Resumo
aula 01 Movimentos Sociais e Educação | Conceito e tipologia
AS ORDENS PASSIVA E ATIVA
DOS MOVIMENTOS SOCIAIS
No que diz respeito à ordem de ação social, podemos dizer
que há duas ordens bem definidas de movimentos sociais: a) uma passiva e
b) uma ativa.
Concebemos o primeiro tipo de ordem dentro da
nomenclatura passiva, pois, a forma pela qual o movimento social se
articula para realizar seus objetivos ocorre de modo bastante tranqüilo.
Trabalhos comunitários e de associações de bairro, grupos religiosos, ONGs e
empresas voltadas para a responsabilidade social, cujos propósitos se endereçam
para a multiplicação de bens e serviços sociais dentro de moldes e padrões
determinados como um modo de vida tal qual o modo seguido pelas classes
hegemônicas, são exemplos de movimento social de ordem passiva.
A ordem de movimento social passiva é aquela em
que determinadas pessoas socialmente adaptadas se organizam de forma a ajudar
outras menos privilegiadas, sem atritos sociais.
Tenta-se manter alguns elementos socioestruturais de
forma mais ampla, beneficiando uma determinada camada ou grupo social dentro de
uma organização previamente estruturada (como uma escola, indústria ou mesmo o
governo de um país).
Os movimentos sociais podem ser considerados como
empreendimentos coletivos para estabelecer nova ordem de vida. Têm eles início
numa condição de inquietação e derivam seu poder de motivação na insatisfação
diante de uma forma corrente de vida, de um lado, e dos desejos e esperanças de
um novo esquema ou sistema de viver, do outro (LEE apud LAKATOS, 1990).
Desta forma, você pode entender perfeitamente que um
movimento social de ordem passiva ocorre devido à necessidade de mudanças, mas
de acordo com a defesa de instituições que garantem e mantêm as estruturas
hegemônicas.
Movimento social de ordem ativa. Esta ordem difere da
anterior pelo fato de resistir e se contrapor à organização instituída.
Coletivamente, atua de modo a concentrar sua agitação objetivando conquistar
interesses concretos de forma a seguir um plano traçado para alcançar (o
estabelecimento de) uma nova ordem.
Nessa direção, o movimento social de ordem ativa implica
mudanças sociais não apenas no que diz respeito à inserção de pessoas dentro de
estruturas já instituídas pelos valores hegemônicos, mas também no que diz
respeito às mudanças na expressão cultural de tais valores, estabelecendo uma
nova representação de vida e, por extensão, um outro modo de viver o cotidiano.
É o caso do Movimento dos
Sem-Terra, o MST.
O MST é uma das maiores lições que podemos tirar da
história dos movimentos sociais. Um grupo de pessoas humildes, vivendo na
difícil realidade rural brasileira, diante dos problemas da falta de
propriedade, iniciou um trajeto de união de interesses para resolver seus
problemas de habitação. Ao empreender a luta pela reforma agrária, acabou
entendendo que a conquista de todos os direitos sociais quecompõem o que se
poderia chamar de cidadania plena exige também uma reforma na Educação de seus
participantes.
Nesse sentido, o MST é um movimento social ativo, pois,
em sua luta, institui uma nova representação social, a dos “sem terra”, cuja
cultura difere do modo de vida das classes hegemônicas e revela uma preocupação
em transformar politicamente nossa sociedade de consumo.
Certa vez, em 1999, perguntamos ao líder do MST por que
não se candidatava a uma cargo político em Brasília. A expressão de descontentamento
tornou-se patente. Ele respondeu que o movimento representava uma força de
expressão contrária a toda forma de organização já existente. A contraposição
em seus propósitos fundamenta uma nova forma de organização e, portanto, de
representação social, de modo que, caso um de seus membros se candidatasse,
reproduziria tudo aquilo o que o MST é contra. Por conta disso é que houve, na
mesma época, um escândalo em torno de uma secretária do MST, ao posar nua para
a revista Playboy. Ao se expor nua, ela quebrou, segundo o mesmo líder,
os valores sociais do MST, vinculando-se à venda de imagem tal como orienta o
mercado de produtos, próprio do sistema capitalista.
A Educação entre os membros do MST, por exemplo, ocorre
em processo, com a participação de crianças, mulheres, jovens e idosos na
construção de relações e consciências distintas do senso comum dito
“majoritário” – alguém de vocês já viu alguma escola que reúna todos esses
grupos num mesmo espaço de ensino, por exemplo?
Assim, nesse primeiro momento, aprendemos de imediato que
os movimentos sociais podem ser categorizados em duas ordens:
a) passiva, quando determinado(s) grupo(s)
tenta(m) manter alguns elementos socioestruturais de forma mais ampla, na
tentativa de ampliar certos benefícios sociais reconhecidamente instituídos;
b) ativa, quando determinado(s) grupo(s) tenta(m)
romper padrões sociais instituídos de modo a criar atritos de ordem política,
no afã de profundas transformações sociais.
Por fim, destacamos que a característica fundamental dos
movimentos sociais compreende a união de pessoas no desejo de estabelecer uma
nova ordem de vida, seja através de atritos, seja de forma coadunada com a
legalidade instituída.
TIPOLOGIA DOS MOVIMENTOS
SOCIAIS
a) Tipo Migratório
Sua característica principal é a insatisfação com sua
sociedade de origem, independendo se tal tipo de movimento social é composto
por famílias ou indivíduos organizados em grupos. Os seus agentes migram na
esperança de melhores condições sociais para um lugar totalmente diferente do
local de origem.
Ex.: Os movimentos migratórios de nordestinos para o
Sudeste do país, levando-os a um tipo de agregação representativa no Rio de
Janeiro e em São Paulo.
b) Tipo Progressistas
Os membros do tipo progressista fazem parte de um
segmento específico da sociedade (os que aspiram a mudanças pela sua ação) e,
ao agir, forçam outros segmentos a modificar a estrutura social estabelecida,
no afã de mudanças positivas. Também são chamados de liberais.
Agem no desejo de mudar, numa atualização social
permanente contrapondo-se a regras, leis e tradições existentes.
Ex.: Sindicalistas, partidos políticos, comunidades
eclesiásticas.
c) Tipo Conservacionistas ou de Resistência
Caminham exatamente na contramão dos progressistas, isto
é, não somente resistem às reformas e mudanças, como procuram, até mesmo,
retornar à ordem anterior as obras sociais conquistadas.
Ex.: Grupos que se manifestam contra a legalização do
aborto e do divórcio; ecólogos desejosos de um retorno ao naturalismo maculado
pelo mundo altamente industrializado.
d) Tipo Regressivos ou Reacionários
Movimentos sociais que reúnem indivíduos insatisfeitos
com mudanças e almejam restabelecer as condições sociais que antes imperavam.
Segundo Lakatos (1990), esses indivíduos formam grupos a
partir “do descontentamento e de tendências de determinada mudança” (p. 296).
Ex.: Ku Klux Klan, neonazistas, Tradição, Família e
Propriedade (cuja proposta se fundamenta em princípios “puristas” da família
cristã).
e) Tipo Reformistas
Movimentos sociais cujos membros primam por introduzir o
que acreditam ser o melhor para a sociedade à qual pertencem, sem alterar as
estruturas básicas estabelecidas. Dependendo do tipo de sociedade em que se
encontram, seus membros acabam por enfrentar grandes resistências ou incentivos
para sua dinâmica. A resistência é inevitável em sociedades de regime
autoritário, onde mudanças advindas da participação do consenso coletivo se
contrapõem, natural e indubitavelmente, à tirania. Por outro lado, o mesmo
consenso coletivo é desejável nas sociedades de governo democrático. Logo, na
democracia, os movimentos sociais de natureza reformista são essenciais para a
atualização de sistemas estruturais societários.
Ex.: Movimentos feministas, homossexuais, ou mesmo o
movimento abolicionista durante o período do Império.
f) Tipo Expressivos
Grupos que, longe de propor transformações na sociedade
em que se encontram, direcionam-se a realizar transformações em sua própria
percepção e reações frente ao que é socialmente conflitante, desagradável e
confinante.
Ex.: Movimentos religiosos: como o Hare Krishna e o
Messiânico.
g) Tipo Utópicos
São compreendidos como movimentos separatistas, pois
fecundam uma realidade paralela à que se vive, numa dinâmica de idealização
social. Livros como A República, de Platão, e A cidade de Deus,
de Santo Agostinho, retratam o desejo humano de viver dentro de situações
utópicas.
Assim, esse tipo de movimento social se caracteriza pela
fuga da realidade, criando um discurso para fundamentar uma sociedade ideal.
Ex.: O movimento hippie.
h) Tipo Revolucionários
Movimentos sociais que se organizam para combater o que é
socialmente conflitante, desagradável e confinante. Os grupos que se formam
dentro desse tipo de movimento social desejam mudanças rápidas e saem em campo
para romper com a ordem hegemônica para conquistar seus interesses.
Ex.: IRA.
Assim, conforme vimos em Lakatos (1990), os movimentos
sociais se dividem em diferentes tipos, de acordo com suas características
específicas: migratórios; progressistas; conservacionistas ou de resistência;
regressivos ou reacionários; reformistas; expressivos; utópicos;
revolucionários.
Resumo aula 02 Movimentos Sociais e Educação | Genealogia
FASE DOS
MOVIMENTOS SOCIAIS
Segundo Lakatos (1990), há diferentes
estágios em que podemos classificar o seu desenvolvimento estrutural. Essa
autora acredita que todos os movimentos sociais passam pelos mesmos estágios em
sua gênese constitutiva, sendo eles:
a) agitação; b) excitação; c) formalização;
d) institucionalização.
Agitação – Segundo a autora, é um estágio prolongado em que a população,
apesar de insatisfeita, nada faz em termos de ação rumo à união de grupos para
o alcance de seus propósitos sociais, “talvez por não saber atuar” (p. 298).
Excitação – A intranqüilidade existente no estágio anterior, generalizada e
vaga, totalmente sem direcionamento para alcançar metas, dá lugar a uma
canalização das
tensões vividas por determinados grupos.
Aparece, então, a importância do líder, cujo discurso dá sentido e propósitos
para que determinadas coletividades sigam num mesmo endereçamento para a ação
de transformação na dinâmica social de que fazem parte.
Formalização – Lakatos (1990) admite que alguns grupos podem não prescindir de
formalização. Cita os grupos migratórios como sendo aqueles que não carecem de
uma organização para direcionar os passos de sua ação. Em contrapartida, outros
grupos dependem de uma ideologia, uma moral ou, ainda, uma significação sólida,
para justificar sua ação numa direção específica de seu movimento socialmente
transformador.
Institucionalização – É o estágio em que ocorre a notoriedade social da identidade e
ideologia dos movimentos sociais. De modo geral, o carisma dos primeiros
líderes é substituído pelo profissionalismo de representantes capazes de
conduzir os movimentos dentro de sua institucionalidade. Em tal estágio, “o
Estado atua para desestabilizar e/ou desmobilizar o movimento” (ibid.).
Geralmente o Estado apresenta uma atuação
desestimuladora frente aos movimentos sociais que se propõem a atualizá-lo
administrativa e economicamente. E isto devido ao fato de que o Estado age como
uma instituição já socialmente consolidada, cuja estrutura, operada em sistemas
(sistema de saúde, de educação, de habitação etc.), deve ser incorporada à vida
dos cidadãos.
Uma vez institucionalizado, enfim, um
movimento social deverá ser coerente em seus princípios para não perder a
direção a partir da qual se fez o desejo de transformar a realidade social, e
se tornar mais uma dinâmica social contraditória em sua prática!
O êxito dos movimentos sociais depende não
somente da competência, através da qual líderes se demonstrarão capazes de
direcionar o descontentamento percebido coletivamente, sem cair na incoerência
do discurso ideológico inicial, a fim de assegurar uma consistência moral ao
grupo, mas, fundamentalmente, na capacidade de pessoas carismáticas mediarem o
agrupamento de pessoas por intermédio de uma significação comum diante de um
mesmo tipo de sentimento; um sentimento inicial e teoricamente engendrado pela
“injustiça social”: o sentimento de abandono.
No Brasil, é notório o sentimento de
insatisfação dos professores em face de seus salários. Mesmo pertencendo a um
sindicato que garante determinados direitos à classe docente, dificilmente
encontraremos um professor satisfeito com o salário que ganha. Podemos dizer,
portanto, conforme aprendemos, que o sindicato dos professores, na defesa de
seus interesses, funciona dentro de uma ordem passiva, numa tipologia
reformista e já totalmente institucionalizada. Nem por isso deixa de ser
movimento social, pois todo sindicato tem esse perfil: a organização de pessoas
para o estabelecimento de uma nova ordem (ou ajustes) de vida.
O fenômeno do exemplo do morro da Mangueira,
de cujos trabalhos se destacam dinâmicas artísticas, esportivas e educacionais,
retrata o fato de sua assistência estar estruturada como um movimento social de
ordem passiva, dentro de uma tipologia progressista e reformista, num estágio
sólido de institucionalização. O morro da Mangueira, enfim, graças a seus
projetos e atividades variadas, tornou-se um modelo de movimento social
desejável “aos olhos” do Estado.
Na discussão entre interesses hegemônicos e
interesses de minorias, o que se tem são tensões de força. Por isso, nem sempre
(ou quase nunca...) é fácil o governo aderir a decisões decorrentes das
insatisfações coletivas.
Segundo Lakatos (1990), as quatro fases para
a formação de um movimento social. São essas: a) a agitação, b) a excitação, c)
a formalização, d) a institucionalização.
Tornamo-nos cientes de que os movimentos
sociais não raro resultam de um sentimento dividido coletivamente. Sentimento
derivado da insatisfação de um determinado desconforto diante de uma
circunstância social desagradável e pendente de solução (a agitação); de um
momento conseguinte, no qual são identificados determinados focos de
intranqüilidade, pelo que o espírito de solidariedade frente a mudanças emerge
de forma direcionada (a excitação); de um estágio em que a solidariedade citada
se desenvolve moral e ideologicamente para o planejamento da ação em grupo (a
formalização); e, por fim, o status de sobreviver como entidade que o
Estado passa a reconhecer como agente social capaz de atuar positivamente na
sociedade (a institucionalização).
Resumo aula 03 Movimentos Sociais e Educação | Condições estruturais, fatores individuais e situações favoráveis
ELEMENTOS PROPICIADORES À FORMAÇÃO DOS
MOVIMENTOS SOCIAIS
A compreensão dos elementos propiciadores à formação dos
movimentos sociais aponta para os seguintes fenômenos, segundo o pensamento de
Lakatos (1990): a) condições estruturais; b) motivos individuais; c) condições
sociais.
Condições estruturais que, socialmente, inclinam pessoas
a se aglutinarem para agir numa direção comum. São essas, segundo Stockdale:
(in HORTON; HUNT apud
LAKATOS, 1990, p. 299):
a) descontentamento social – sentimento de inadequação ou
de injustiça decorrente da estrutura social vigente;
b) bloqueio estrutural – barreiras levantadas pela
estrutura social impedindo pessoas e grupos de eliminarem a fonte que origina o
seu descontentamento;
c) contato – possibilidade de encontro e interação por
parte dos elementos descontentes, submetidos à mesma situação social;
d) eficácia – consubstanciada na expectativa do grupo de
que uma ação particular proposta aliviará os motivos de descontentamento e
trará alterações desejadas na organização da sociedade;
e) ideologia – conjunto de idéias e crenças que têm por
finalidade justificar a ação proposta.
Há determinados fatores individuais que propiciam a união
de pessoas para formar um movimento social. Tais fatores são: a) mobilidade; b)
marginalidade; c) isolamento e alienação; d) mudança de status social;
e) ausência de laços familiares; e f) desajustamento pessoal.
a) Mobilidade – Refere-se ao fato de que as
contingências materiais e sociais impelem pessoas a se moverem de uma região a
outra, procurando obter melhores condições de vida.
b) Marginalidade – Determinadas pessoas podem se
sentir estimuladas à formação de movimentos sociais, caso se entendam
marginalizadas. O conceito de marginalidade é mais amplo do que o entendido
pelo senso comum, que geralmente o usa como sinônimo de bandidagem. Como
“marginal” devemos entender tudo aquilo e aqueles que se encontram na periferia
da estrutura básica da sociedade.
c) Isolamento e alienação – Afetam pessoas que,
por razões econômicas ou por conta de doenças, entre outros motivos, acabam se
afastando da sociedade que lhes é comum.
d) Mudança de status social – Segundo
Lakatos (1990), ao ascender socialmente, uma pessoa poderá se tornar insegura a
ponto de ingressar em um movimento social na expectativa de evitar a ameaça de
retorno à perda do status alcançado.
e) Ausência de laços familiares – A falta de pessoas
da família para cuidar pode levar pessoas a se ocuparem de outras, no afã de se
sentirem úteis e de resolver problemas ligados à afetividade.
f) Desajustamento pessoal – A mesma autora
sustenta o argumento de que pessoas desajustadas temporariamente são diferentes
das pessoas patologicamente desajustadas. As primeiras, numa situação de
desemprego, por exemplo, poderiam se engajar em movimentos sociais, mas, uma
vez defendidos os seus próprios interesses e adaptadas à sociedade em comum,
dificilmente continuam fazendo parte de movimentos sociais.
CONDIÇÕES SOCIAIS PROPICIADORAS DOS
MOVIMENTOS SOCIAIS
A autora destaca as correntes culturais, a desorganização
social ou a ANOMIA (Ausência de regras numa determinada sociedade ) e o
descontentamento social como sendo os fatores mais relevantes para o incentivo
à formação dos movimentos sociais.
a) Correntes culturais – As correntes culturais
parecem ser engendradas a partir das relações de produção. A idéia de que
pessoas precisam produzir novos produtos e coisas já implica transformações
culturais, pois ninguém produz algo cuja lógica fomente a crença de que tal
produto não promoverá uma melhor sobrevivência das pessoas no mundo.
b) Desorganização social ou anomia – A vida social
é um processo em pleno movimento dinâmico em sua produtibilidade; situações
novas emergem continuamente da dinâmica inerente à produção da ordem social, em
um fluxo intermitente de novas necessidades compostas pelas relações humanas.
A anomia significa isso: a total falta de normas sociais,
pelo que se insta uma “sociedade doente”.
Lakatos (1990) afirma que o estado de confusão e
incerteza trazido pela anomia aos atores sociais
c) Descontentamento social – Esse estado, como
denomina Lakatos (1990), diz respeito ao imaginário coletivo. Para a autora, a
insatisfação comum disseminada pela sociedade geralmente decorre de três
situações. São essas:
– privação relativa – ocorre pelo fato de as
pessoas entenderem que poderiam materialmente ter muito mais do que deveriam
ter, na comparação entre o que consomem e o que idealmente pensam que poderiam
consumir.
