE CERTAS RELAÇÕES.
A servidão e a escravidão
A
servidão e a escravidão são formas de trabalho compulsórias, recorrentes em
vários momentos da história da Humanidade, pautadas na exploração e na
dominação, que pressupõem a legitimação da desigualdade social. Está posto
nessas relações que alguns homens. Apesar dessas semelhanças, a servidão e a
escravidão se distinguem quanto ao estatuto legal do indivíduo que a elas estão
subordinados.O servo é um homem que está preso a obrigações como contrapartida
da proteção dada. A servidão é, portanto, uma relação entre desiguais que
possuem direitos e deveres definidos.
O escravo
é uma propriedade. Na condição de bem, está sujeito aos interesses e
determinações do proprietário. A escravidão é, igualmente, uma relação entre
desiguais; contudo, a “desumanização” do escravo o priva de direitos. Vejamos
algumas diferenças. Ao servo é garantido o acesso a terras para o sustento familiar.
Embora deva obrigações em tributos e em trabalho, tem direito a parte de sua
produção e pode ter bens (animais, instrumentos de trabalho, utensílios
domésticos etc.). Pode negociar sua parte da produção livremente e realizar
atividades artesanais para suprir suas necessidades. Mesmo que o escravo
recebesse terras para plantar para sua subsistência, essa prática não era um
direito, mas uma concessão do proprietário.
A servidão e a vassalagem
Uma outra confusão conceitual encontrada em
materiais didáticos é a da servidão com a vassalagem. Ambas as relações geram
interdependências entre as partes envolvidas, mas em universos diversos. As
relações servis são essencialmente relações de trabalho entre desiguais no
âmbito da sociedade; enquanto as relações feudo-vassálicas são relações
políticas estabelecidas entre pares, entre pessoas pertencentes aos segmentos
privilegiados da socidade (nobres e clérigos). Suseranos e vassalos
compartilhavam do mesmo ideal de vida: o de cavalheiro. Estavam unidos por um compromisso
de apoio mútuo para a manutenção do status quo. Esse compromisso se
consolidava através da concessão de terras (feudo) pelo suserano a um nobre
guerreiro com- panheiro de batalhas (vassalo). Em troca do benefício (feudo), o
vassalo devia fidelidade, conselho, apoio militar e outras obrigações. As
relações feudo-vassálicas eram a base, portanto, de uma aliança
político-militar que podia se desmembrar em vários níveis, já que os vassalos
de uns poderiam ser suseranos de outros. Formava-se uma rede de relações que se
articulava de acordo com as alianças estabelecidas nos momentos de conflito.
RELIGIÃO E PODER
Leia atentamente o texto de época que se segue.Deus
criou o mundo, pôs no firmamento dois grandes astros para iluminar: o Sol que
preside ao dia, e a Lua que preside à noite. Do mesmo modo, no firmamento da
Igreja universal instituiu Ele duas dignidades: o Papado, que reina sobre as
almas, e a Realeza, que domina os corpos. Mas o primeiro é superior à
segunda.Incrível, não? Mais extraordinário ainda é se levarmos em conta que se
trata de um pronunciamento do Papa Inocêncio III (1198-1216)!A Igreja Romana
foi, após a decadência do Império Romano, a única instituição reconhecida no
Ocidente europeu. Atuou de forma marcante no processo de aculturação que então
se desenvolveu, especialmente através da cristianização das tribos germânicas
que se fixaram na Europa ocidental.
O MONOPÓLIO DA TERRA
Os homens livres e os ex-escravos tornaram-se
servos ao vincularem-se aos senhores. Deviam – em troca da possibilidade de
produzirem seus alimentos e de serem defendidos em caso de guerras –
obediência, trabalho gratuito e tributos. Estabelecia-se uma relação de
exploração hereditária, pela qual o servo e seus descendentes ficavam
vinculados à terra.