– percepção da injustiça – diante das diferenças
sociais, o juízo de valor e o sentimento de indignação de pessoas de qualquer
classe podem justificar o aumento da incidência de movimentos sociais – na ação
de grupos tentarem minimizar fatos ou condições que ajuízam injustos.
– incoerência de status – “situação em que
as diferentes posições ocupadas por uma pessoa não são coincidentes”.
Caminham exatamente na contramão dos progressistas, isto
é, não somente resistem às reformas e mudanças, como procuram, até mesmo,
retornar à ordem anterior as obras sociais conquistadas.
Ex.: Grupos que se manifestam contra a legalização do
aborto e do divórcio; ecólogos desejosos de um retorno ao naturalismo maculado
pelo mundo altamente industrializado.
d) Tipo Regressivos ou Reacionários
Movimentos sociais que reúnem indivíduos insatisfeitos
com mudanças e almejam restabelecer as condições sociais que antes imperavam.
Segundo Lakatos (1990), esses indivíduos formam grupos a
partir “do descontentamento e de tendências de determinada mudança” (p. 296).
Ex.: Ku Klux Klan, neonazistas, Tradição, Família e
Propriedade (cuja proposta se fundamenta em princípios “puristas” da família
cristã).
e) Tipo Reformistas
Movimentos sociais cujos membros primam por introduzir o
que acreditam ser o melhor para a sociedade à qual pertencem, sem alterar as
estruturas básicas estabelecidas. Dependendo do tipo de sociedade em que se
encontram, seus membros acabam por enfrentar grandes resistências ou incentivos
para sua dinâmica. A resistência é inevitável em sociedades de regime
autoritário, onde mudanças advindas da participação do consenso coletivo se
contrapõem, natural e indubitavelmente, à tirania. Por outro lado, o mesmo consenso
coletivo é desejável nas sociedades de governo democrático. Logo, na
democracia, os movimentos sociais de natureza reformista são essenciais para a
atualização de sistemas estruturais societários.
Ex.: Movimentos feministas, homossexuais, ou mesmo o movimento
abolicionista durante o período do Império.
f) Tipo Expressivos
Grupos que, longe de propor transformações na sociedade
em que se encontram, direcionam-se a realizar transformações em sua própria
percepção e reações frente ao que é socialmente conflitante, desagradável e
confinante.
Ex.: Movimentos religiosos: como o Hare Krishna e o
Messiânico.
g) Tipo Utópicos
São compreendidos como movimentos separatistas, pois
fecundam uma realidade paralela à que se vive, numa dinâmica de idealização
social. Livros como A República, de Platão, e A cidade de Deus,
de Santo Agostinho, retratam o desejo humano de viver dentro de situações
utópicas.
Assim, esse tipo de movimento social se caracteriza pela
fuga da realidade, criando um discurso para fundamentar uma sociedade ideal.
Ex.: O movimento hippie.
h) Tipo Revolucionários
Movimentos sociais que se organizam para combater o que é
socialmente conflitante, desagradável e confinante. Os grupos que se formam
dentro desse tipo de movimento social desejam mudanças rápidas e saem em campo
para romper com a ordem hegemônica para conquistar seus interesses.
Ex.: IRA.
Assim, conforme vimos em Lakatos (1990), os movimentos
sociais se dividem em diferentes tipos, de acordo com suas características
específicas: migratórios; progressistas; conservacionistas ou de resistência;
regressivos ou reacionários; reformistas; expressivos; utópicos;
revolucionários.
Resumo aula 04
Movimentos Sociais e Educação | Condutas coletivas
Os movimentos sociais seriam inexistentes se
“atores sociais” não se organizassem para agir em grupo, na defesa de
interesses. podemos teoricamente, tal qual nos ensina Allain Tourraine (2002),
dividir as condutas coletivas em dois níveis:
• organizacional;
• social.
Condutas coletivas. Tais condutas resultariam
da ação das pessoas em determinadas comunidades para defender,
contestar, ou defender e contestar ao mesmo tempo, seus interesses de
ordem social. Tourraine, assim, define os movimentos sociais como
“a ação conflitante de agentes das classes sociais lutando pelo controle
do sistema de ação histórica” (p. 283).
Conforme o pensamento de Tourraine (2002),
para realizar uma correta análise das condutas coletivas, é fundamental
considerar o fato de que, dependendo de seus interesses, os atores “se misturam”
(“pobres” e “ricos”, por exemplo). Atores se agrupam, na dimensão dos sistemas
institucionais, de forma diferenciada, através do desenrolar de seus papéis
(papel de pai, professor, profissional liberal, “sem teto” etc.). “Misturam-se”
porque são convocados a desempenhar uma ação socialmente importante, de acordo
com fatores culturais e situacionais, representados na dinamicidade do
espaço-tempo de suas vidas, nos conflitos das tensões sociais. Veja, por
exemplo, o MST.
Quantos intelectuais e artistas, e mesmo
pessoas do Governo, não defendem e se unem pela causa de problemas de falta de
moradia dos “sem-terra”? No entanto, tais classes, diferentemente dessa última,
são socialmente privilegiadas.
A organização é compreendida como uma
estrutura materialmente definida para a produção efetiva de resultados
concretos: um carro, o saber construído numa escola ou o atendimento médico em
um hospital qualquer (público ou privado). Um carro, o saber (escolar ou
não), qualquer tipo de atendimento são fenômenos mundanos e, portanto,
decorrentes da ordem construída pela mão do homem;
A instituição é um complexo integrado de
idéias, padrões de comportamento, relações políticas e, muitas vezes, um
equipamento material, organizados em torno de um interesse socialmente
reconhecido. As instituições são erguidas por uma razão vital: a manutenção
da sobrevivência humana e, nesse sentido, há uma série de acordos para o seu estabelecimento, que são políticos e materiais, a fim
de colocar sistemas politicamente acordados em funcionamento;
O conceito de organização abrange também a
concepção de um sistema de relações entre os membros de um grupo ou entre os
grupos de uma sociedade, relações essas que envolvem obrigações e compensações
recíprocas, diante de padrões de contribuições e retribuições sociais. Como
as instituições são construídas para a manutenção da vida humana, é
fundamental que os humanos dos quais as instituições dependem para se manterem estabelecidas compreendam e
obtenham delas vantagens para a sua própria sobrevivência.
Quais são os
dois níveis de condutas coletivas? Como ocorrem?
Organizacional e social. O
primeiro nível (organizacional) ocorre dentro das estruturas decorrentes das
leis estabelecidas institucionalmente; o segundo nível (social), no âmbito das próprias
instituições.
O que o passado
e o futuro têm a ver com o desenrolar das condutas coletivas?
Por ser um
sujeito histórico, o Homem está sempre se remetendo a âncoras do passado para
refletir melhor sobre as ações que crêem poder ser positivas para o seu futuro.
Nesse sentido, muitas vezes, os atores sociais mencionam ou lembram o passado
para ilustrar que agir é necessário para a conquista de futuras transformações
sociais.
Resumo aula
05 Movimentos Sociais e Educação | MST – Movimento dos Sem-Terra
No Brasil, as
invasões de terra se misturam com as lutas pela moradia popular na cidade de
São Paulo, lutas que fazem parte da própria história de urbanização da cidade.
O Movimento dos
Sem-Terra faz parte dessa história e destaca-se, em 1987, pelas manifestações
da Zona Leste de São Paulo. Enquanto a imprensa denominava suas ações de
“invasões” de terra, seus líderes as denominavam “ocupações”. Diferentemente do
que se verifica na década de 1970, com a formação de favelas na Grande São
Paulo, as manifestações das ocupações de terra na década de 1980 forçaram
negociações com o Estado, pois se tratava de ocupações coletivas e organizadas
cujo objetivo era estabelecer direitos de moradia popular, criando polêmicas e
conflitos, caso isso fosse necessário. Daí originaram-se projetos populares
para a construção de moradias. Por isso, o MST tornou-se uma referência para a
organização popular que se inclinou à multiplicação de buscas incessantes e
socialmente necessárias para os assentamentos em diferentes pontos do país.
Na Zona Leste,
todos os movimentos vinculados à posse da terra estavam intimamente associados
à Igreja. O MST, que surgiu oficialmente em 1983, no estado de São Paulo,
obteve sua ação na Zona Leste apoiado pela Igreja Católica. Sua efetiva
organização viabilizou uma manifestação ímpar na história da política
brasileira, diante do Palácio Bandeirantes, “representando 60 municípios
paulistas e pretendendo pressionar o governo do Estado para obter promessas
relativas à reforma agrária em São Paulo” (ibid., p. 80).
Entre 1984 e
1986, graças ao apoio da Pastoral e à sua alta organização para a ação
política, o MST conquistou 1.788 lotes através de programas municipais,
principalmente o Projeto João de Barro, onde as famílias constroem suas casas
com material financiado pela Cohab. Os terrenos também são financiados pela
Cohab ou pelo Funaps (Fundo de Atendimento à População Moradora em Habitação
Sub-Normal) (ibid., p. 81)
HISTÓRIA
DO MST
Institucionalizado
em 1985, o MST atualmente está presente em 23 estados e participa ativamente da
ação pública, através da representatividade de 1,5 milhão de seus membros. Há
300 mil famílias assentadas e 80 mil em acampamentos. As ocupações de fazendas
e áreas diversas marcam a história contemporânea do espaço público e transformam
o perfil da cultura brasileira, vista como uma cultura de festas de carnaval e
pouco politizada, apesar de que a luta pela terra no Brasil surgiu bem antes do
MST.
Finalmente, em
1984, o MST é fundado oficialmente no 1º Encontro dos Trabalhadores Rurais
Sem-Terra, realizado em Cascavel, PR. O 1º Congresso Nacional dos Sem-Terra
ocorre no ano seguinte.
A história dos
sem-terra nos demonstra que a luta organizada é condição para as conquistas
sociais. A organização de acampamentos, ocupações diversas (em sedes de
governos e fazendas), marchas, destruição de plantações de transgênicos e
greves de fome são exemplos de suas ações.
Em 19 de abril
de 1997, várias pessoas de diferentes pontos do país alcançaram Brasília pela
Marcha Nacional por Emprego, Justiça e Reforma Agrária. Em agosto de 2000, o 4º
Congresso Nacional contou com a participação de onze mil congressistas.
Dezessete anos
de luta fizeram com que os líderes do MST organizassem sistemas internos e
reivindicações para além da conquista da terra. A possibilidade de crédito, de
construção de moradia, de obtenção de assistência técnica e educação, de
atendimento à saúde, entre outras necessidades das famílias sem-terra, são
aspectos que levam famílias assentadas a permanecerem associadas ao MST em luta
contra as desigualdades sociais.
Existem hoje
cerca de 400 associações de produção, comercialização e serviços; 49
Cooperativas de Produção Agropecuária (CPA) com 2.299 famílias associadas; 32
cooperativas de prestação de serviços com 11.174 sócios diretos; duas
cooperativas regionais de comercialização e três cooperativas de crédito com
6.521 associados. São 96 pequenas e médias agroindústrias que processam frutas,
hortaliças, leite e derivados, grãos, café, carnes e doces. Essa realidade não
teria sido conquistada sem lutas. Os empreendimentos econômicos do MST geram
emprego, renda e impostos, beneficiando indiretamente cerca de 700 pequenos
municípios do interior do Brasil. Aliada à produção está a educação: cerca de
200 mil crianças estudam da 1ª à 4ª série nas 1.800 escolas públicas dos
assentamentos. Quatro mil educadores são pagos pelos municípios e desenvolvem uma pedagogia específica para as
escolas do campo. Em conjunto com a Unesco e mais de 50 universidades, o MST
desenvolve programas de alfabetização para aproximadamente 30 mil jovens e
adultos nos assentamentos. Há diversas universidades brasileiras (PA, PB, SE,
ES, MT, MS e RS) envolvidas com cursos de Pedagogia e Magistério para formar
novos educadores dentro dessa perspectiva pedagógica. Há também a formação de
técnicos em administração de assentamentos e cooperativas e magistério. Em
2001, iniciaram o curso técnico em Enfermagem e um Programa de Educação
Ambiental para lideranças, professores e técnicos de áreas de assentamentos,
associado ao Ministério do Meio Ambiente. Preservação de matas, plantio
orgânico e produção de ervas medicinais são outras ações de significativa
representatividade política do MST. A luta do MST continua situando a ação em
grupo, unindo e convocando a união de movimentos do campo e da cidade,
objetivando continuar seu propósito de construir um projeto popular no Brasil.
ANÁLISE
DAS CATEGORIAS TEÓRICAS PRESENTES NA HISTÓRIA DO MST
Poderíamos
classificar esse movimento como de ordem ativa, pois seus membros querem alterar
a ordem da estrutura social, estabelecendo novos direitos e modelos para a
organização social.
Quanto à
tipologia, você poderá facilmente identificar que há um conjunto de
características que se imbricam. Podemos dizer que o MST tem um perfil
migratório, já que muitas vezes seus agentes migram, ao longo do país, na
esperança de melhores condições sociais; mas não deixa de ser um movimento
progressista, uma vez que, ao agir, o MST impele outros segmentos (Igreja e
partidos políticos) a lutar por modificações na estrutura social estabelecida.
Nesse sentido, torna-se um movimento reformista, considerando o fato de que
seus membros primam por introduzir o que acreditam ser o mais justo para a
sociedade a que pertencem, sem com isso alterar as estruturas básicas já estabelecidas (o MST quer a
distribuição de terras, ampliando o número de proprietários – mas a noção de
propriedade tal qual a entendemos permanece inalterada em seu uso, mesmo que se
estabeleçam cooperativas de proprietários de um mesmo solo). É revolucionário,
pois não deixa de ter um caráter de
combate ao que é socialmente conflitante, desagradável e confinante (como vem
sendo a privação que muitos cidadãos brasileiros vêm passando), saindo em campo
para romper com a ordem hegemônica, na conquista da distribuição da terra.
Resumo aula
06 Movimentos Sociais e Educação
O MST –
Movimento dos Sem-Terra – e a Educação
Para os líderes
do MST, lutar somente pela terra não é suficiente para uma reforma social. A
luta pela reforma agrária, assim, vai além da conquista da terra e abrange a
conquista da cidadania plena, cujo exercício exige a educação numa prática da
autonomia do pensamento. Este último, o pensamento, depende de um conjunto de
informações e práticas próprias do “estudar”. A Educação, assim, torna-se não
apenas um direito pelo qual também é preciso mobilização, organização e lutas
em nosso país, mas um desafio para a construção da autonomia.
Até onde temos
registro, o complexo do sistema de ensino do MST reúne um universo de 1.800
escolas de Ensino Fundamental, com 160 mil crianças e adolescentes freqüentando
essas unidades em acampamentos e assentamentos.
A
FILOSOFIA DA EDUCAÇÃO DO MST
A Educação nos
acampamentos e assentamentos tem seus princípios filosóficos voltados para:
• a formação da
sociedade por meio de valores humanistas e socialistas;
• a educação de
classe;
• a
transformação social;
• a cooperação;
• a valorização
do indivíduo.
A prática da
produção do conhecimento nos assentamentos e acampamentos decorre da realidade
dos estudantes. Segundo Coltro (1998), para compreender a situação da
agricultura no país, por exemplo, recorre-se ao pensamento de como a
agricultura do próprio
assentamento vem sendo produzida.
Relacionar
teoria e prática – para que os alunos tornem-se pessoas capazes de articular as
questões do dia-a-dia, ou problemas que aparecem no ambiente de trabalho e na
militância do MST – e combinar processos de ensino e de capacitação são os dois
primeiros preceitos pedagógicos do MST. Dirceu Queiroz dos Santos, um dos
coordenadores de educação do MST, explica que na Matemática, por exemplo, os
alunos utilizam o próprio processo de produção para compreender a disciplina.
‘Em um dos acampamentos do Estado de São Paulo, os estudantes mediram a área
onde um parque ia ser construído e calcularam quanto material seria utilizado.
Usaram a teoria da disciplina na prática’, diz Santos, relacionando a luta do
Movimento com as suas próprias experiências pessoais (Renata Coltro, com
reportagem de Luana Fischer – Semeando – Educação no MST Projeto Experimental –
Jornalismo – 4º ano PUC/SP – Junho /98).
“Saber-fazer” e
“saber-ser” são os saberes que guiam os educadores em sua meta pedagógica.
APRENDER
PARA O TRABALHO
A ligação entre
processos educativos, políticos, econômicos e culturais, para que os estudantes
sem-terra tornem-se militantes de fato, é outra preocupação pedagógica do
movimento: “A escola não pode negar sua relação com a política. Deve, portanto,
alimentar a indignação diante de situações de injustiça e impunidade que estão
sendo, atualmente, difundidas pelos meios de comunicação e pela sociedade”,
prega o boletim do MST. E para que os alunos pensem dessa forma, enfatizam-se o
estudo de História, o de Economia Política e, também, a participação dos
trabalhadores sem-terra em lutas sociais de outras categorias.
Nas escolas dos
acampamentos e assentamentos, pretende-se mostrar aos alunos que o trabalho é
gerador de riquezas e que se deve saber a diferença entre relações de
exploração e relações de igualdade na lida do campo. Há, também, uma
preocupação para que não se discrimine o trabalho manual, diante do intelectual
(id.).
O setor de
Educação, como núcleo administrativo do ensino no MST, também garante o trâmite
de reconhecimento do grau obtido nas escolas do MST pelo Ministério da Educação
e do Desporto (MEC), o que possibilita aos alunos o ingresso ao ensino superior
comum.
Os preceitos
pedagógicos cultivados no setor de Educação convergem para a filosofia
pedagógica do MST. São eles, segundo Coltro (id.):
– relacionar
teoria e prática;
– combinar
métodos de ensino e de capacitação;
– educar para o
trabalho;
– associar
educação e cultura;
– incentivar a
auto-organização dos estudantes;
– gerir
democrática e pedagogicamente as escolas;
– incentivar
atividades de pesquisa;
– associar
interesses coletivos e individuais.
PRINCÍPIOS
E LINHAS METODOLÓGICAS DO MST
Os princípios
pedagógicos, isto é, os caminhos de fazer e pensar a Educação têm como meta
concretizar determinados princípios filosóficos. Tornam-se elementos essenciais
para a prática educacional e, no caso do sistema de ensino do MST, inclui a
reflexão metodológica dos processos educativos, chamando atenção de que há
práticas diferenciadas a partir dos mesmos princípios pedagógicos e
filosóficos. Assim, as diferentes práticas pedagógicas entre escolas infantis
de assentamentos e cursos de ensino específico, como Técnico em Administração
de Cooperativas (TAC), atendem aos mesmos princípios filosóficos e pedagógicos.
PRINCÍPIOS
DA EDUCAÇÃO NO MST
As lutas sociais
do MST estão ligadas às defesas que ideologicamente o movimento sustenta. Note
que há coerência em termos de lutar pelo direito comum, de produzir o fazer
social de modo organizado e livre e o incentivo de uma prática de ensino cujos
participantes são induzidos à reflexão (exigida na prática da autonomia). Esse
fato vem despertando a admiração de governos estrangeiros que entendem o MST
gerir uma ação que socializa os seus participantes. Até porque, de certa forma,
as lutas sociais voltadas para o direito da ação coletiva em prol de conquistas
sociais corrobora o ponto de vista do livre comércio (por intermédio de
cooperativas, por exemplo). A ação social, deste modo, acaba por integrar
pessoas socialmente marginalizadas para o sistema econômico vigente, já que o
movimento cria suas próprias oportunidades para o trabalho, na ótica da
sustentabilidade e da ecologia, na esfera de sua realidade rural – aspectos essenciais à nova ordem globalizada da atual
economia mundial. Não é à toa que o MST vem despertando a atenção da ONU, de
ONGs e de diferentes governos.
As
principais defesas que permanecem como bases da Educação do sistema de ensino
do MST
• O direito, sem
restrição de idade, à educação básica.
• A construção
coletiva da escolarização.
• Metodologias e
práticas educativas adequadas à realidade do meio rural e do MST.
• Ensino público
de qualidade nas escolas dos assentamentos.
• Pedagogias
inspiradas em princípios libertários, freirianos.
Princípios
filosóficos da Educação no MST
• Educação para
a transformação social.
• Educação
aberta para o mundo, aberta para o novo.
• Educação para
o trabalho e a cooperação.
• Educação
voltada para as várias dimensões da pessoa humana.
• Educação como
processo permanente de formação/transformação humana.
Princípios
pedagógicos da Educação no MST
• Relação
permanente entre a prática e a teoria.
• Combinação
metodológica entre processos de ensino e de capacitação.
• A realidade
como base da produção do conhecimento.
• Conteúdos
formativos socialmente úteis.
• Educação para
o trabalho e pelo trabalho.
•Vínculo
orgânico entre processos educativos e processos políticos.
• Vínculo
orgânico entre processos educativos e processos produtivos.
• Vínculo
orgânico entre educação e cultura.
• Gestão
democrática.
•
Auto-organização dos/das estudantes.
• Criação de
coletivos pedagógicos e formação permanente dos educadores.
• Atitude e
habilidades de pesquisa.
• Combinação
entre processos pedagógicos coletivos e individuais.
A República, de
Platão, e A cidade de Deus, de Santo Agostinho, retratam o desejo humano de
viver dentro de situações utópicas.
Assim, esse tipo
de movimento social se caracteriza pela fuga da realidade, criando um discurso
para fundamentar uma sociedade ideal.
Ex.: O movimento
hippie.
h) Tipo
Revolucionários
Movimentos
sociais que se organizam para combater o que é socialmente conflitante,
desagradável e confinante. Os grupos que se formam dentro desse tipo de
movimento social desejam mudanças rápidas e saem em campo para romper com a
ordem hegemônica para conquistar seus interesses.
Ex.: IRA.
Assim, conforme
vimos em Lakatos (1990), os movimentos sociais se dividem em diferentes tipos,
de acordo com suas características específicas: migratórios; progressistas;
conservacionistas ou de resistência; regressivos ou reacionários; reformistas;
expressivos; utópicos; revolucionários.
Resumo aula
07 Movimentos Sociais e Educação | Ajudando a construir a
cidadania
Parece um
absurdo conceber a vida como sendo algo diferente de mundo, não é? Afinal, no
senso comum, usamos os dois conceitos para nos referirmos à mesma idéia. Por
exemplo, quem nunca emitiu as frases: “Eu não agüento mais essa vida!”, ou
ainda, “Eu não agüento mais esse mundo!”, numa mesma concepção?
O mundo é
construído pela ação do homem, cuja energia do corpo ergue a realidade mundana.
A vida independe do homem, pois ela continuaria animando o planeta, mesmo, que
aquele não existisse. A vida mundana depende da ação humana, mas a vida do planeta
não.
O
PAPEL DA EDUCAÇÃO
As práticas
educacionais transpassam, dessa forma, o preparo estritamente
profissionalizante e atingem a formação humana em termos, digamos,
“espirituais”. Nesse sentido, os PCN nos apresentam temas transversais, tais
quais a ética e a ecologia. A ética, aliás, no discurso do ensino atual,
propugna o respeito às diferenças etnoculturais, mantendo, assim, a ação
(política) de educadores numa direção (ética) necessária à sobrevivência de
múltiplas representatividades: saber ser tolerante diante
do que nos é
estranho/diferente. Construímos, desse modo, uma nova forma de ver, perceber e
significar o mundo dentro das seguintes “visões”:
• a visão
contemporânea da tolerância frente à realidade social – é um ideal, se
considerarmos os povos que são massacrados (de forma simbólica ou concreta) por
não compartilharem das mesmas idéias da ordem da economia mundial;
• a visão do
direito de expressão cultural – isso, em tese, pois as culturas norte-americana
e européia permanecem hegemônicas, com privilégios sobre a expressão da cultura
africana ou latino-americana, por exemplo;
• a visão do
direito de consumo – também em tese, já que o desemprego é um fenômeno mundial
e que a diferença de preços, mediante a qualidade da produção de mercadorias,
abre um largo abismo entre diferentes classes e nações;
• a visão de
eqüidade sociocultural, através da qualidade de vida baseada na difusão e no
uso de alta tecnologia, na auto-sustentabilidade e na ecologia – visão que se
aproxima da que citamos anteriormente, pois diz respeito ao consumo que, em
última instância, ocorre também apenas em tese, por motivos óbvios.
O
TERCEIRO SETOR
O que se entende
hoje como Terceiro Setor abrange os movimentos sociais propugnados por
voluntariedade de pessoas físicas, ONGs e empresas privadas. No Brasil, cada
vez mais crescem os movimentos sociais associados à mentalidade conceitual do
Terceiro Setor.
Organizações
privadas sem fins lucrativos constituem o Terceiro Setor. Este gera bens,
serviços públicos e privados, objetivando o desenvolvimento político,
econômico, social e cultural. Ocorre, então, que:
– O Estado é o
Primeiro Setor.
– O mercado é o
Segundo Setor.
– Entidades da
sociedade civil formam o Terceiro Setor.
As organizações
não-governamentais (ONGs), as associações e as fundações são exemplos do que
denominamos Terceiro Setor.
Para o professor
Mário Aquino Alves, da Fundação Getulio Vargas de São Paulo (veja a página da
internet www.Setor3.com.br), são fundamentais para o Terceiro Setor as características de:
a) Altruísmo –
“Amor ao próximo”; significa filantropia e caridade; nos estudos de economia e
sociedade, é considerada prática altruísta toda ação humana realizada sem
motivação pecuniária.
b) Assistência
Social – Compreende prestar serviços gratuitos de natureza variada a
membros de comunidades, visando a atender necessidades de desprivilegiados.
c) Associação
– É a formação social que congrega pessoas interessadas em agir
coletivamente em favor de um mesmo fim.
d) Associativismo
– Movimento que se mostra em avanço nos anos 60 e 70, incorporando,
basicamente, a ação paralela à do Estado; não ter fins lucrativos, e o caráter
internacionalista.
e) Ativismo –
Atividade de militância política encontrada em diversos movimentos sociais,
lembrando-nos das ações do Greenpeace e do MST.
f) Autogestão
– Modelo administrativo através do qual decisões e controle de empresas
decorrem dos trabalhadores. Diz respeito à participação direta e coletiva de
trabalhadores na tomada de decisões.
g) Auto-Regulação
– Indica a capacidade de as entidades estabelecerem suas próprias regras de
funcionamento, pelo que, teoricamente, as pessoas de uma entidade se tornam
capazes de criar estatutos e gerir seus destinos.
h) Auto-Sustentabilidade
– “Estado alcançado por uma organização quando consegue gerar – por meio de
suas próprias atividades – as receitas necessárias para garantir o
financiamento de todos os seus programas e projetos.”
Os movimentos
sociais são oficialmente desejáveis, desde que sigam modelos hegemônicos e que,
ao assistir desprivilegiados, não coloquem em risco os interesses da economia
que ordena a vida atual. Nesse sentido, por mais autonomia que possamos pensar
ter, há uma dominação ideológica de fazer e ordenar o mundo em sua
inevitabilidade; e, em nossas escolhas, permanecemos reféns do nosso tempo. A
liberdade, portanto, é uma idéia limitada às escolhas de que dispomos. Assim,
saber pensar o que lhe pode trazer alegria e bem-estar pode ser fundamental para
que você venha a agir no mundo ao qual pertence. Tudo dependerá da relação
entre a Educação
e a experiência
de vida de cada um, mediante a rede integrada de condições socioculturais e
econômicas a que nos encontramos sujeitos.
O Terceiro Setor
encontra-se afi nado com a nova ordem mundial, dentro de imperativos
fundamentais para atender ao mercado globalizado, cuja ótica econômica projeta
a difusão irrestrita do consumo do que se produz internacionalmente. Sob tal
premissa, exige-se de diferentes coletividades o saber pensar e gerir a si
próprias. Na prática de tais imperativos, o papel da Educação se destaca para a
construção simbólica desse tipo de mentalidade projetado pela nova ordem da
economia mundial. Uma relação de ensinoaprendizagem endereçada à multiplicação
de um modelo de vida a ser seguido por todos, no fomento do mundo em sua
inevitabilidade: um modelo concebido a partir de idéias de tolerância e
respeito entre diferentes representatividades, cujas vidas devem ser pensadas e
geridas por si mesmas – apesar de tudo isso ser muito diferente do que podemos
observar na prática.
Resumo aula
08 Movimentos Sociais e Educação | O Terceiro Setor e a
responsabilidade social
No caso de
empresas, denominamos essa atividade responsabilidade social. Já no caso de
ONGs, em que a força do trabalho poderá ter um grande volume de voluntariado,
temos o Terceiro Setor.
AS
DIMENSÕES ECONÔMICA, AMBIENTAL E SOCIAL
Na Cimeira do
Rio de Janeiro, em 1992, adotou-se o plano de sustentabilidade para o século
XXI, em que se fixaram as três dimensões do desenvolvimento sustentável: a
dimensão econômica, a dimensão ambiental e a dimensão social.
A dimensão
econômica tem, em seu eixo, a representação de criar riqueza para todos pelo
modo de produção e de consumo duráveis; a dimensão ecológica reporta-se à
conservação e gestão de recursos; a dimensão social reflete a necessidade ética
em que a eqüidade e a participação de todos os grupos sociais são
indispensáveis para a promoção da qualidade de vida do planeta.
A
dimensão econômica
A dimensão
econômica da sustentabilidade diz respeito ao impacto das empresas (bem como de
outras organizações, como ONGs e mesmo governos) sobre as possibilidades e
condições econômicas das partes interessadas em desenvolver projetos variados
tendo em vista o sistema econômico em todos os níveis (capital ativo, passivo,
recursos etc.), de modo a poder pensar em viabilizar a produção empresarial de
forma necessária, inteligente e não – degradante ao meio.
A
dimensão ambiental
Pela perspectiva
do desenvolvimento sustentável, a questão ambiental é vista pelos aspectos de
recursos e poluições, considerando o impacto ambiental de curto e longo prazo.
Após as premissas do desenvolvimento sustentável, as empresas politicamente
corretas devem considerar a dimensão ambiental correlacionando suas atividades
com os impactos de suas atividades produtivas sobre os sistemas naturais vivos
e não-vivos, incluindo ecossistemas, solos, ar e água. No Terceiro Setor,
muitos são os trabalhos de voluntariado para a manutenção da ecologia de
diferentes lugares do planeta. O Greenpeace é a maior expressão desse tipo de
movimento.
A
dimensão social
A dimensão
social do desenvolvimento sustentável evoca e fomenta idéias de eqüidade
socioeconômica e cultural, valorizando a identidade dos seres humanos em toda a
sua diversidade. No setor empresarial, a dimensão social tem, em seu raio de
ação, o impacto das atividades produtivas da empresa no sistema social onde
operam.
A dimensão
social abrange, portanto, interesses múltiplos no raio de sua ação. Interesses
que, em muitos casos, não se coadunam na prática de suas atividades. A
responsabilidade social atua atendendo a áreas próximas ao seu estabelecimento
na expectativa de lucrar com a diminuição de custos, como passagens de ônibus;
ou mesmo atua na tentativa de preservar sua empresa de ladrões que ajam nas
redondezas, tentando estabelecer um bom relacionamento com a comunidade. Longe
de visar ao lucro, entretanto, muitas são as ONGs que simplesmente defendem
direitos. Todos os movimentos sociais, no entanto, têm como libelo o fundamento
dos direitos humanos. Parece haver uma naturalização do que é humanamente justo
ou não, como, por exemplo, o direito à vida. Mas isso significa que há
determinadas condições para a vida, e não apenas estar vivo. A qualidade de
vida das pessoas é, nesse sentido, fundamental para o exercício dos Direitos
Humanos, mas o bem-estar subjetivo também o é. Estar psicologicamente saudável
para ter proveito do que objetivamente o mundo é capaz de oferecer é condição
para o pleno desfrute da vida coletiva.
Resumo aula 09 Movimentos
Sociais e Educação | A Declaração Universal dos Direitos Humanos como
referência filosófica às atividades dos Movimentos Sociais, do Terceiro Setor e
da Responsabilidade Social
Os movimentos
sociais, primordialmente aqueles classificados como ativistas, poderão agir à
margem da lei, caso isso seja necessário para a realização de suas conquistas
sociais.
O ponto de
partida da ação de empresas e do Terceiro Setor difere dos movimentos sociais,
pois, nestes últimos, admitimos o fato de pessoas se associarem a outras para
conquistar sua inserção social. Até mesmo no caso específico de movimentos
sociais, é notável grupos travarem verdadeiras lutas sociais para forçar o
reconhecimento sociopolítico e econômico de sua organização a fim de valorar
sua própria manifestação cultural como expressão do e no mundo. Não é o caso de
determinadas ONGs e principalmente de empresas, que não travam lutas contra a
ordem dominante, ao contrário, multiplicam-na, expandindo sua realidade
consensual, produzindo e mantendo a ordem dominante em sua legitimidade
A ação prática
de movimentos sociais, ONGs e empresas podem ser similares até certo ponto. Não
se esqueça também de que, em certo grau, a responsabilidade social faz parte
das atividades do Terceiro Setor, e que ambos não deixam de ser um movimento
social institucionalizado. Entretanto, a ação dos movimentos sociais ditos
ativistas pode vir a ser uma ação potencialmente incisiva para o
estabelecimento de uma nova ordem sociopolítica e econômica. Assim,
criticamente, é sugestionável dizer que governos incentivam empresas e ONGs
para o atendimento de comunidades que carecem de maiores cuidados sociais na
expectativa de manter comunidades à parte de movimentos sociais ativistas, cuja
ação pode desestabilizar a ordem vigente.
DECLARAÇÃO
UNIVERSAL DOS DIREITOS HUMANOS
Com o fim da
Segunda Guerra e suas atrocidades, o mundo se viu na necessidade de ir contra a
barbárie humana, em busca da
preservação da paz mundial.
Nesse sentido,
paulatinamente, formou-se a Organização das Nações Unidas, que, em 1948, adotou
e proclamou a Declaração Universal dos Direitos Humanos. Esses direitos
partiram dos seguintes pressupostos: Considerando que o reconhecimento da
dignidade inerente a todos os membros da família humana e dos seus direitos
iguais e inalienáveis constitui o fundamento da liberdade, da justiça e da paz
no mundo; Considerando que o desconhecimento e o desprezo dos direitos do Homem
conduziram a atos de barbárie que revoltam a consciência da Humanidade e que o
advento de um mundo em que os seres humanos sejam livres de falar e de crer,
libertos do terror e da miséria, foi proclamado como a mais alta inspiração do
Homem;
Considerando que
é essencial a proteção dos direitos do Homem através de um regime de direito,
para que o Homem não seja compelido, em supremo recurso, à revolta contra a
tirania e a opressão; Considerando que é essencial encorajar o desenvolvimento
de relações amistosas entre as nações; Considerando que, na Carta, os povos das
Nações Unidas proclamam, de novo, a sua fé nos direitos fundamentais do Homem,
na dignidade e no valor da pessoa humana, na igualdade de direitos dos homens e
das mulheres e se declaram resolvidos a favorecer o progresso social e a
instaurar melhores condições de vida dentro de uma liberdade mais ampla;
Considerando que
os Estados membros se comprometeram a promover, em cooperação com a Organização
das Nações Unidas, o respeito universal e efetivo dos direitos do Homem e das
liberdades fundamentais;
Considerando que
uma concepção comum destes direitos e liberdades é da mais alta importância
para dar plena satisfação a tal compromisso:
A Assembléia
Geral proclama a presente Declaração Universal dos Direitos Humanos como ideal comum
a atingir por todos os povos e todas as nações, a fim de que todos os
indivíduos e todos os órgãos da sociedade, tendo-a constantemente no espírito,
se
esforcem, pelo ensino e pela educação, por
desenvolver o respeito desses direitos e liberdades e por promover, por medidas
progressivas de ordem nacional e internacional, o seu reconhecimento e a sua
aplicação universais e efetivos tanto entre as populações dos próprios Estados
membros como entre as dos territórios colocados sob a sua jurisdição.
Artigo 1°
Todos os seres
humanos nascem livres e iguais em dignidade e em direitos. Dotados de razão e
de consciência, devem agir uns para com os outros em espírito de fraternidade.
Artigo 2°
Todos os seres
humanos podem invocar os direitos e as liberdades proclamados na presente
Declaração, sem distinção alguma, nomeadamente de raça, de cor, de sexo, de
língua, de religião, de opinião política ou outra, de origem nacional ou
social, de fortuna, de nascimento ou de qualquer outra situação. Além disso,
não será feita nenhuma distinção fundada no estatuto político, jurídico ou
internacional do país ou do território da naturalidade da pessoa, seja esse
país ou território independente, sob tutela, autônomo ou sujeito a alguma
limitação de soberania.
Artigo 3°
Todo indivíduo
tem direito à vida, à liberdade e à segurança pessoal.
Artigo 4°
Ninguém será
mantido em escravatura ou em servidão; a escravatura e o trato dos escravos,
sob todas as formas, são proibidos.
Artigo 5°
Ninguém será
submetido à tortura nem a penas ou tratamentos cruéis, desumanos ou
degradantes.
Artigo 6°
Todos os
indivíduos têm direito ao reconhecimento, em todos os lugares, da sua
personalidade jurídica.
Artigo 7°
Todos são iguais
perante a lei e, sem distinção, têm direito a igual proteção da lei. Todos têm
direito à proteção igual contra qualquer discriminação que viole a presente
Declaração e contra qualquer incitamento a tal discriminação.