CONCLUSÃO
No
contexto das séries iniciais do Ensino Fundamental, a história da Europa entre
os séculos V e XIV – Idade Média – não se configura como conteúdo específico a
ser trabalhado, mas algumas referências, direta ou indiretamente a esse
período, podem ser necessárias. Duas preocupações iniciais são fundamentais. A
primeira se refere à especificidade existente entre o conceito de servidão e
escravidão. A segunda trata da diferenciação entre o significado da servidão e
da vassalagem. A correta aplicação dos conceitos na elaboração de exemplos e
comparações deve ser uma preocupação do docente, pois propiciará a elaboração
posterior, sem conflito, dos conceitos centrais mencionados. Problematizar a
associação explícita da religiosidade com o poder político e econômico no
medievo é o ponto de partida para o estabelecimento de comparações úteis à
formação do cidadão contemporâneo. O monopólio da terra, exercido no
período por segmentos restritos da sociedade, apresenta-se como possibilidade
de reflexão sobre a exclusão social, a partir do impedimento de usufruto da
natureza e do resultado do trabalho humano
RESUMO
Embora a História da Idade Média não seja conteúdo
explícito das séries iniciais do Ensino Fundamental, o domínio dos conceitos de
servidão, escravidão e vassalagem e as reflexões sobre o papel da Igreja e do
monopólio da terra são pontos destacados para o estabelecimento de relações
profícuas para o amadurecimento do aprendizado do aluno.
AULA 7 - HISTÓRIA MODERNA: A REINVENÇÃO DO HOMEM
O RENASCIMENTO
O nome não deixa dúvida: trata-se de um retorno à
vida. Mas como você deve compreender esse retorno? É raro que ocorra na
história um período de transição e que seus agentes tenham consciência de
viverem uma nova era naquele momento. Não há nenhum emissário especial andando
pelas ruas e anunciando: Senhores, nós vivemos o começo de um novo tempo.
Geralmente, são os historiadores que olham para o passado e definem que
determinados períodos marcam uma nova etapa na história da humanidade. E
ocorreu o mesmo com o Renascimento. Foi apenas no século XIX, que as
experiências vividas nas grandes e ricas cidades italianas, no campo do
pensamento, da política e das artes, foram isoladas como um fenômeno histórico
independente.
HUMANISMO
Para alguns uma filosofia, para outros um conjunto
de idéias e posturas não-sistematizadas, para todos a valorização plena do
homem como ser racional e senhor dos seus passos. O foco do Humanismo estava,
antes de tudo, no homem. Você já ouviu falar em antropocentrismo, não é? Pois
bem, é isso: uma abordagem do mundo que coloca o homem no centro dos
interesses, no centro do Universo. Uma postura bastante diferente daquela que
você pode observar ao estudar História Medieval, quando o teocentrismo, ou
seja, Deus no centro dos interesses e do Universo, reservava ao
homem um lugar de submissão e impotência. O
Humanismo valorizava a indagação. Era importante perguntar, a partir da
observação, como funcionavam os fenômenos naturais, o corpo humano, a vida dos
animais, os costumes de outros povos, a estrutura do Universo. Na Idade Média,
o conhecimento era fruto de constantes releituras de autoridades intelectuais
que haviam comentado a Bíblia. O conhecimento era encarado como revelação, ao
passo que, no Humanismo ele passou a ser encarado como investigação.
ESTADO MODERNO
Você lembra que na aula de História Medieval nós
estudamos a fragmentação política. Nela você viu que os reis não exerciam poder
irrestrito em todo o reino. Eram os senhores feudais que comandavam a política
local, chegando mesmo a controlar a lei no interior de seus domínios. Um outro
ponto importante que você estudou naquela aula foi o controle do exército. No
acordo feudal fi cava claro que cada senhor deveria fornecer, ao rei,
cavaleiros que comporiam o exército. Ou seja, o rei não dispunha de um exército
permanente sob o seu comando. Ele apenas dispunha de um número determinado de
cavaleiros, que prestavam serviços aos seus senhores durante alguns períodos do
ano.