Artigo 8°
Toda pessoa tem
direito a recurso efetivo para as jurisdições nacionais competentes contra os
atos que violem os direitos fundamentais reconhecidos pela Constituição ou pela
lei.
Artigo 9°
Ninguém pode ser
arbitrariamente preso, detido ou exilado.
Artigo
10°
Toda pessoa tem
direito, em plena igualdade, a que a sua causa seja eqüitativa e publicamente julgada
por um tribunal independente e imparcial que decida dos seus direitos e
obrigações ou das razões de qualquer acusação em matéria penal que contra ela
seja deduzida.
Artigo 11
1. Toda pessoa
acusada de um ato delituoso presume-se inocente até que a sua culpabilidade fi
que legalmente provada no decurso de um processo público em que todas as
garantias necessárias de defesa lhe sejam asseguradas.
2. Ninguém será
condenado por ações ou omissões que, no momento da sua prática, não constituíam
ato delituoso à face do direito interno ou internacional. De mesmo modo, não
será infligida pena mais grave do que a que era aplicável no momento em que o
ato delituoso foi cometido.
Artigo 12
Ninguém sofrerá
intromissões arbitrárias na sua vida privada, na sua família, no seu domicílio
ou na sua correspondência, nem ataques à sua honra e reputação. Contra tais
intromissões ou ataques toda pessoa tem direito à proteção da lei.
Artigo 13
1. Toda pessoa
tem o direito de livremente circular e escolher a sua residência no interior de
um Estado.
2. Toda pessoa
tem o direito de abandonar o país em que se encontra, incluindo o seu, e o
direito de regressar ao seu país.
Artigo 14
1. Toda pessoa
sujeita a perseguição tem o direito de procurar e de se beneficiar de asilo em outros
países.
2. Este direito
não pode, porém, ser invocado no caso de processo realmente existente por crime
de direito comum ou por atividades contrárias aos fins e aos princípios das
Nações Unidas.
Artigo 15
1. Todo
indivíduo tem direito a ter uma nacionalidade.
2. Ninguém pode
ser arbitrariamente privado da sua nacionalidade nem do direito de mudar de
nacionalidade.
Artigo 16
1. A partir da
idade núbil, o homem e a mulher têm o direito de casar e de constituir família,
sem restrição alguma de raça, nacionalidade ou religião. Durante o casamento e
na altura da sua dissolução, ambos têm direitos iguais.
2. O casamento
não pode ser celebrado sem o livre e pleno consentimento dos futuros esposos.
3. A família é o
elemento natural e fundamental da sociedade e tem direito à proteção desta e do
Estado.
Artigo 17
1. Toda pessoa,
individual ou coletiva, tem direito à propriedade.
2. Ninguém pode
ser arbitrariamente privado da sua propriedade.
Artigo 18
Toda pessoa tem
direito à liberdade de pensamento, de consciência e de religião; este direito
implica liberdade de mudar de religião ou de convicção, assim como a liberdade
de manifestar a religião ou convicção, sozinho ou em comum, tanto em público
como em privado, pelo ensino, pela prática, pelo culto e pelos ritos.
Artigo 19
Todo o indivíduo
tem direito à liberdade de opinião e de expressão, o que implica o direito de
não ser inquietado pelas suas opiniões e o de procurar, receber e difundir, sem
consideração de fronteiras, informações e idéias por qualquer meio de
expressão.
Artigo 20
1. Toda pessoa
tem direito à liberdade de reunião e de associação pacíficas.
2. Ninguém pode
ser obrigado a fazer parte de uma associação.
Artigo 21
1. Toda pessoa
tem o direito de tomar parte na direção dos negócios públicos do seu país, quer
diretamente, quer por intermédio de representantes livremente escolhidos.
2. Toda pessoa
tem direito de acesso, em condições de igualdade, às funções públicas do seu
país.
3. A vontade do
povo é o fundamento da autoridade dos poderes públicos: e deve exprimir-se
através de eleições honestas a realizar periodicamente por sufrágio universal e
igual, com voto secreto ou segundo processo equivalente que salvaguarde a
liberdade de voto.
Artigo 22
Toda pessoa,
como membro da sociedade, tem direito à segurança social e pode legitimamente
exigir a satisfação dos direitos econômicos, sociais e culturais
indispensáveis, graças ao esforço nacional e à cooperação internacional, de
harmonia com a organização e os recursos de cada país.
Artigo 23
1. Toda pessoa
tem direito ao trabalho, à livre escolha do trabalho, a condições eqüitativas e
satisfatórias de trabalho e à proteção contra o desemprego.
2. Todos têm
direito, sem discriminação alguma, a salário igual por trabalho igual.
3. Quem trabalha
tem direito a uma remuneração eqüitativa e satisfatória, que lhe permita e à
sua família uma existência conforme a dignidade humana, e completada, se
possível, por todos os outros meios de proteção social.
4. Toda a pessoa
tem o direito de fundar com outras pessoas sindicatos e de se filiar em
sindicatos para defesa dos seus interesses.
Artigo 24
Toda pessoa tem
direito ao repouso e aos lazeres, especialmente, a uma limitação razoável da
duração do trabalho e as férias periódicas pagas.
Artigo 25
1. Toda pessoa
tem direito a um nível de vida suficiente para lhe assegurar e à sua família a
saúde e o bem-estar, principalmente quanto à alimentação, ao vestuário, ao
alojamento, à assistência médica e ainda quanto aos serviços sociais
necessários, e tem direito à segurança no desemprego, na doença, na invalidez,
na viuvez, na velhice ou noutros casos de perda de meios de subsistência por
circunstâncias independentes da sua vontade.
2. A maternidade
e a infância têm direito a ajuda e a assistência especiais. Todas as crianças,
nascidas dentro ou fora do matrimônio, gozam da mesma proteção social.
Artigo 26
1. Toda pessoa
tem direito à educação. A educação deve ser gratuita, pelo menos a
correspondente ao ensino elementar fundamental. O ensino elementar é
obrigatório. O ensino técnico e profissional dever ser generalizado; o acesso
aos estudos superiores deve estar aberto a todos em plena igualdade, em função
do seu mérito.
2. A educação
deve visar à plena expansão da personalidade humana e ao reforço dos direitos
do Homem e das liberdades fundamentais e deve favorecer a compreensão, a
tolerância e a amizade entre todas as nações e todos os grupos raciais ou
religiosos, bem como o desenvolvimento das atividades das Nações Unidas para a
manutenção da paz.
3. Aos pais
pertence a prioridade do direito de escolher o gênero de educação a dar aos
filhos.
Artigo 27
1. Toda pessoa
tem o direito de tomar parte livremente na vida cultural da comunidade, de
fruir as artes e de participar no progresso científico e nos benefícios que
deste resultam.
2. Todos têm
direito à proteção dos interesses morais e materiais ligados a qualquer
produção científica, literária ou artística da sua autoria.
Artigo 28
Toda pessoa tem
direito a que reine, no plano social e no plano internacional, uma ordem capaz
de tornar plenamente efetivos os direitos e as liberdades enunciadas na
presente Declaração.
Artigo 29
1. O indivíduo
tem deveres para com a comunidade, fora da qual não é possível o livre e pleno
desenvolvimento da sua personalidade.
2. No exercício
deste direito e no gozo destas liberdades ninguém está sujeito senão às
limitações estabelecidas pela lei com vista exclusivamente a promover o
reconhecimento e o respeito dos direitos e liberdades dos outros e a fim de
satisfazer as justas exigências da moral, da ordem pública e do bem-estar numa
sociedade democrática.
3. Em caso algum
estes direitos e liberdades poderão ser exercidos contrariamente aos fins e aos
princípios das Nações Unidas.
Artigo 30
Nenhuma
disposição da presente Declaração pode ser interpretada de maneira a envolver
para qualquer Estado, agrupamento ou indivíduo, o direito de se entregar a
alguma atividade ou de praticar algum ato destinado a destruir os direitos e
liberdades aqui enunciados. (www.un.org/humanrights)
No que diz
respeito aos movimentos sociais, destaca-se que muitas das suas ações (de
ativistas e não-ativistas) objetivam alcançar conquistas sociais que foram
declaradas serem próprias dos direitos humanos já há muito tempo. Mesmo desconhecendo
cada item da declaração feita pela ONU, proferida em 1948, o sentido de justiça
e eqüidade parece nortear as ações de grupos em toda parte do mundo.
Através da
mídia, os movimentos sociais tornaram-se expressivos no cenário mundial e
obtiveram, como
foi o caso do MST e do apartheid, respostas solidárias de nações desenvolvidas;
nações mantenedoras da economia global, cuja política, pela força de incentivos
capitais, forçou o reconhecimento de muitas dessas manifestações como ações
legítimas para a atualização da prática de direitos de classes menos
favorecidas.
Ao observar
melhor as interseções existentes entre os Movimentos Sociais, o Terceiro Setor
e a Responsabilidade Social, podemos estabelecer convergências entre o que há
de comum nas ações sociais frente à Declaração Universal dos Direitos Humanos.
É inconteste as ações sociais ( os Movimentos Sociais, o Terceiro Setor e a
Responsabilidade Social) terem, como ponto em comum, a filosofia dos direitos
humanos. Hoje, tal filosofia ergue seu fundamento na razão de se agir para
atender a premências do atual milênio evocadas pela ONU, por cujo escopo
econômico direciona-se o mundo para a formalização de novos paradigmas, através
de programas voltados para a auto-sustentabilidade, entre outros. Nesse
sentido, os movimentos sociais se coadunam com a Educação, pois a miséria e a
má divisão de renda, facilmente observáveis na vida mundana, exigem mudanças
sociais que possibilitem um mundo mais economicamente igualitário. No mais,
como é sabido, a Educação oferecida nas escolas é determinada pela ideologia
dominante, que assegura interesses específicos, atualmente direcionados pelas
nações que controlam a riqueza mundial, principais membros mantenedores de
poder de decisão da ONU.
Resumo aula
10 Movimentos Sociais e Educação | Os movimentos sociais do ponto
de vista sociológico
A
institucionalização de movimentos passivos ou ativos só se torna possível
diante de interesses globais que hoje atualizam o mundo em sua inevitabilidade.
CONCEITOS,
CATEGORIAS, TIPOLOGIA, ESTÁGIOS DE FORMAÇÃO, CONDIÇÕES ESTRUTURAIS E FATORES
SOCIAIS FAVORÁVEIS À FORMAÇÃO DOS MOVIMENTOS SOCIAIS
Os movimentos
sociais podem ser conceituados e categorizados de diversas formas. Há,
entretanto, duas ordens bem definidas de movimentos sociais: uma passiva e uma
ativa. Nestas duas ordens encontramos outros aspectos de tipificação de ordem
sociológica, dependendo da natureza específica de cada movimento. São esses
tipos:
a) migratórios;
b)
progressistas;
c)
conservacionistas ou de resistência;
d) regressivos
ou reacionários;
e) reformistas;
f) expressivos;
g) utópicos;
e/ou revolucionários.
Todos os
movimentos sociais passam pelos mesmos estágios de agitação, excitação,
formalização e institucionalização.
CONDUTAS
COLETIVAS
Os movimentos sociais
decorrem de uma dinâmica complexa entre os diferentes segmentos da sociedade. A
visão de mundo das pessoas e as necessidades políticas de atualizar a produção
do que se consome culturalmente – do que não fica à parte da visão de mundo de
comunidades – são cruciais para o entendimento do descontentamento social
generalizado. Nisso, os aspectos históricos associados às circunstâncias
momentâneas promovem uma alteração de valores que se atualizam entre os
diferentes atores, em sua representação social, na tentativa de modificar as
diversas estruturas socioeconômicas. Para tanto, o cotidiano de relações em que
se pode verificar uma insatisfação coletiva pode nos revelar a incoerência
entre o que o discurso político socialmente propõe e o que injustamente os
sistemas apresentam na prática. Eis, nesse sentido, a forma pela qual as
pessoas haverão de se conduzir pelo espaço social.
A partir dessa
idéia, destacam-se as condutas coletivas, cuja definição exige uma compreensão
das condições históricas, do espaço e do tempo a que atores sociais se
encontram sujeitos, para podermos fundamentar as relações possíveis de nos
orientar para uma interpretação do conjunto social que se demonstrou incapaz de
evitar o quadro social em que um tipo de movimento se desenvolveu.
As condutas
coletivas são vistas em dois níveis: organizacional e social. O nível
organizacional diz respeito a empresas e organizações mantenedoras do sistema
societário. Por sua vez, o nível social se refere às estruturas institucionais,
cujo estabelecimento, por meio de regras, leis e incentivos, possibilita a
existência das organizações (privadas ou públicas).
Para analisar as
condutas coletivas, observam-se três condições para o seu desencadeamento: a
anomia, o desejo de restauração social e o de modernização.
O PAPEL
DA EDUCAÇÃO
O espaço
educacional é um espaço relacional. Logo, as práticas educacionais transpassam
o preparo estritamente profissionalizante e atingem a formação humana, no seu
sentido psicológico e em seu sentido ético.
Dentro dessa perspectiva,
aprendemos que o ensino hoje suscita uma nova forma de ver, perceber e
significar a vida, conforme a seguinte visão de mundo:
a) tolerância
diante da diversidade étnica e cultural;
b) pressupostos
de igualdade sociocultural de forma irrestrita;
c) a
auto-sustentabilidade e a ecologia. Todos esses itens são como partes de um
todo filosófico para a vida em comum no planeta.
Uma vez
entendida tal dinâmica, em que a escola é o ambiente da ação para a construção
da visão de mundo, entende-se não menos que a realidade pode ser atualizada
pela construção da ação do nosso movimento no mundo. Eis o que alguns vêm
fazendo: agindo para transformar o mundo através de ações sociais e, no caso
específico de determinados grupos, através de movimentos sociais. Nesse
sentido, esses últimos vêm fazendo “escola” – isto é, nos ensinando a como agir
para transformar realidades que não dão mais conta do que socialmente se vê por
aí, em nossa injusta realidade mundana.
O
TERCEIRO SETOR E A RESPONSABILIDADE SOCIAL
As atividades do
Terceiro Setor e da responsabilidade social podem ser compreendidas como um
tipo de movimento social institucionalizado e de natureza passiva, apesar de
que suas ações possam vir a ser ativas em determinadas situações de denúncias
de abuso de práticas associadas exclusivamente a vantagens de poder econômico.
A área de atuação do Terceiro Setor e da responsabilidade social situa três
dimensões específicas para o alcance de melhorias para a vida. Essas dimensões
são a econômica,
a ecológica e a
social; estas obviamente interligadas pelas atividades sociocultural e econômica.
A dimensão
econômica se destaca pelas condições materiais do que, como e por que se produz
o que vem sendo produzido pela mão humana. Na esfera ecológica, salienta-se a
contínua destruição do planeta para se produzir o que vem sendo produzido e,
por último, o escopo social se releva diante da desigualdade em todos os
âmbitos – sociopolítico, econômico e cultural.
O PAPEL
DA ONU
As interseções
existentes entre os movimentos sociais, o Terceiro Setor e a responsabilidade
social decorrem de fundamentos comuns encontrados na Declaração Universal dos
Direitos Humanos. Nota-se que essas três ações sociais, ou seja, os movimentos
sociais, o Terceiro Setor e a responsabilidade social, em sua interseção
central, revelam-nos a filosofia dos Direitos Humanos como fundamento para a
ação social. São as urgências socioeconômicas para o terceiro milênio que
orientam as necessidades difundidas pela Organização das Nações Unidas. A
formalização de novos paradigmas, através de programas voltados para
auto-sustentabilidade econômica, legitima tanto a ação de movimentos sociais
como as ações do Terceiro Setor e da responsabilidade social. Por conta disso,
salienta-se o desenrolar da Educação em todo
o planeta. E,
nesse sentido, a ONU, através do seu setor voltado para o desenvolvimento da
formação humana, a Unesco, vem multiplicando programas cujas idéias compõem uma
visão de mundo baseada na tolerância e na difusão da importância da
manifestação pluricultural; Visão em que a economia do planeta deve ser
produzida de modo autosustentável, globalizado e mundializado cultural e
ecologicamente.
Os movimentos
sociais decorrem de insatisfações coletivas. Nessa direção, a escola reúne, em
seu espaço físico, oportunidades para a manifestação de diferentes
representatividades sociais expressarem e desenvolverem idéias que assegurem
construções de mundo numa dinâmica multiplicadora da realidade tangível. Na
escola, aprendemos o que falar, como agir e socialmente atuar. Por outro lado,
os movimentos sociais sustentam necessariamente a defesa de melhorias sociais,
erguida no desejo de
transformações. Os movimentos sociais convergem para a Educação pelo fato de
que esta, mesmo tendo que “re-produzir” o que é reconhecido institucionalmente,
pode ser considerada como um ambiente aos empreendimentos coletivos, no
estabelecimento de uma nova ordem de vida.
Os movimentos
sociais podem ser categorizados de diversas formas como ordem, tipologia e
estágio (ou fase) de sua constituição. As condutas humanas também são
associadas aos movimentos sociais, uma vez que atores podem ser impulsionados à
ação social por questões pessoais e sociais. Nesse sentido, há tanto um
conjunto de condições estruturais favoráveis como determinadas condições
sociais para a decorrência dos movimentos sociais, através do que o papel da
Educação é fundamental, pois a escola é espaço formador e multiplicador de
visão de mundo. A relação da Educação com os movimentos sociais é estreita, já
que se entende o fato de que a própria escola, em sua dinâmica, é capaz de
realizar movimentos que se assemelham à expressão dos movimentos sociais pela
manifestação de comunidades, cuja ação pode fomentar transformações sociais que
exigidas diante de um mundo exigente de atualizações prementes à mundialização.
Nesse sentido, há um movimento internacional para um mundo socialmente mais
igualitário, ainda que isto seja para atender a necessidades de um consumo
globalizado.
Resumo
aula 11 Movimentos Sociais e Educação | A ligação em rede de
diferentes dimensões na formação dos Movimentos Sociais e da Educação
O RIZOMA COMO NOÇÃO DE REDE: UM PARADIGMA
TEÓRICO, CONFORME DELEUZE E GUATTARI
O conceito de Rede funda um avanço teórico
cujo paradigma não se pode ignorar nos dias que correm. Este conceito explica a
realidade que se concretiza múltipla em direções diversas, atingindo e
alterando nossas vidas. Selecionando Deleuze e Guattari (1980) e seu conceito
de Rizoma para melhor elucidar o conceito de Rede.
Os bulbos, os tubérculos são rizomas (...)
até os animais o são em sua forma de matilha; ratos são rizomas. As tocas o
são, com todas as funções de habitat, de provisão, de deslocamento, de evasão e
de ruptura. O rizoma nele mesmo tem muitas formas diversas, desde sua extensão
superficial ramificada em todos os sentidos até suas concreções em bulbos e
tubérculos. Há rizoma quando os ratos deslizam uns sobre os outros. Há o melhor
e o pior no rizoma: a batata e a grama, a erva daninha (p. 15).
Deleuze e Guattari estabelecem alguns
princípios, pelo que universalizam o conceito:
“1º e 2º – Princípios de conexão e
heterogeneidade: qualquer ponto de um rizoma pode ser conectado a qualquer
outro e deve sê-lo”
Nestes princípios, retrata-se a idéia de que
qualquer fenômeno pode se ligar a outro, mesmo sendo de naturezas distintas, e
que isto é desejável. Diferentemente da idéia de oposição ou de complemento,
estes princípios projetam possibilidades AMORFAS, que se unem, fundem e
separam, sem ser necessariamente nesta ordem, criando rupturas ou não. Enfim,
em termos de trajeto fenomênico, tudo é permitido num escopo sem fronteiras e
aberto ao devir POLIMÓRFICO, à medida que se constitui no espaço-tempo das
interseções da vida.
“3º – Princípio de multiplicidade” (p.
16).
Constitui a idéia do múltiplo como substituto
necessário a “dimensões que não podem crescer sem que mudem de natureza” (p.
16). Este princípio se contrapõe à idéia do HOLÍSTICO, do Uno hierárquico,
para fundar a idéia do Uno-múltiplo, sem hierarquias. Em vez de todas as coisas
pertencerem a uma única raiz essencial, o todo se dá pela multiplicidade de
essencialidades constituintes de um permanente devir do mundo, essencialidades
que se transformam a cada instante (tempo) lugar, em cujo espaço fenômenos se
formalizam. Nesse sentido, não há lugar para determinismo ou oráculos, a idéia
de predestinação cai por terra. A própria constituição da vida tem vida.
Portanto, inúmeras potências singulares fundam o complexo da rede deste
fenômeno chamado mundo. Neste complexo, o movimento humano tem seu valor na
potência da ação.
“4º – Princípio de
ruptura a-significante” (p. 18).
Caracteriza um rizoma com a possibilidade de
ser rompido ou retomado em qualquer
ponto de sua natureza topográfica. “Todo
rizoma compreende linhas de segmentaridade [vetores – que, na Matemática e na
Física, indicam a intensidade, a direção e o sentido de uma força] segundo as
quais ele é estratificado, territorializado, organizado, significado, atribuído
etc.; mas compreende também linhas de desterritorialização pelas quais ele foge
sem parar. Há ruptura no rizoma cada vez que as linhas segmentares explodem
numa linha de fuga, mas a linha de fuga faz parte do rizoma. Estas linhas não
param de se remeter umas às outras. É por isso que não se pode contar com um
dualismo ou dicotomia, nem mesmo sob a forma rudimentar de bem e mal” (p. 18).
“5º e 6º – Princípios de cartografia e de
decalcomania” (p. 21).
Parece que estes dois se fundem pela
decorrência topológica. Entretanto, apresentam distintas nuanças. Enquanto o
mapa é “aberto, é conectável em todas as suas dimensões, desmontável,
reversível, suscetível de receber modificações constantemente” (p. 21), um
decalque é um eixo imutável para o qual sempre se volta “ao mesmo tempo” (p.
21). É entendido, pois, como “competência” (p. 21). Assim o decalque traduz o
mapa em imagens, e reproduz apenas, segundo Deleuze, “os impasses, os
bloqueios, os germens de pivô ou pontos de estruturação”. Por exemplo,
“semióticas gestuais, mímicas, lúdicas etc. retomam sua liberdade na criança e
se liberam do ‘decalque’, quer dizer, da competência dominante da língua do
mestre” (p. 21), isto é, dos “pontos de estruturação” que, neste caso,
caracterizam uma determinada cultura no seu sentido amplo, antropológico.
REDE DE RELAÇÕES ENTRE OS MOVIMENTOS SOCIAIS
E A EDUCAÇÃO ATRAVÉS DA AÇÃO DO PENSAMENTO PARA A AQUISIÇÃO DO SABER
A atuação humana, motivada (moção) pela
tentativa de tornar real um ideal (volição), leva o conhecimento a desenvolver
leituras possíveis – por intermédio de seus métodos tradicionais de
classificação (ordem, tipologia etc.) –, auxiliando a Razão a ordenar a ação
social em categorias para o saber. Assim, ao analisar a constituição dos Movimentos
Sociais e da Educação, considerando microestruturas biológicas em interseção
com macroestruturas físico-sociais, facilmente inferimos o mundo em rede já ser
um tipo de olhar ideológico em que, necessariamente, todos os campos que o
conhecimento humano é capaz de erguer se fundem na importância da manutenção do
mundo. A Economia, a Psicologia, a Sociologia, a Antropologia, a Biologia, a
História, a Ecologia, enfim, diferentes campos do saber, num olhar amplo,
inter/trans e multidisciplinar devem ser considerados sem uma hierarquia de
importância, pois todos são fatores fundamentais para o bem-estar das pessoas
na organização do que denominamos mundo. Sobreviver é a pedra angular de nossos
interesses mundanos. O conhecimento existe desde sempre; inclusive o argumento
de Descartes para a defesa da Ciência diante do clero é essencialmente este:
nos tornarmos como que senhores e possessores da Natureza” (Discurso do Método,
sexta parte, p. 69).
O “Discurso do Método”, de Descartes, se
tornou famoso pelo fato de que, em seu tempo, Século XVII, a Europa passava por
transformações profundas graças ao espírito da Razão, que crescia entre os
homens. A Revolução Copernicana, feita por Galileu, foi decisiva para o
trabalho de Descartes. Em 1633, Galileu foi forçado pela Inquisição a abjurar
suas teorias. Quatro anos depois, Descartes defende a Ciência e,
conseqüentemente, o pensamento de Galileu, através do Discurso do Método. Nele,
Descartes exalta a grande vantagem que a Razão poderá proporcionar aos indivíduos
– conceito que, dentro da hierarquia lógica, está acima da espécie, que, por
sua vez, está acima do gênero – ao se descobrirem as forças potenciais do
planeta. Para tal defesa diante do Clero, Descartes diz Deus ser um grande
matemático e, como tal, ter construído o mundo dentro de regras que o Homem
poderá descobrir, já que Ele o fez à sua imagem e semelhança, dotando-o de
mente e Razão para seguir os seus desígnios. Assim, o corpo deveria ser regrado
como os ditames da Igreja, mas a mente deveria ser livre para ir longe pelas
descobertas feitas pelo pensamento. Como se vê, o Homem, ou melhor, a Ciência
só caminha mediante interesses que são acordados entre aqueles que detêm o
poder. E isto não acontece por acaso, mas através de uma rede de relações de circunstâncias
favoráveis ao seu acontecimento.
A partir do Discurso do Método, a sociedade
européia se sentiu cada vez mais confortável em extrair leis da Física, como a
da Gravidade, a da Velocidade, a do Tempo etc., e disso se construíram máquinas
a serviço do homem, decorrendo a Industrialização, com seu auge no início do
século XIX, com a grande Exposição de Paris, onde galerias em vidro e aço
anunciavam o esplendor da Modernidade e da Burguesia. É a Razão que orienta os
passos da Humanidade. E orientar passos significa defender idéias que reúnam o
máximo de vantagens à sobrevivência da espécie, na garantia de estabelecer o
bem-estar entre diferentes individualidades. No caso dos Movimentos Sociais,
grupos vêm aprendendo a lidar com a burocracia legítima, às vezes de forma
anárquica, para instaurar uma nova ordem de acordo com os interesses das
classes desfavorecidas.
A Educação se situa nessa esfera do
conhecimento, isto é, no âmbito da apreensão de dados voltados para a
compreensão de diferentes objetos que se pretende entender para a reta formação
das possibilidades humanas voltadas para a melhor sobrevivência possível. Tendo
em vista que todo e qualquer fenômeno é objeto a conhecer, e que, uma vez
imersa no processo da racionalidade, uma pessoa se educa não apenas
cognitivamente, mas moral e ideologicamente, nota-se que a dinâmica da rede à
qual está intrinsecamente associada em sua condição geocircunstancial é uma
malha de condições para saltos e avanços, bem como para limites e sujeições. E
isto, tanto do ponto de vista pessoal como do coletivo, pois, no corpo
biológico, há uma memória pessoal, enquanto, no corpo sociológico, há a memória
social. Essas memórias estão ligadas à interseção de imagens constituídas pelos
registros que marcam as superfícies do corpo biológico e social que as abrigam.
Imagens que acabam por indicar tendências aos seus sujeitos, que percebem,
sentem e vêem o mundo de que participam. Daí o papel da escola, onde o
letramento, mediante um conjunto de interpretações, favorece idéias que
interessam perspectivas e ideologias, destacando ângulos
específicos para se ver o mundo em sua inevitabilidade. A vivência de uma
pessoa, entretanto, depende do que ela experimenta face à vida, e isto a leva
ao seu diferencial como indivíduo, que – no âmbito de sua educação, na
interseção das diferentes dimensões a que está sujeito (de novo, dimensão
biológica, sociológica e psicológica, entre outras, como a histórica) – poderá
criar e produzir sua leitura de mundo, em vez de reproduzir o que o mundo lhe
oferece como idéia “acabada”, como um “produto pronto a ser consumido”. A
originalidade das pessoas depende da sua ação de ousar para além do que é
ordinariamente comum, estabelecendo novas possibilidades de expressão para a
vida.
Pode-se assim dizer que, mediante o conjunto
de fatores no qual se encontra (fatores históricos, biológicos, socioculturais
etc.), uma pessoa se educa no simples fato de pensar sobre os objetos
condicionantes à vida. Uma pessoa se educa, pois, ao se ver frente a frente com
a sua própria condição humana, na reflexão do seu modo de viver e de se pensar,
ao projetar sua ótica do que vem sendo, tendo e fazendo na ação limitada no
mundo em que se encontra “enredada”. Portanto, pensar e/ou se engajar em
um movimento social já forma condições para educar-se.
Resumo aula 12 Movimentos Sociais e Educação | A interseção das dimensões biológicas, sociológicas e psicológicas para a genealogia dos Movimentos Sociais e da Educação
Resumo aula 12 Movimentos Sociais e Educação | A interseção das dimensões biológicas, sociológicas e psicológicas para a genealogia dos Movimentos Sociais e da Educação
No espaço do mundo, encontram-se o nosso
corpo e sua expressão, cujo movimento revela o que temos subjetivamente, tal
qual um conjunto de signos a ser interpretado pelos demais. Por exemplo, se
alguém nos diz algo que nos irrita, podemos não dizer nada, mas o outro poderá
ser capaz de “ler” nossa irritação, seja porque nossa expressão facial mudou,
seja porque saímos “batendo as portas”. A fisionomia e as atitudes são signos
interpretáveis do comportamento. Todo nosso movimento, integrado ao espaço do
mundo e na interação com o outro, encontra-se passível de leitura, e esta, de
uma interpretação.
Há, portanto, uma rede de condições
existentes num determinado espaço-tempo nas tramas da vida de uma pessoa em sua
relação com as demais. Essas condições, necessariamente, nos levam à
aprendizagem, capacitando-nos a sobreviver dentro de perspectivas possíveis,
integradas ao processo dinâmico de uma rede de relações. Deste modo, há:
• condições físicas, de espaço-tempo e corpo
biologicamente constituído;
• condições culturais, em que valores são
mediados pelas relações estabelecidas em diferentes instituições sociais
(família, escola, amigos etc.);
• condições sígnicas, por meio das quais
diferentes informações erguem sistemas de códigos interpretáveis à luz de
perspectivas de leituras possíveis.
Nesse sentido, desenrola-se permanentemente
uma Educação para o conhecimento, capaz de garantir a melhor sobrevivência
possível.
A Educação – sistema social por meio do qual
os processos de aprendizagem são cultuados pela dinâmica intermitente da
produção do pensamento, num continuum sucessivo de relações estabelecidas entre
diferentes organismos (pessoais e sociais) – compõe um conjunto de imagens
dadas, pelas quais lemos o mundo (visão de mundo), e nos instrumentaliza para
as interpretações possíveis de códigos (as imagens dadas) impressos na memória,
que é a maior ferramenta para a Razão.
A racionalidade é, dessa maneira, um tipo de
referência por meio da qual lidamos com os organismos sociais e com os nossos
pares. Aquele que “está certo” “está com a razão”. Ter razão significa reunir
um conjunto de saberes e conhecimentos a serem apreendidos por aqueles que
ainda não “souberam” reuni-los. Educar é oferecer o saber aos indivíduos. Não
um saber qualquer, mas um saber cujo conhecimento leva informações cruciais
para a manutenção da vida no mundo. Mas o educador mais experiente não refuta a
idéia de que a Educação se situa além do que se apreende em termos de
informação.
Uma visão ampla da Educação exige, desde os
tempos mais remotos, a formação do “espírito humano”. Os gregos chamavam esta
formação, em seu sistema educacional, de Paidéia. Para eles, a formação do
homem deveria reunir atividades diversas que alimentavam o corpo e o espírito,
levando seus cidadãos à Areté, que, num sentido amplo, quer dizer retidão moral
da ação humana em prol da sua comunidade.
Hoje, a Educação se preocupa com a composição
de diferentes
correntes teóricas para a explicação possível
de condições mentais e sociais. Na perspectiva de compreender o desenvolvimento
cognitivo e comportamental de um organismo sujeito a determinados ambientes,
teoricamente, o indivíduo, em sua particularidade bio-psico-sociológica, é
visto como um conjunto de circunstâncias integradas ao meio.
Obtemos, nesse sentido, a idéia de que um
corpo (biológico) está condicionado a um meio (sociológico) que lhe possibilita
existir e nele sobreviver, mantendo-o numa dinâmica de relações imprescindíveis
à vida. Essas dinâmicas reúnem um conjunto de códigos (culturais) passíveis de
interpretações dependentes de registros da memória de um indivíduo e da memória
social.
Considerando esses aspectos, em termos de
dimensão psicossocial, podemos observar que os movimentos sociais decorrem da
capacidade do Homem de agir a partir da integração de indivíduos. Uma ação por
cuja dinâmica contínuos resultados expressam o esforço de organismos
individuais se unirem para alcançar melhorias sociais de acordo com a visão de
mundo que as pessoas são capazes de produzir e re-produzir.
Estas duas capacidades, de produção e
re-produção, derivam da razão, cultuada e condicionada pela Educação. Seja na
escola, seja na família, leituras de mundo são dimensionadas. Multiplicam-se
leituras no corpo social, em diferentes instituições, por meio do conjunto de
códigos e registros cuja representação é, de uma forma ou de outra,
necessariamente interpretada para a sobrevivência.
A Educação, na formalização dos aspectos
afetivos, cognitivos e morais, é possível, pois, graças à interseção de três
dimensões específicas: a biológica, a psicológica e a sociológica. No entrelace
destas três dimensões, desenvolve-se o homem em sua condição bio-psico-social.
Saber como o corpo
organicamente se constitui e se educa para o mundo, na transposição do corpo
biológico para o sociológico, formalizando sua dimensão psicológica, se faz
interessante para entendermos a ação humana e os seus resultados em termos de
Movimentos Sociais.
Resumo aula 13 Movimentos
Sociais e Educação | A gênese da dimensão biopsicossociológica e sua
pertinência para a formação dos Movimentos Sociais
O corpo humano sempre
procura o prazer. Sem prazer, não temos gosto para a vida. Procuramos realizar
coisas que pensamos que nos dão ou nos darão prazer. Agir no mundo depende,
assim, das idéias que temos sobre o que nos trará satisfação à existência. É,
portanto, uma projeção mental (de satisfação) indissociável do sentido do prazer.
“Ser o que é” está, dessa
forma, associado à autopercepção gratificante que uma pessoa é capaz de,
psicologicamente, projetar para si mesma. Nesta idéia, há aspectos estéticos,
comportamentais, econômicos, e assim por diante.
A configuração (moldagem) da
rede de neurônios resultante de uma aprendizagem constitui, de fato, uma
estrutura adquirida.
Ela é a base das emoções que
acompanham o reajuste vasomotor e a movimentação do volume sanguíneo segundo as
variações de atividade dos órgãos envolvidos na realização da ação. O sistema
cardiovascular, sob o controle do sistema neuro-vegetativo, permitirá esta
adaptação (p. 20).
A motivação fundamental
básica do homo sapiens é, portanto, manter viva sua estrutura orgânica. Mas a
realidade, facilmente perceptível a todos, é a de que somos muito diferentes de
tudo o que há na Natureza. Não nos harmonizamos com o fluxo que lhe é inerente.
Vejam os animais e as florestas, que parece que funcionam de forma
organicamente equilibrada. Ao contrário, transformamos os elementos naturais
para erguer o mundo que nos obriga a fomentá-lo indefinidamente. A permanência
no mundo nos custa nossa própria energia orgânica, trocada por dinheiro, para
garantir a sobrevivência, de modo que o que sustenta a vitalidade humana é a
própria manutenção da estrutura mundana e toda a rede complexa de suas
instituições.
O mundo é uma construção
humana, e a vida, condição para que ele exista. Pelas transformações dos
elementos naturais que no planeta encontramos, erguemos o mundo (ARENDT, 2001).
Construímos coisas úteis
e/ou inúteis; coisas somente admiráveis aos olhos humanos, como uma escultura
ou uma pintura. O fato é que, pelas transformações de coisas naturais em
mundanas, o homem organiza e mantém um dinamismo para sua sobrevivência chamado
mundo, cujo fomento exige um sistema de relações que atendem a programas para a
permanência das suas instituições. A sobrevivência de grupos consiste nas
relações de convivência por meio das instituições. E a natureza do desenrolar
das instituições decorre da nossa capacidade de manter e re-criar o mundo que
nos é dado. Lidar com isso é ter cuidado com o que está ao redor.
A DIMENSÃO
PSICOSSOCIOLÓGICA
Às idéias e aos
procedimentos de “se viver”, está intrínseco um modo de se pensar sobre as
coisas do mundo, uma representação ancorada na cultura.
Há vários exemplos
disso. Poucos sabem por que as noivas são carregadas pelos maridos na porta da
casa nova ou a origem da "continência" militar em que o soldado deve
bater a perna direita sobre a esquerda, elevando a mão à testa. Tudo isto,
porém, apesar de ter significados atualizados, tem um sentido histórico
esquecido no tempo.
Todas as idéias são
veiculadas pela projeção de imagens (sonoras e visuais) de que dispomos como
registros organizados na memória (BERGSON,1999) e transmitidas pela
comunicação.
O fato é que o homem se
organiza na relação em rede de um conjunto de imagens internas e externas, no
espaço de sua memória. As imagens internas dizem respeito ao que dispõe na
mente, e as externas ao que apreende em sua vigília. Se são imagens de que
dispõe na memória, são imagens (re)conhecidas, dentro de uma organização
anterior, que logo se atualiza, gerando nova seleção de imagens, em organização
contínua (BERGSON, 1999).