Impostos. Os reis tendem a organizar a cobrança de impostos
e centralizar o recebimento. Assim como partes dos camponeses passaram a pagar
os serviços devidos aos senhores em dinheiro, estes também começaram a pagar ao
rei as suas obrigações feudais em dinheiro. Agora, o rei não dispunha do
serviço, mas tinha numerário para contratá-lo.
Burocracia. Assim como ocorreu nos casos dos impostos e do
exército, a burocracia se fortaleceu à medida que o rei necessitava, com o
aumento do seu poder e de suas atribuições, de um corpo administrativo mais
eficiente. Era preciso ter uma capital, a partir da qual seria administrado
todo o reino. E esta administração deveria ser exercida por funcionários
treinados e competentes que dessem conta das crescentes exigências do Estado
Moderno.
ABSOLUTISMO
Um soberano que esteja acima de todos os homens. Um
escolhido por Deus para comandar a nação, portador do direito natural de
promulgar leis e executá-las sem estar sujeito a nenhuma delas. Assim nasce o
Absolutismo, uma das faces do Estado Moderno. O rei precisa destacar-se do
corpo formado por homens poderosos, aristocratas, grandes comerciantes e o alto
clero. Ele precisava agregar à sua figura a maior carga de poder possível, para
enfrentar a crise que colocava em cheque a nobreza. O rei torna-se, então, o
representante do poder de toda a nobreza. E para efetuar condignamente essa
representação, ele precisou estar além daqueles que representava, bem como
esteve além das leis e das facções políticas. Ele deveria controlar todos os
acontecimentos do reino e nada poderia ocorrer sem a sua autorização.
MERCANTILISMO
Se o Absolutismo é uma das faces do Estado Moderno,
podemos dizer que o Mercantilismo é a outra. Você viu que o Absolutismo
defendia a idéia de que o rei deve intervir em todos os assuntos, e o rei aqui
significa o Estado. Portanto, a economia também era alvo do controle do Estado.
O Mercantilismo estava baseado num conjunto de procedimentos: a acumulação de
metais preciosos, a balança comercial favorável e a industrialização. Vamos
entender um pouco melhor esse tripé do Mercantilismo.
NAVEGAÇÕES
As colônias fazem parte do mundo moderno tanto
quanto do Mercantilismo. Para as nações que se formavam no alvorecer do período
Moderno, para além do horizonte de terras e mares conhecidos, erguiam-se infindáveis
paisagens. O mundo se ampliava. Regiões nem mesmo supostas emergiam do total
desconhecido. Um mundo novo era descoberto e construído pelos europeus.
REFORMAS RELIGIOSAS
A Europa medieval foi cristã e viveu sob a
autoridade de uma única Igreja, a Católica. Isso quer dizer que todos estavam
satisfeitos com a condução religiosa dessa única Igreja? Não! Porém, nem sempre
as insatisfações sociais se traduzem em rebeliões, revoluções, rupturas ou
secessões. Às vezes, as insatisfações são expressadas de forma mais tímida e
cuidadosa. E assim aconteceu entre muitos fiéis e a Igreja. Já na Idade Média,
muitos comportamentos religiosos discordantes foram perseguidos e taxados como
heresia. Alguns grupos se organizavam em torno de um pregador que interpretava
a Bíblia de maneira discordante do credo romano. Eles eram perseguidos e
calados, pois a igreja era considerada infalível e a grande responsável pela
unidade européia.
No final da Idade Média, as novas propostas e
contestações surgem com mais nitidez no horizonte religioso da cristandade. Não
é à toa que a Inquisição foi uma instituição poderosa e temida nos tempos
modernos. O seu trabalho aumentou e a sua missão era mais árdua: ela tentava
recuperar a unidade européia que por muito tempo foi simbolizada por uma única
religião. Mas, é do seio mesmo da igreja que irão surgir as vozes reformistas.
E nem toda reforma foi mal vista pelos dirigentes.
No interior da própria Igreja, muitos de seus
membros demonstravam descontentamento com a situação da instituição.
Reconheciam que alguns padres não eram
suficientemente instruídos para o desempenho das funções sacerdotais; que a
venda de indulgências carecia de critérios rígidos; que o luxo exacerbado era
incompatível com a mensagem de Cristo e que a população estava carente de uma
orientação espiritual mais adequada. Porém, o descontentamento era negociado e
pequenas e sutis mudanças eram efetuadas aqui e acolá.
CONCLUSÃO
Você acabou de estudar alguns aspectos de grande
importância na História Moderna. Um período de profundas transformações, que
presenciou o Renascimento, a formação dos Estados Modernos, a expansão marítima
e a criação do novo mundo. A História Moderna foi o palco de conquistas
espetaculares. Pela primeira vez na história, o homem adquiriu a noção de como
era o planeta, colocando cara a cara povos que se desconheciam. Foi um período
também conturbado, no qual as lutas religiosas, provocadas pela Reforma
protestante, crivaram de inimizades a unidade da Europa; no qual os Estados
emergentes se defrontaram em sangrentas batalhas pelo controle de rotas
comerciais e colônias espalhadas pelos continentes recém descobertos. Um
período que termina com uma das mais espetaculares revoluções que o mundo já
presenciou, a Revolução Francesa, que tentou jogar por terra as diferenças
entre os homens, estabelecendo o critério de igualdade perante a lei.
RESUMO
A história Moderna começa com a queda de
Constantinopla (1453), a capital oriental do Império Romano e vai até a
Revolução Francesa (1789). Durante estes três séculos, a Europa assistiu ao
desfile de fenômenos grandiosos na História do Homem. O Renascimento, o
Humanismo, as Grandes Navegações, a Revolução Científica e o Iluminismo são
eventos históricos que marcaram a invenção de um homem cada vez mais ligada e
consciente de suas capacidades de construir e reinventar o planeta e as
formas de convívio.
AULA 8 -
A REINVENÇÃO DO HOMEM
CONQUISTA E COLONIZAÇÃO DA
AMÉRICA E ÁFRICA
O
processo de expansão marítima e comercial europeu, iniciado por Portugal e Espanha,
desdobrou-se na conquista de terras no além-mar e na constituição de mecanismos
diversos de colonização. A navegação oceânica propiciou o acesso direto dos
europeus a regiões conhecidas (África e Ásia) e desconhecidas (América) até o
século XV. Esse acesso permitiu o contato com diferentes culturas, intensificou
as relações comerciais e produziu mudanças profundas nas áreas contatadas. Uma
primeira questão que pode ser mencionada é a incompreensão européia em relação
às culturas que encontrava. Predominou um desejo civilizatório e cristianizador
entre os europeus, que se viram como agentes de uma sociedade mais evoluída,
portanto, predestinada a levar padrões e valores de vida mais desenvolvidos
àqueles pagãos e infiéis. Claro que esse era o sentimento do europeu
colonizador, não do colonizado
O COMÉRCIO DE ESCRAVOS AFRICANOS
Embora a escravidão fosse conhecida na África antes
do processo de expansão islâmica, e de o comércio de escravos ter crescido com
o domínio islâmico do norte do continente através das ROTAS TRANSAARIANAS,
foi com o estabelecimento do comércio atlântico, a partir da expansão marítima
européia, que houve uma progressão geométrica da migração forçada de africanos.
O tráfico de escravos africanos foi responsável pela maior transferência
populacional, fruto da migração forçada, da histórica da humanidade.
No contexto africano
A organização das sociedades africanas tinha por
base a etnia e o parentesco. O sistema produtivo de linhagem, também chamado
doméstico, baseava-se em distinções estabelecidas por faixa etária e sexo. Os
mais velhos controlavam o acesso a terra e às mulheres – principais
trabalhadores agrícolas. Nesse contexto, os escravos eram dependentes e
ampliavam o coletivo mobilizado pelos mais velhos. Desempenhavam as mesmas
funções que os demais membros da linhagem: trabalhavam nos campos, caçavam,
defendiam as cidades contra agressores e participavam de cerimônias religiosas.