O pensamento se nos coloca à
mente, como um conjunto de imagens sobrepostas, nos revela, assim, uma
ideologia, cuja imagem é uma organização mental capaz de explicar a realidade
pelo universo sígnico interpretável à luz de leituras de mundo. Tal explicação
nos oferece uma lógica, com base na qual orientamos nossas moções no mundo.
(...) infinitas organizações
de imagens (...) [sobrepostas determinam inúmeras] (...) leituraspossíveis
mediante o que conhecemos. E conhecemos o que entendemos, e entendemos o que
lemos das imagens do mundo. A leitura de mundo pressupõe, assim, uma pessoa
capaz de apreender signos e poder pensá-los. E os signos compreendem tudo
aquilo que tem uma aparência (RIBEIRO, 2003).
O sistema nervoso ligado a
uma estrutura básica do cérebro leva o organismo a se equilibrar de forma a
manter-se vivo. A experiência do organismo com o seu entorno leva tal organismo
a repetir as experiências que lhe sejam agradáveis, pois estas o alentam à
vida, enquanto as experiências desagradáveis são evitadas e, em casos extremos,
por conta de sua ameaça, são combatidas pelo organismo de modo que este venha a
se sentir seguro em sua manutenção de vida.
O conjunto de experiências
de vida do corpo orgânico é armazenado na memória como uma seleção de imagens
sobrepostas de modo a criar uma rede de relações entre os significados de que
um sujeito dispõe interna e externamente, pelo que pessoas agem para
organizarem a vida em comum. Nesse sentido, os movimentos sociais resultam da
insatisfação de imagens sociais significadas negativamente por determinados
sujeitos que se unem no afã de atualizá-las pela ação organizada, forçando
determinadas estruturas a reavaliar e a reestruturar sistemas deficitários. Indivíduos
que buscam uma melhor forma de considerar, produzir e manter o mundo de uma
forma diferente para si, pelo que evocam novas realidades de imagens sígnicas e
valores diante da miséria de tantos.
RESUMO
MOVIMENTOS SOCIAIS AP2
AULA 14 -
A REDE DE REPRESENTAÇÕES DE IMAGENS NA CONSTITUIÇÃO DO MUNDO QUE DEPENDE DO EU
E DO OUTRO
“A
representação é a operação pela qual a mente tem presente em si mesmo uma
imagem mental, uma idéia ou um conceito correspondendo a um objeto externo” (JAPIASSU;
MARCONDES, 1996). Evocam-se, assim, os infinitos significados construídos
individualmente a partir da idéia de relação entre algo externo ao homem
(portanto, do mundo objetivo) e outro algo que ele constrói internamente, em
sua mente (mundo subjetivo). A representação, nesse ponto de vista, pode ser a
relação entre o significado de imagens “fora dele” (do homem) que se reproduzem
“dentro dele”. As representações. Elas são objetivas e subjetivas.
Representamos algo para lhe dar um significado e, deste, um sentido.
Representamos coisas para que possamos viver em coletivo. O homem só é capaz de
viver em grupo, na associação com pares que atendam a interesses, e os
interesses são muitos, pois não somente dependem dos significados e do sentido
que a eles damos, mas dos significados e sentidos dados à vida em coletivo. De
forma tal que os sujeitos só são capazes de projetar imagens a partir desse
primeiro contato com os significados sociais, dando assim um sentido às suas
vidas mediante as representações sociais. Dessa forma, o homem participa com o
seu sangue e vida para manter o que já aí está e que o sustenta. Uma integração
entre homem e mundo. Um sem o outro nada é; ambos, vistos de forma integrada,
são um só (apesar de não serem a mesma coisa), pois o produtor é aquilo que
produz apesar de o produto não se resumir ao produtor. Conseqüentemente, se se
fala em representação social, evocam-se significados de construção coletiva;
uma convenção de significados compartilhados (a língua, por exemplo), a fim de
que um fio estreito de relações (sígnicas) oriente a semântica expressiva do
que denominamos realidade e, portanto, nossa leitura de mundo. Os meios de
comunicação, nesse sentido da leitura de Mundo, veiculam imagens que nos são
apresentadas como “imagens modelos”. Mediando idéias, dando-nos sentidos a
determinados registros cujos signos, na dinâmica social, passam a representar
coisas antes inimagináveis. O mercado, por meio da propaganda, ergue o sentido
de tais representações a partir do desejo humano, a partir daquilo que poderia
gerar prazer ao corpo humano. Na produção de significados, verificável na
experiência da vivência com um outro, um mostra ao outro o que é
e sente, isto é, um se esforça para representar o mundo num determinado
sentido, e nos revela como este o afeta, propiciando a uma pessoa ter uma
tendência de se comportar diante de determinadas situações, pelo que nos
apresenta sua integração com o Outro. O Outro, em Psicologia, é tudo aquilo que
não é o Eu. Dizemos, assim, que todos os significados advindos das imagens que
uma pessoa adquire no seu convívio com a Cultura são um Outro que ela tem em
si. A única coisa que podemos dizer que pertence a um Eu reduz-se ao ato da
escolha que as pessoas fazem diante do conjunto de informações que se lhes
erguem à mente como uma sucessão de imagens sobrepostas dotadas de
significados. A compreensão de como se ergue o desenvolvimento psicológico e de
como o comportamento está sujeito às moções e às volições é fundamental para
compreendermos a fundo o fenômeno dos Movimentos Sociais e sua relação com a
Educação, pois o professor capaz de compreender a subjetividade do outro que há
diante de si torna-se capaz de compreender o mundo para além de si mesmo, de
ver o Outro que há em si, sem nunca ter se dado conta disso. Este mesmo
professor poderá ajudar seus alunos a se verem e se pensarem, na necessidade da
descoberta de limites e na reta reflexão das opções de que dispõem para efetuar
suas escolhas. Vamos continuar vivendo do jeito que vivemos ou não? O quê, como
e por que podemos e devemos mudar em nós mesmos e, por extensão, em nosso
entorno? Quais são as reais vantagens e desvantagens para agirmos no afã de
transformar o tipo de vida que temos no mundo? Estas questões são fundamentais
para o seu ensino, visto que ver o outro demanda uma auto compreensão
sofisticada do Eu e uma sensibilidade para ver o Outro. Tanto esta auto
compreensão quanto esta sensibilidade serão essenciais para o sucesso da união
de indivíduos que se organizam na aprendizagem de agir em coletivo, tendo em
vista que as relações humanas não prescindem de significados que afetam
permanentemente o corpo, construindo significados positivos e negativos, ou
gratificantes e desagradáveis para a vida de cada um, cujo Eu permanentemente
busca realizar-se no Mundo mediante todas as representações que são ou que se
tornam possíveis de expressar. Dessa forma, ter consciência é comungar com uma
leitura amalgamada pela e na cultura. É ter ciência da semântica que
determinadas ações ou atitudes obtêm nas tramas de um mundo em que os valores
são permanentemente cambiáveis pelas representações que se dinamizam com a
produção humana para erguer e manter o mundo. E, enfim, ao pensar sobre o Eu e
o Outro, pensa-se numa consciência, pois, se o mundo é constituído na
integração de subjetividades que se unem na produção de seus interesses para a
manutenção da vida, interesses acordados pelos significados sociais, dos quais
se depreende um modo de se produzir o mundo em sua inevitabilidade, há uma
ideologia para o viver. A realidade, portanto, se nos faz perceptível através
do aparelho humano que apreende imagens sobrepostas no registro da memória e as
reorganiza individualmente. A projeção coletiva das imagens representadas
subjetivamente é a convenção de idéias intermediada pelo significado das
imagens apreendidas no mundo, dando-nos um sentido para a vida, ao dividirmos
valores com o outro. Por fim, das imagens do pensamento sobre a
realidade, seguindo lógicas morais e éticas, tem-se a orientação para um desenvolvimento
de comportamento social esperado, garantido pelas instituições. Compreende-se,
assim, que as instituições projetam. idéias e formam imagens que devem ser
reproduzidas para que seja possível a uma pessoa ter um determinado tipo de
consciência de mundo, cuja realidade existe pela representação simbólica, e
que, portanto, foi inventado e fomentado para atender a necessidades
individuais e sociais que, por sua vez, exigem um padrão de comportamento, caso
uma pessoa queira pertencer a um grupo. Por todas essas razões, só poderíamos
admitir que a consciência se desenvolve pela e na interação de um conjunto de
imagens que são apreendidas pelo corpo e nele significadas pelo parâmetro
social. As individualidades, assim, digerem valores exemplares da materialidade
dos signos formados pelo sistema de comunicação social. A realidade ideológica
compõe uma teia de relações em que o econômico se apresenta destacadamente
(MARX, 1977), e as individualidades constituem o eixo motor de produção dessa
realidade situada numa ordem determinada pelo tempo-espaço. conhecimento da
realidade exterior – isto é, a aprendizagem dos limites socioculturais e as
conseqüências desagradáveis advindas do custo de ser obrigado a enfrentá-las,
bem como as experiências agradáveis com que um grupo social pode recompensar um
indivíduo – corresponde, para Laborit (1976), ao princípio de realidade.
Laborit (1976) defende existirem três níveis de organização de ação: 1) um
nível bem primário, em que o organismo responde a estímulos internos e
externos, de modo mecânico e incapaz de adaptação; 2) um nível elaborado para a
ação, derivada da soma de experiências anteriores, conservadas na memória como
agradáveis ou desagradáveis, úteis ou inúteis, em nível de sensação aprendida –
pelo que se subsume a forma primitiva assim estruturada pela aquisição de uma
aprendizagem; 3) o terceiro nível adviria do desejo, em que se situa o
desenvolvimento do pensamento frente à articulação da antecipação da ação com a
realidade, por meio de estratégias que asseguram ações gratificantes e/ou
aquelas que poderão evitar o estímulo nociceptivo. Há, nesse nível, a
capacidade de abstração. Pensar poder abstrair da realidade antecipações para o
bem coletivo é pensar extrair o que coletividades desejam como ações que projetem
sensações agradáveis à existência.
CONCLUSÃO
Uma vez
que grupos entendem estarem à parte de usufruir bens de consumo e vantagens que
toda essa dinâmica mercadológica promove como idéias de desejo e lutam contra a
representação hegemônica para produzir sua própria realidade de produção de
vida, acabando por formalizar um movimento social. Os organismos orgânicos, na
integração com pares, formam organismos sociais e travam uma ação para fazer
frente aos seus interesses de manutenção. Fundam novos significados diante da
falta de sentido que esse mercado promove a partir da visão concreta de poucos
usufruírem luxo enquanto outros vivem na miséria ou perto disso. Ou, ainda,
entendem que sua miséria sustenta o luxo de ricos empresários, governantes,
banqueiros e “parasitas” sociais, que produzem e mantêm uma invenção econômica
cuja dinâmica cria ações, bolsas de valores e investimentos associados ao
mercado de produtos que, muitas vezes, em nada interessam diretamente às suas
vidas, mas das quais pessoas passam a depender indiretamente, queiram ou não.
Os movimentos fazem frente à barbárie humana. Ao ver como as imagens da mente
são criadas pelo processo de integração mundo interior x mundo exterior, por
meio da relação entre o objeto percebido e o seu registro sígnico, engendrado
na memória, entendemos que as representações são dotadas de um sentido tanto
pessoal como social. Social, na medida em que os signos estão registrados em
todos os fenômenos do mundo, e pessoal, visto que as projeções mentais só podem
ser feitas no corpo humano, logo, a partir de sensações percebidas e
significadas subjetivamente. O conjunto de significados sociais, na relação
entre o fato concreto de vantagens e o de desvantagens, se contrapõe a
significados produzidos pelo mercado de consumo, mediados pela
comunicação social, cuja idéia defende a razão de que produtos são vantajosos à
vida e podem e devem ser distribuídos a todos, pelo que se induzem grupos a ler
o mundo por um mesmo prisma, incitando-os a ter um mesmo tipo de consciência
diante dos fatos a que são submetidos. A má divisão do que se produz e o
difícil acesso a mercadorias que, muitas vezes, são desnecessárias à vida,
entretanto, levam sujeitos a entenderem não desfrutar de um mercado de
vantagens e a lutarem pelos seus direitos de consumo, ou, ainda, a lutarem para
poderem sobreviver dentro do seu melhor possível, apesar de todo o interesse do
mercado de ver o ser humano não pela sua capacidade de se relacionar com os
demais, mas como um mero consumidor de produtos oferecidos. Ao lermos o mundo
que nos cerca, vemos poucos usufruírem luxo. São muitos vivendo na necessidade.
Tal leitura da organização do mundo que nos cerca pode levar grupos a se unirem
para se organizarem de um modo ativo ou passivo, visando atender a suas
necessidades de vida. Esse esforço coletivo de organizar a vida para atender a
suas necessidades acaba por se encontrar, de uma forma ou de outra, com a
inevitabilidade de tudo aquilo que aí já está, pois não são agentes apartados
da teia social, não são sujeitos isolados de sistemas socioeconômicos e de sua
administração voltada para o que governantes pensam ser fundamental para a
manutenção da vida. Os grupos, assim, podem ir contra os interesses hegemônicos
ou não, isso dependerá de sua ação e reivindicações. Enfim, os movimentos
sociais podem ser vistos sob a ótica em que pessoas agem dentro de uma mesma
consciência para alcançar sua felicidade e bem-estar, já que se encontram em
dificuldades para usufruir a rede de vantagens socioeconômicas, associadas às
idéias de conforto e facilidades em um mundo que parece ter sido erguido para o
prazer. As pessoas querem ser felizes, mesmo que tenham de lutar para viver
esse tipo de sentimento.
RESUMO
As
imagens sobrepostas de que dispomos na mente humana dinamizam as relações entre
as representações pessoais e as representações sociais. Na projeção de imagens
de consumo, o mercado apresenta imagens de desejo, remetendo-nos diretamente ao
prazer das sensações do corpo e reunindo um conjunto de produtos cuja aquisição
trará conforto, facilidades e prazer. A incoerência entre essas imagens de
vantagens e a falta de oportunidade a esses acessos mobiliza muitos a
conquistar seu espaço
social e
atender a suas necessidades para a sobrevivência. Categorizados como movimentos
ativos ou passivos, grupos tentam agir para sanar problemas sociais, numa
organização possível pela qual pensam serem capazes de trazer situações
gratificantes às suas vidas, opondo-se à má divisão das vantagens sociais,
mediante o que significam como desagradáveis ao organismo. Agem mediados pelos
valores do mercado de vantagens à sobrevivência, pois tais grupos vivem sob o
mesmo teto das representações do mercado globalizado de consumo de bens, cujas
idéias são mediatizadas pela comunicação social para o desenvolvimento da
consciência comum, desenvolvendo a imagem de que o consumo trará “felicidade à
vida”.
AULA 15- Bem-estar
e felicidade: direção comum da ação humana - BEM-ESTAR SUBJETIVO E O TRABALHO
EM COMUNIDADES- Bem estar é estar satisfeito com o que se tem, ou com
o que se é, ou com o que se faz. A satisfação, assim, nessa concepção, está
ligada à capacidade e ao desempenho de uma pessoa agir. O sujeito que age é uma
pessoa capaz de pensar para superar obstáculos, pois até mesmo encontrar as palavras
certas no momento certo exige uma ação do próprio pensamento. A troca de
leitura entre pessoas é a leitura intersubjetiva. Esta leitura tem sua
representação na troca de ações. Poderíamos dizer ações de troca, pois um age
para trocar interesses com o outro. Nesse sentido, o outro também pode ser
visto como um obstáculo a ser superado. Os significados que uma comunidade dá a
determinados valores, articulando-os de forma a dar continuidade ao processo de
suas representações, só pode ser entendido quando suas imagens são vivenciadas.
E vivenciar é isso: compreender pelos sentidos aquilo que a razão desconhece
conhecer. A satisfação se situa nesse âmbito cognitivo afetivo, em que
seleciono, pela e na memória, regras e representações para conquistar o meu ter,
ser e fazer social. Organizar imagens na mente é articular o pensamento. E
organizamos as imagens de que dispomos de acordo com a nossa personalidade.
Cada pessoa constrói sua leitura tendo como referência sua própria vivência.
Suas características genéticas também são determinantes, pois o modo como cada
pessoa recebe suas impressões de registro depende concretamente de como ela é
bioquimicamente constituída, de maneira tal que a realidade é impressa em cada
um diferentemente. Uma comunidade, assim, vivenciando suas dificuldades
concretas, desenvolve, na sua vivência, seus significados próprios como sendo
um registro de sua memória social. Mas, apesar disso, as regras de ordem
estrutural assemelham-se a modelos hegemônicos, isto é, há sempre um “chefe”
que decide e manda. Um líder que centraliza interesses. Uma hierarquia de
pessoas cujos pensamentos parecem projetar imagens organizadas de modo que
devem ser seguidas. Realizar é, portanto, representar o que se conhece. Ver o
outro demanda enxergar suas características de personalidade, caráter e
temperamento. É claro que nos sentimos mais seguros diante da previsibilidade
de pessoas de caráter confiável e temperamento sereno. Mas a personalidade de
cada um revela-nos como uma pessoa consegue lidar com os sentimentos a que
estamos sujeitos: raiva, inveja, ciúme, rejeição, desejo de poder, sujeição,
ansiedade e carências... É através da personalidade que percebemos como uma
pessoa gere seus sentimentos e... vemos suas atitudes, através da compreensão
do fenômeno de seu movimento no mundo.O agir do psicólogo ou do educador tem
como objetivo o desenvolvimento de pessoas capazes de superar obstáculos. Pelo
que penso, isso demanda um conhecimento vinculado ao perceber-se no outro,
percebendo-se a si mesmo. As pessoas simplesmente se desenvolvem, desenvolvendo
conhecimento, e o conhecimento ocorre a todo instante, na permanente troca
intersubjetiva de leituras e ações. A prática do trabalho comunitário,
portanto, visa a demandas sociais, objetivando o bem-estar pela ação solidária.
Nessa perspectiva, cremos ser perfeitamente possível afetar pessoas pela
compreensão de leituras que passam muito longe de serem feitas pelo nosso
próprio umbigo... A potência humana se manifesta, pois, de acordo com nossas
crenças e desenvoltura para agir na realização do que desejamos fazer de nossas
vidas e do nosso entorno. A leitura é iniciada desde antes da alfabetização,
quando aprendemos os signos que nos são apresentados como uma grande, gelada e
gostosa Coca-Cola, num dia de verão, tomada ainda nos braços de nossas mães –
que querem o melhor do mundo para nos dar... Mas é na escola que se formaliza a
leitura de signos que chamamos alfabetos, bem como outros signos pelos quais
estão implícitas diferentes ideologias, formas de pensar e orientar a conduta
coletiva.
AULA 16 -
Conceituando Escrita, Alfabetização e Letramento - ESCRITA, ALFABETIZAÇÃO E
LETRAMENTO –
A escrita,
alfabetização e letramento compõem um conjunto indissociável, em que os
sistemas de escrita seriam um produto cultural por excelência , enquanto
que a alfabetização e o letramento seriam processos de aquisição de um
sistema escrito, logo, culturais. A alfabetização, para TFOUNI (2002), estaria
relacionada mais propriamente à aquisição da escrita como aprendizagem de
habilidades para a leitura, a escrita e as práticas de linguagem. A
alfabetização seria adquirida formalmente, ainda segundo a autora, pelo
processo de escolarização, pertencendo, assim, ao plano individual. Já o
letramento focalizaria os aspectos sócio-históricos da aquisição da
escrita, procurando, entre outras tarefas, “estudar e descrever o que ocorre
nas sociedades quando adotam um sistema de escritura de maneira restrita ou
generalizada”. O letramento tem por objetivo pesquisar quem é alfabetizado e
também quem não o é, desligando-se, desta forma, de enfocar o individual e
centralizando-se mais no social. Grosso modo, letramento, para essa autora,
seria o processo de exposição aos usos sociais da escrita que os
indivíduos sofrem mesmo que, no entanto, não saibam ler nem escrever.
A
escrita- A invenção da escrita data aproximadamente de 5000 a.C., mas a sua
difusão e adoção deram-se – e dão-se até hoje, inclusive - de modo lento e
sempre sujeito a fatores políticos e socioeconômicos. Neste sentido, podemos
afirmar que não há neutralidade no processo de disseminação dos sistemas
escritos, visto que sempre se encontram condicionados a um determinado contexto
histórico-temporal. Tanto é que vários códigos foram criados pelos homens, como
por exemplo:
a) pictográficos
– simbolizando diretamente os referentes concretos;
b) ideográficos
– procurando representar o pensamento ou as idéias; e
c) fonéticos
– “representação” aproximada dos sons da fala. Porém, nenhum deles pode ser
considerado como sendo um produto neutro, e sim como resultado das relações de
poder e de dominação existentes em toda e qualquer sociedade humana. Esta
relação de poder é melhor compreendida quando pensamos que a escrita serviria
para difundir e socializar as idéias e os conhecimentos. A escrita pode ser
considerada, assim, tanto como uma das causas para o surgimento das
civilizações modernas, quanto para o desenvolvimento científico, tecnológico e
psicossocial das sociedades que a tenham adotado de modo amplo.
A
alfabetização - há duas formas usuais de se compreender
alfabetização:
a) como
um processo de aquisição individual de habilidades necessárias à leitura e à
escrita ou
b) como um processo de representação de
objetos diversos, de naturezas diferentes.
A
alfabetização se caracterizaria pelo seu aspecto de incompletude e que o ato de
descrever os objetivos a serem atingidos durante tal experiência atenderia mais
às necessidades de formalização das práticas escolares do que à alfabetização
em si.
A escrita
não deve ser considerada como a codificação da transcrição gráfica da fala, mas
sim como um sistema de representação que tem se modificado historicamente. A
alfabetização, assim, deixa de ser considerada como ensino de sinais gráficos
correspondentes aos sons da fala e a relação que se verifica entre a escrita e
a oralidade não é mais a de dependência desta com aquela, mas sim de
interdependência, ou seja, esses dois sistemas se influenciam mutuamente. O
processo de aquisição da leitura e de escrita é agora percebido não mais como
linear (som-grafema), mas é visto como complexo, passando, inclusive, por
diversos estágios durante o seu desenvolvimento.
O
letramento - o letramento focaliza os aspectos sócio-históricos
da aquisição de um sistema escrito por uma sociedade.” A autora destaca que os
pesquisadores da questão do letramento se debruçam, entre outras, sobre as
seguintes questões, tentando resolvê-las:
a) Quais
mudanças sociais e discursivas ocorrem em uma sociedade quando ela se torna
letrada?
b) Grupos
sociais não-alfabetizados que vivem em uma sociedade letrada podem ser
caracterizados do mesmo modo que aqueles que vivem em sociedades “iletradas”?
c) Como
estudar e caracterizar grupos não-alfabetizados cujo conhecimento, modos de
produção e cultura estão perpassados pelos valores de uma sociedade letrada?
tanto a ausência quanto a presença da escrita em uma sociedade devem ser
consideradas como questões importantes, pois atuam simultaneamente como causa e
conseqüência de transformações sociais, culturais e psicológicas, muitas vezes,
radicais.
O
letramento seria a causa da produção de formas mais sofisticadas do
comportamento humano – os chamados “processos mentais superiores” – como, por
exemplo: o raciocínio abstrato, a memória ativa, a resolução de problemas etc.
Ampliando os horizontes sociais, a autora aponta que o letramento é considerado
como produto do desenvolvimento do comércio, da diversificação dos meios de
produção e da complexidade da agricultura e, ao mesmo tempo, numa perspectiva
dialética, revela-se como sendo uma das causas das transformações históricas
profundas como a invenção da máquina a vapor, do telescópio, da imprensa, e
mesmo da sociedade industrial.
A autora
propõe duas formas para se acabar com tal etnocentrismo. A primeira seria
considerar o processo de alfabetização e o de letramento como processos
interligados, porém separados em sua natureza e abrangência. A segunda seria
considerar o letramento como um “continuum”. Seriam evitadas, assim, segundo a
autora, classificações preconceituosas como as ocasionadas pelas categorias
“letrado” e “iletrado” e a confusão que se dá entre essas e as categorias
“alfabetizado” e “não-alfabetizado”, separando-se o fenômeno do letramento do
processo de escolarização, que, como já foi visto, costuma acompanhar o
processo de alfabetização. Segundo a autora, a explicação para tal fenômeno não
se localizaria no fato de o indivíduo ser ou não alfabetizado, mas, sim, se ele
está inserido numa sociedade letrada ou não, ou seja, está na sofisticação dos
processos de comunicação, dos modos de produção, das demandas cognitivas pelas
quais passa toda uma sociedade quando se torna letrada e que inegavelmente irão
influenciar aqueles que nela vivem, sejam eles alfabetizados ou não.
CONCLUSÃO
Nas
sociedades industriais modernas, paralelamente ao desenvolvimento científico e
tecnológico ocasionado pelo letramento, existe um desenvolvimento
correspondente, em nível individual ou de pequenos grupos sociais, que
independe do processo de alfabetização e de escolarização. No entanto, esse
desenvolvimento tem um preço, pois aliena os indivíduos de seu próprio desejo,
de sua individualidade e, muitas vezes, de sua cultura e de sua historicidade.
TFOUNI (2002) afirma que a ALIENAÇÃO também é um produto do letramento.
Afirma, ainda, que a ciência é produto da escrita e a tecnologia, produto
da ciência, e que funcionam como elementos REIFICADORES, principalmente
para aquelas pessoas que, mesmo não sendo alfabetizadas, são “letradas”, mas
não têm acesso ao conhecimento sistematizado nos livros, compêndios e manuais.
A autora destaca também o fato de, muitas vezes, testemunharmos, como
conseqüência do letramento, o fato de muitos grupos sociais não alfabetizados
abrirem mão do próprio conhecimento, da própria cultura. Isso também
caracterizaria essa relação como de tensão constante entre poder, dominação,
participação e resistência, o que não pode ser ignorado quando se busca
compreender o produto humano por excelência: a escrita e seus decorrentes
necessários, a alfabetização e o letramento.
R ESUMO
Escrita,
alfabetização e letramento compõem um conjunto indissociável. A escrita seria
um produto cultural, enquanto a alfabetização e o letramento seriam processos
de aquisição de um sistema escrito. A concepção equivocada que usualmente
se faz sobre o processo de alfabetização associa-o a um modelo linear e
“positivo” de desenvolvimento, pelo qual a criança aprenderia a utilizar e a
decodificar símbolos gráficos que representariam os sons da fala, partindo de
um ponto determinado e chegando a um outro patamar. Nesta aula ressaltamos que,
na realidade, tal processo não se dá de maneira simplória, pois é preciso
considerar diversas outras variáveis, desde a questão da alfabetização que
ocorre quase sempre junto com a escolarização até a concepção de que este não é
um processo linear, que, ao contrário, envolve níveis de complexidade
crescentes, em cada um dos quais a criança conhece e constrói diferentes
objetos. Por fim, o conceito de letramento, compreende o processo de exposição
às práticas sociais da escrita que os sujeitos sofrem, sejam esses indivíduos
alfabetizados ou não.
Lembre-se
de que a escrita depende essencialmente da alfabetização, mas o letramento não,
no sentido de que somos capazes de ler tudo que há no mundo, mesmo sem sermos
alfabetizados. Por outro lado, só aprendemos o alfabeto pela leitura dos
signos. Diversas são as práticas sociais que exigem dos sujeitos (sejam
crianças, jovens ou adultos) o domínio da escrita, desde a urgência de se
produzir um bilhete para um parente próximo ou para um empregado até a
necessidade de se enviar uma carta cobrando e oferecendo notícias a um amigo ou
sócio distante, passando inclusive pelas práticas do preenchimento de um
formulário, da produção de um currículo, de um cartão de Natal etc.
Para
realizar novas experiências no campo da alfabetização, torna-se necessário que
o professor/alfabetizador se liberte do uso de cartilhas e revisite sua própria
experiência de alfabetização, procurando criticar a idéia de que a
alfabetização se restringe a cópias mecânicas, já que a relação com as palavras
transcende a mera correspondência gráfi cofonética, exigindo a vivência do
contexto imaginativo e significativo de que se alimenta a escrita e a leitura
nas diversas práticas sociais.
AULA 17 –
LEITURA E LETRAMENTO – o ato da leitura pode ser considerado
metaforicamente uma festa por ser desvelador, no mínimo, em três aspectos:
desvelador dos mistérios das letras, das palavras e dos conteúdos. Queremos
lembrar que só tecnologia não basta para transformar a escola (vista aqui como
espaço sociocultural por excelência de aquisição e incentivo à leitura): é
preciso tecer conheci mento com maior autonomia, incentivar as atividades
interdisciplinares, decidir as teorias a ser corroboradas nas / pelas práticas
e, sobretudo, fortalecer os vínculos societários e interpessoais. Atitudes como
estas poderiam minimizar os efeitos negativos percebidos ao longo da história
nacional. Embora, como já tenhamos dito antes, não possamos confundir como
iguais a relação que costuma se estabelecer entre o processo de alfabetização e
a condição de
CIDADANIA
– ou
seja, o fato de o indivíduo ou de uma parcela da sociedade conseguir se
alfabetizar não lhe garantiria o status de cidadania automaticamente –,
podemos ainda assim reconhecer a alfabetização como um entre os vários
instrumentos na luta para a conquista e ampliação da cidadania em suas
múltiplas dimensões.
A UNESCO
E A LUTA PELO ANALFABETISMO - A luta contra o analfabetismo tornou-se prioritária
em escala mundial, uma vez que ele se tornou o indicador mais evidente da
exclusão social. Com isto pretende subsidiar os poderes públicos na formulação
das políticas educacionais, considerando-se as diferenças regionais e
intra-regionais; para atingir seus objetivos, sobretudo na área do combate ao
analfabetismo, marcada por propostas salvacionistas há longa data e que
geralmente fracassaram. O objetivo do PISA é “verificar como as escolas estão
preparando os jovens para os desafios futuros e detectar até que ponto os
estudantes adquiriram conhecimentos e desenvolveram habilidades essenciais para
a participação efetiva na sociedade”. Para Maria José Féres, então Secretária
de Educação Fundamental do MEC, o grande desafio do atual governo seria
trabalhar para reverter esta “tragédia brasileira”. Segundo ela, as
primeiras providências já foram tomadas com o lançamento do Programa Toda
Criança Aprendendo que apresentou alternativas para o resgate da qualidade
do ensino por meio da implantação de uma política nacional de valorização e
formação de professores, a ampliação do atendimento escolar, o apoio à
construção de Sistemas Estaduais de Avaliação da Educação Básica e Programas de
Apoio ao Letramento. O atraso escolar – provocado pelos altos índices de
reprovação e abandono –, a desigualdade social, a baixa renda da população e a
qualidade das escolas são apontados como as principais causas do baixo
desempenho dos estudantes brasileiros no PISA. Vemos assim o quanto é
essencial estudar e pesquisar a importância e a relevância atribuídas à
participação individual e coletiva nos Movimentos Sociais diante de diversos
elementos que trazem outro apelo e outra forma de leitura diferente da trazida
pelo texto impresso.
CONCLUSÃO
A questão
da leitura não se esgota no comportamento de avaliação subjetiva, ao contrário,
é de ordem política, uma vez que o que está em jogo é o direito de o cidadão
ter acesso tanto material quanto intelectual à informação sistematizada pela
escrita e à cultura letrada. Portanto, deve haver clareza sobre o que se deve
postular numa campanha social pela leitura: um direito. Sendo este mais uma
face da disputa sociopolítica e cultural pelo poder, exatamente como se dá na
luta pela terra, por trabalho, por habitação, por saúde e por educação, posto
que é preciso reconhecer o direito à diferença de populações pobres do campo e
da cidade, das formas como os jovens se expressam; de negros, indígenas,
mulheres; de portadores de necessidades educativas especiais no tocante à
educação. Assim, nota-se claramente a importância também sociopolítica e
cultural de se fazer o inventário de experiências de incentivo à alfabetização
e à leitura como as que faremos na Aula 18, buscando, quem sabe, encontrar –
como disse o poeta bissexto da epígrafe, Jorge Duarte, “o(s) caminho(s) no meio
da(s) pedra(s)”.
RESUMO
Você
conheceu o conceito de leitura, associando-o ao universo da escrita simbólica
do mundo, possibilitando a sua compreensão como um processo de inserção dos
sujeitos em seu contexto histórico-temporal. Ampliou a compreensão deste
conceito, abrangendo não só a leitura das palavras, mas também dos diversos e
múltiplos signos do mundo. Viu como o desenvolvimento da tecnologia na
sociedade pós-industrial, além de abrir novas fronteiras, proporcionou novos
potenciais de relação humana, gerando a esperança da possibilidade de se pensar
soluções locais para problemas globais. Aprendeu, enfim, que não podemos
considerar o mero acesso ao processo de alfabetização como garantia de
cidadania, ou seja, o fato de o indivíduo ou de uma parcela da sociedade
conseguir se alfabetizar não lhe garantiria o status de cidadania
automaticamente, mas que podemos reconhecer a alfabetização como um entre
os vários instrumentos na luta para a conquista da cidadania.
AULA
18 - Alfabetização de jovens e adultos e participação cidadã - ALGUMAS AÇÕES DA
SOCIEDADE CIVIL ORGANIZADA- • 1950 e 1960 –
Paralelamente
às ações governamentais, surgem as ações dos movimentos de educação e cultura
popular, objetivando alterar a situação socioeconômica da população. Conscientização,
participação e transformação são os conceitos elaborados a partir da
prática e das ações (inclusive a de alfabetizar unindo cultura, educação e
transformação social) de movimentos como, por exemplo:
• MEB –
Movimento de Educação de Base.
• CEPLAR
– Campanha de Educação Popular
• CPC –
Centro Popular de Cultura, • MCP – Movimento de Cultura Popular,
• De pé
no chão também se aprende a ler.
EXEMPLOS
DE ALGUMAS AÇÕES GOVERNAMENTAIS E NÃO-GOVERNAMENTAIS PROMOTORAS DO ACESSO À
LEITURA- Dentro da Política Nacional da Leitura e de Bibliotecas Públicas,
o Programa Fome de Livro tem por objetivo instalar bibliotecas
em 1,3 mil municípios brasileiros que não dispõem de acervo público de livros.
Criado, originalmente, no início de 2004 para zerar o número de municípios
brasileiros sem bibliotecas, o Fome de Livro foi crescendo, ganhando
novas atribuições e metas, passando, inclusive, à condição de Plano Nacional
do Livro e da Leitura. Composto por um conjunto de projetos e ações de
vários ministérios, governos estaduais, prefeituras, empresas privadas e
estatais e organizações da sociedade civil que atuam nos mais diferentes
setores, o Programa Fome de Livro é, na prática, a implementação da
política nacional de leitura e bibliotecas públicas. Tendo como cenário um país
que apresenta índices baixos de leitura, a inexistência de projetos e ações de
caráter permanente para reverter esse quadro e uma desarticulação histórica do
Poder Público com a sociedade civil, o Programa Fome de Livro faz parte dos
esforços do governo federal na tarefa de se construir uma política pública
nacional para o livro, a leitura e a biblioteca pública no Brasil. um dos
objetivos centrais do programa, o Fome de Livro pretende coordenar os
esforços governamentais e da sociedade civil no sentido de integrar, otimizar e
complementar ações públicas e privadas na área de bibliotecas públicas e
leitura. o letramento – por meio de ações para zerar o analfabetismo, combater
o analfabetismo funcional ou estimular a leitura democratizando o acesso ao
livro e a todas as formas de informação – é condição fundamental para se
promover inclusão cultural e cidadania, pontos inegociáveis para se construir
um novo projeto de organização social mais justa. Para tanto, é imprescindível
dar à leitura e às bibliotecas públicas a dimensão de uma política de Estado,
na qual o Programa Fome de Livro será uma iniciativa fundamental. A
tarefa inicial é, portanto, debater, integrar e dar sinergia aos bons projetos,
planos e idéias no âmbito dos ministérios, estatais e programas federais. E
promover, a partir de objetivos comuns, interconexões destes com as ações dos governos
estaduais e municipais e de todos eles com as instituições do Terceiro Setor,
as empresas privadas e todos aqueles cidadãos interessados na questão e
com muito a contribuir na tarefa de formar cidadãos leitores.
PROLER/FBN
- O
Programa Nacional de Incentivo à Leitura (PROLER) está vinculado à
Fundação Biblioteca Nacional (FBN), órgão do Ministério da Cultura e
encontra-se sediado na Casa da Leitura, em Laranjeiras, no Rio de Janeiro. Desde
então, vem atuando com uma política de leitura que tem em vista colaborar para
qualificar as relações sociais, através da formação de leitores conscientes e
valorizadores do exercício da cidadania para a interação critica com o seu
contexto. A composição plural da Comissão está baseada no fato de a preocupação
com a leitura se expressar em diferentes instituições/ entidades, tanto de base
acadêmico-universitária, quanto de organizações não governamentais, cuja
experiência recomenda que sejam incorporadas a programas desta natureza.
O Proler/FBN
busca contemplar a variedade e a diversidade das práticas brasileiras de
promoção da leitura. A leitura (ou o seu equivocado conceito e prática) não tem
significado uma possibilidade real de inserção dos sujeitos no mundo da
informação e, conseqüentemente, o exercício da cidadania passa a ser
comprometido.