O escravo podia, ao longo do tempo, ser incorporado à linhagem, especialmente
se fosse mulher.
No contexto islâmico
Os Estados islâmicos do norte da África
incorporaram a longa tradição de escravidão, interpretando-a de acordo com sua
religião. Nesse sentido, os primeiros cativos foram produzidos pelas próprias
guerras de expansão, tidas como santas. A escravidão era uma espécie de
aprendizado religioso para os pagãos, um instrumento de conversão ao
islamismo.A redução das guerras de conquista, a consolidação dos domínios e a
conversão dos povos dominados não frearam a demanda por cativos. O escravo não
precisava ser necessariamente negro, mas ser pagão. Diante do impedimento de
escravização dos islâmicos, a demanda crescente por cativos passou a ser
atendida pelas regiões de fronteira. Nesse contexto, a África subsaariana,
negra, tornou-se a principal fornecedora de escravos para o mundo islâmico,
através de reinos como os de Gana, Mali, Songai, Bornu e Senar.
O critério religioso utilizado para justificar a
escravidão pelos islâmicos é útil para estabelecer uma comparação com as
justificativas cristãs. Serve igualmente de ponte para refletir sobre a
diferença de tratamento dado aos indígenas e aos africanos; assim como propicia
a discussão do papel que a religiosidade teve, e tem, para legitimar certas
ações, mascarando interesses, preconceitos, violências etc.
No contexto da expansão européia
Quando os portugueses chegaram ao rio Senegal, em 1445,
abriram uma rota paralela à transaariana, mas os negociantes islâmicos não
ficaram apartados do comércio; muito pelo contrário, passaram a encaminhar aos
novos pontos de intercâmbio produtos como sal, têxteis, peixes, cereais,
escravos, ouro, noz-de-cola. Alguns desses produtos vinham da África do Norte,
e outros, de entrepostos estabelecidos no interior sob o domínio de reinos
locais.Até a segunda metade do século XV, os cativos eram um “artigo” dentre
outros no comércio europeu com a África Ocidental. O incremento progressivo da
produção de cana-de-açúcar – primeiro nas ilhas do Atlântico, depois no
arquipélago de São Tomé e, por fim, em certas regiões da América – mudou essa
situação.O tráfico de escravos africanos tornou-se indispensável para o colonizador
europeu, em função da ausência de mão-de-obra substitutiva nessas regiões e da
lucratividade que proporcionava aos europeus.
CONCLUSÃO
Assim como aconteceu com as sociedades americanas
pré-coloniais – descaracterizadas, uniformizadas e despossuídas de suas
identidades devido à visão européia de que eram todos indígenas –, os homens
africanos foram desconsiderados como integrantes de etnias diversas, com
culturas próprias e identidades particulares. Tornaram-se genericamente
africanos, negros, boçais, contribuindo para um longo processo de apagamento do
conhecimento sobre as sociedades com as quais os europeus se defrontaram a
partir do século XV.Urge, em uma sociedade na qual o racismo está latente e que
tem suas raízes históricas ligadas à África, que se promova o resgate da
história das sociedades africanas. Só com o conhecimento dessa trajetória, que
une África e América pelo tráfico, pela escravidão e pela colonização, será
possível chegar a uma reflexão madura sobre a identidade brasileira.
RESUMO
A partir das relações comerciais estabelecidas
pelos europeus na África é possível ter a dimensão das transformações que foram
produzidas e consolidadas após o século XV naquele continente. O trafico de
escravos, por exemplo, foi responsável por marcantes alterações na constituição
e percepção da escravidão pelas sociedades africanas, pela migração forçada de
milhões de indivíduos e pela rearticulação das formas de detenção do poder
político.
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