A
educação de qualidade implica prioridade política, como instrumento básico para
sua consecução. As diretrizes norteadoras do Proler/FBN expressam o
caráter de processo que deve orientar a formação de leitores. São elas:·
•
Diversidades de ações e de modos de leitura manifestadas: nas práticas de
leituras promovidas; nos locais e instituições abrangidos; nas atividades
organizadas.
• Especificidade do ato de ler, entendendo-se
que atos de leitura exigem modos próprios e competências específicas.
•
Articulação leitura e cultura, não se compreendendo a leitura fora dos
contextos nos quais se expressam a riqueza da vida humana e suas produções.
•
Prioridade da esfera pública, concretizando-se ações voltadas aos interesses da
maioria da população leitora e não leitora. Como é ela que, de modo geral,
concentra a maioria das ações e dos agentes de leitura – professores das redes
públicas – deve-se pensá-la como irradiadora das práticas leitoras.
• Publicidade da leitura, enfatizando-se que
ela precisa ser tema na cena social.
•
Democratização do acesso à leitura, pela disponibilização do material de
leitura em bibliotecas escolares e públicas, em salas de aula e em salas de
leitura em locais públicos.
Para
cumprir essas diretrizes, o Proler/FBN estabeleceu vertentes
organizadoras de suas ações. Formação de promotores de leitura, tendo, como
público principal, professores das redes públicas.·Promoção de ações de
leitura, englobando diversas práticas leitoras. Promoção de ações estratégicas
de articulação e de valorização do lugar político da leitura. Estímulo à
criação de bibliotecas públicas. Divulgação de informações sobre o tema
leitura, disseminando-as em rede.
FUNDAÇÃO
NACIONAL DO LIVRO INFANTO-JUVENIL – FNLIJ - A Fundação Nacional do Livro
Infantil e Juvenil (FNLIJ) foi criada em 1968 e tem como objetivo institucional
a promoção da leitura e a divulgação de livros de qualidade para crianças e
jovens. A FNLIJ investe prioritariamente em seu Centro de Documentação e
Pesquisa (CEDOP), dando tratamento técnico especializado e informatizado com o
objetivo de garantir a manutenção, implementação e disseminação do acervo de
Literatura Infantil e Juvenil. O CEDOP recebe mensalmente livros doados
pelas editoras de todo o país. Esse acervo de literatura infantil e juvenil
recebe tratamento técnico especializado. Os livros concorrem anualmente
ao Prêmio FNLIJ, nas categorias: Criança, Jovem, Livro de Imagem,
Tradução Criança, Tradução Jovem, Tradução Informativo, Livro Informativo,
Livro de Poesia, Livro Brinquedo, Livro Teatro, Livro Teórico, Livro Reconto,
Revelação Ilustrador, Projeto Editorial e Ilustração.
•
Fundação Palavra Mágica - http://www.palavramagica.org.br É uma
entidade jurídica de direito privado, sem fins lucrativos, que tem por
finalidade principal o fomento e o desenvolvimento da leitura e da
cidadania e, de forma geral, da cultura e do ambiente. Acredita que a leitura é
um caminho seguro que conduz para uma postura mais participativa, criativa e
consciente. A Fundação Palavra Mágica cria, desenvolve e executa projetos de
incentivo à leitura visando à formação para a cidadania. Todos os projetos têm
a leitura como eixo central e a partir dela são trabalhados os mais diversos
temas como Preservação
do Meio
Ambiente, Educação para o Trânsito, Direitos do Consumidor, Conservação do
Patrimônio Histórico, entre outros.
• Leia
Brasil – www.leiabrasil.org.br/ong.htm O Leia Brasil promove o letramento através das
seguintes atividades: visitas de caminhões-biblioteca às escolas públicas
conveniadas, emprestando, além de livros, vídeos, gibis e exposições. É uma ONG
especializada no incentivo e promoção da leitura como ferramenta de combate
ao analfabetismo funcional. Promovendo as seguintes ações:
a)
democratização de livros e outros bens culturais por empréstimo;
b) oferta
de cursos, oficinas e treinamento continuado para educadores, bibliotecários e
outros agentes de leitura;
c)
planejamento e realização de eventos, espetáculos, encontros culturais e
projetos promocionais em torno do livro e da leitura.
d)incentivo à produção de textos, edita os
Cadernos de Leituras Compartilhadas; e
e)
armazenamento e divulgação de informações sobre a promoção da leitura.
A Mundoquelê
tem por missão fomentar a leitura e a informação em todas as concepções e
conceitos, disseminando-a como elemento de participação cultural, social, além
de preservação da memória coletiva e individual, propiciando aos indivíduos a
sua participação na sociedade.
São
objetivos específicos da Mundoquelê para atingir sua missão:
a)
instituir campanhas de sensibilização visando convencer diferentes atores,
pessoas físicas, jurídicas e líderes de opinião, da necessidade de patrocinar a
alfabetização bem como atingir as pessoas que queiram aprender a vencer suas
necessidades de leitura e de escrita;
b)
colaborar para que cada pessoa possa adquirir a capacidade de compreender e de
utilizar a informação escrita para o desenvolvimento de suas potencialidades e
participação na sociedade; c) elaborar e executar programas em matéria de pedagogia
da leitura e de luta contra o analfabetismo;
d) promover trocas entre seus associados de
informação e idéias relacionadas a livros;
e)
elaborar avaliações e aperfeiçoamento do “saber ler” em todos os níveis de
ensino;
f) trabalhar para o acesso de todos na
formação de base em leitura e escrita;
g)
estudar formas diversas que contribuam para o ensino da leitura;
h) formar
leitores a domicílio e contadores de histórias;
i) apresentar estudos e pesquisas,
desenvolvimento de tecnologias alternativas, produção e divulgação de
informações e conhecimentos técnicos e científicos que digam respeito às
atividades relacionadas a promoção da leitura;
j) promover a ética, a paz, a cidadania, os
direitos humanos, a democracia e outros valores universais através da leitura;
l) influenciar
políticas públicas de educação; e
m) buscar
cooperação nacional e internacional para difusão da leitura e execução de
programas com ela relacionados.
CONCLUSÃO
Em pleno
século XXI, deparamo-nos, ainda, com os altos índices de analfabetismo absoluto
e de analfabetismo funcional, que assolam a população brasileira, ocasionados,
entre outros fatores, pela herança de uma política educacional, como vimos,
quase sempre equivocada e só um pouco amenizada por parcas ações da sociedade
civil organizada. Tal realidade nos impõe um verdadeiro desafio reflexivo: como
garantir a todos efetivamente o desenvolvimento econômico e social, partindo de
tamanha desigualdade na aquisição de direitos constitucionais?
AULA
19-Movimentos sociais, cidadania e educação- MOVIMENTOS SOCIAIS, CIDADANIA E
EDUCAÇÃO-
A cidadania
– o direito de ter direitos – é uma invenção do mundo moderno. O advento do
Capitalismo, com o predomínio da transformação de bens e serviço sem
mercadorias, veio acompanhado de lentas mudanças nos próprios processos das
interações e formas de sociabilidade. A sociedade da Idade Média era organizada
hierarquicamente, em que cada sujeito ocupava um determinado lugar do qual não
podia se mudar, constituída por sociabilidades baseadas em relações pessoais de
fidelidade. Tratava-se de uma sociedade sem mobilidade social.
Só com a
expansão das relações capitalistas os sujeitos ganharam mobilidade:
enriquecendo, sobem na escala social; empobrecendo, descem. Com o advento do
mercado e a liberação dos camponeses dos laços pessoais de dependência, os
sujeitos ganham autonomia, com formas de sociabilidade marcadas pela
impessoalidade. É esta passagem do mundo pré-capitalista sem mobilidade social
para um mundo capitalista com mobilidade social que marcou o século XVIII na
Europa.
A
Declaração dos Direitos Humanos, o Iluminismo, as Teorias Jusnaturalistas, os
Contratualistas, a Revolução Francesa, a Independência dos Estados Unidos e a
Revolução Industrial Inglesa foram elementos decisivos neste processo. O Contratualismo
é decorrente da idéia de Contrato Socialque surge com a passagem da
vida dos homens em estado natural para a vida em sociedade organizada, ou seja,
com o surgimento do Estado. Os homens fariam um contrato entre si, abrindo mão
de seus direitos naturais, transferindo para o governante o poder de resolver
os problemas coletivos. O direito natural é transferido ao soberano pelos
contratantes, transformando-o em Direito Civil. No âmbito dos direitos sociais,
o direito à educação também foi fruto de longas lutas de muitos setores
da sociedade civil.
GOVERNANÇA:
PARTICIPAÇÃO DEMOCRÁTICA NA GESTÃO DO PÚBLICO- No longo
período da ditadura militar (1964-1985), as possibilidades de alargamento da
participação popular nas decisões governamentais, principalmente no nível
municipal, estavam sufocadas pelo quadro político, que restringia a ação de
organizações da sociedade que pudessem contestar a autoridade constituída. A
nova Constituição coloca-se tanto como marco final de um processo político como
o de início de uma nova era da governança no Brasil. Um dos resultados
desse processo foi o estabelecimento dos Conselhos. Dado o acesso e a
visibilidade da governança no nível municipal, devemos destacar os Conselhos
Municipais, criados tanto em metrópoles como em pequenas cidades brasileiras.
A
participação social é parte do processo de letramento dos sujeitos e não só a
sua escolarização formal, o que contribui inclusive para a ampliação da leitura
de mundo, alargando sua cidadania, ou seja, compreendendo-se, enfim, que as
lutas dos grupos pelos mais diferentes tipos de direitos (civis, políticos ou
sociais) são, em si mesmas, também, processos educativos.
MOVIMENTOS
SOCIAIS E EDUCAÇÃO: PARTICIPAÇÃO NA ESCOLA E NA SOCIEDADE- o fato de
a Educação abranger áreas diversas como a formal (escolas), não-formal e
informal: “As lutas e os movimentos pela educação têm caráter histórico, são
processuais e ocorrem, portanto, dentro e fora de escolas e outros espaços
institucionais Ao descrever esses movimentos, Gohn (2004) nos afirma que: Os
movimentos sociais pela educação abrangem questões tanto em escolas como em
questões de gênero, etnia, nacionalidade, religiões, portadores de necessidades
especiais, meio ambiente, qualidade de vida, pela paz, pelos direitos humanos,
direitos culturais etc.
Os
movimentos sociais são fontes e agências de produção de saberes. A luta social
é pedagógica. A constituição dos Conselhos de Escola – com representantes de
profissionais da educação e de usuários eleitos pelas suas respectivas bases –
contribui para isto. Conforme nos indicou Bobbio (1987), o processo de
democratização não consiste apenas na passagem da democracia representativa
para a democracia direta, mas na passagem da democracia política para a
democracia social; da democratização do Estado para a democratização da
sociedade. Aponta a importância da “ocupação, pelas forças tradicionais da
democracia, como é a democracia representativa, de novos espaços, isto é, de
espaços até então dominados por organizações de tipo hierárquico ou
burocrático”. Apesar desta observação, Bobbio chama também atenção para a
extensão do voto em instâncias onde anteriormente ele não existia – citando
como exemplo os Conselhos de Escola, com a participação de representantes de
pais e da comunidade.
Disserte
sobre a importância do processo de horizontalização do poder, ou seja, o
contrário do verticalizado (de cima para baixo) para que se efetive realmente a
Gestão Democrática no espaço escolar. Deve-se destacar a real importância e
a extrema necessidade de se garantir a existência do fórum coletivo para se
promover a reflexão dos problemas do espaço escolar, bem como da multiplicidade
de vozes e opiniões dos diferentes segmentos (professores, alunos, funcionários
de apoio, funcionários administrativos, responsáveis dos alunos, representantes
da associação de moradores etc.) que ao vislumbrarem e analisarem conjuntamente
um mesmo aspecto do cotidiano escolar, com certeza comporão um rico mosaico de
idéias e percepções somente possível de ser realizado dada a diversidade de
ângulos pelos quais a mesma questão estará sendo analisada.
CONCLUSÃO
O cidadão
em seus múltiplos papéis sociais (filho, pai, membro de associação de
moradores, condômino, munícipe, empregado, patrão, sindicalizado, estudante,
cônjuge etc.) educa e também é educável. Educa se, mas não só no âmbito escolar
formal ou informal; educa-se com os variados processos de participação
coletiva: com os vizinhos, com as reivindicações da associação de moradores,
com a luta por mais vagas e professores nas escolas etc.
AULA 20- Os
movimentos sociais e seu caráter educativo - MOVIMENTOS SOCIAIS E EDUCAÇÃO-
No século
XIX, diferentemente dos séculos anteriores, a cidadania passa a ser destinada a
todos, inclusive as massas, porém com o intuito de domesticá-las,
discipliná-las, ou seja, ajustá-las aos padrões da sociedade estabelecida.
Nesse contexto, graças à Educação, o indivíduo poderia participar da vida em
sociedade de modo harmônico. Desta forma, os direitos civis não são
conquistados, e sim outorgados pelo Estado.
A
Educação, como importante aliada neste processo, promove práticas pedagógicas
relacionadas à persuasão, ao esclarecimento e à moralização do futuro cidadão.
Já no século XX novos significados são produzidos para o conceito de cidadania.
A burguesia passaria a enfatizar a questão dos direitos dos indivíduos muito
mais como relativa a deveres para com o Estado do que efetivamente a direitos.
O Estado,
como interlocutor da sociedade, passaria a regulamentar os direitos dos
cidadãos, podendo restringilos e até mesmo cassá-los conforme a conjuntura
histórica. Assim, a cidadania deixa de ser uma conquista da sociedade civil,
passando a ser responsabilidade do Estado. cidadania é elaborada por grupos
organizados por meio de movimentos da sociedade civil: a cidadania coletiva.
Alguns fatores contribuíram para esta nova perspectiva no cenário ocidental,
dentre os quais Gohn exemplifica:
• o
caráter do desenvolvimento explorador e espoliativo do capitalismo;
• a
massificação das relações sociais;
• o
descompasso entre o alto desenvolvimento tecnológico e a miséria social de
milhões de pessoas;
• as frustrações com os resultados do consumo
insaciável de bens e produtos;
• o desrespeito à dignidade humana de
categorias sociais tratadas como peças ou engrenagens de uma máquina;
• o
desencanto com a destruição gerada pela febre de lucro capitalista. Este
contexto conflitante propiciaria a criação de um novo ator histórico como
agente de mobilização e de pressão por mudanças sociais: os movimentos sociais
(GOHN, 1988). O novo cidadão coletivo, participante dos movimentos sociais, age
motivado por interesses de coletividade, de diferentes matizes, que revelam
diversas demandas populares, algumas de forte conteúdo social, por expressarem
o lugar que esse cidadão ocupa no processo de divisão do trabalho, a exploração
e a espoliação a que é exposto, bem como a ausência de direitos sociais básicos
(vida, educação, saúde e moradia), como, por exemplo:
• grupos
de mulheres que lutam por creches ou por vagas para seus filhos em uma escola
mais próxima de suas residências;
• grupos
de favelados que lutam pela posse da terra;
• grupos
de pessoas pobres que lutam por acesso a algum tipo de moradia. Outras demandas
advêm de grupos não tão explorados como os dos exemplos anteriores, mas da
mesma forma expropriados de seus direitos civis de liberdade, igualdade,
justiça e legislação, como, por exemplo:
• grupos
que lutam pelo exercício da cidadania de negros, mulheres e homossexuais;
• grupos
que lutam pela paz;
• grupos
que lutam em defesa da ecologia. Gohn nos ensina que a educação tem papel
relevante para este conceito de cidadania coletiva, exatamente porque ela se
constrói no processo de luta que é, em si próprio, um movimento educativo, ou
seja, a cidadania não se constrói por decretos, por intervenções iluminadas
externas, por agentes ou por programas pré-elaborados. A cidadania, assim
concebida, se constrói como um processo interno, no interior mesmo das práticas
sociais em curso, como produto das experiências engendradas no cotidiano. A
cidadania coletiva, segundo Gohn, além de construir-se no cotidiano, pelo processo
de identidade político-cultural que as diferentes lutas diárias geram, também
constituiria novos sujeitos históricos:
• as massas urbanas espoliadas;
• e as
camadas médias expropriadas.
OS
MOVIMENTOS SOCIAIS E O SEU CARÁTER EDUCATIVO - Concebendo-se
a Educação não como restrita ao processo de ensino-aprendizagem de conteúdos
específicos das áreas de conhecimento conquistado e socializado permanentemente
para além dos muros institucionais escolares, veremos que existe realmente uma
natureza educativa nos processos externos aos canais formais de educação. Este
caráter educativo constrói-se, segundo Gohn, de diversas formas, em vários
planos e dimensões que se articulam, mas não estabelecem nenhum grau de
prioridade entre elas.
A
dimensão da organização política- O processo de conscientização constrói-se ao
organizarem-se as informações que estão dispersas sobre o funcionamento de
diferentes órgãos públicos: como se deve proceder para se conseguir uma obra em
determinado bairro, uma verba para tal evento?, quem administra tal fundo?,
quais são os agentes responsáveis pela gestão de determinado bem ou equipamento
público? etc.
Tal
processo é bastante conflituoso e apresenta constantemente avanços e recuos,
mas é exatamente esse movimento que possibilita aos participantes dos diversos
movimentos sociais apropriarem-se de importantes informações, conhecendo as
engrenagens reconhecidas como técnicas e identificando os interesses
envolvidos. Tal identificação de interesses dá-se segundo as óticas de classes.
A outra dimensão do processo é a identificação dos interesses opostos ao
movimento.
A
DIMENSÃO DA CULTURA POLÍTICA - A prática cotidiana nos movimentos sociais
proporciona o acúmulo de experiências, nas quais há a importância da vivência
do passado e do presente para a construção do futuro. As vivências do passado
(como a opressão, negação de direitos etc.) são resgatadas no imaginário
coletivo do grupo para fornecer elementos concretos para a leitura do presente.
Para Gohn, os aprendizados proporcionados aqui são vários:
a)
aprende-se a não ter medo de tudo que foi inculcado como proibido e
inacessível;
b) aprende-se a descobrir os porquês das
restrições, proibições e exclusões;
c)
aprende-se a acreditar no poder do discurso e das idéias, quando expressas em
lugares e ocasiões adequados;
d)
aprende-se a calar-se e a resignar-se quando a situação é completamente
adversa;
e)
aprende-se a criar códigos específicos para solidificar as mensagens e
bandeiras de luta (músicas e folhetins);
f) aprende-se a elaborar discursos e práticas
de acordo com os cenários vivenciados;
g) e, sobretudo, aprende-se a não abrir mão de
princípios que balizam determinados interesses como seus.
Em resumo,
estratégias de conformismo e de resistência, de passividade e de rebelião são
elaboradas, segundo os agentes com os quais se defronta. Esta dimensão
educativa dos movimentos sociais revela que certas atitudes que podem ser tidas
como conservadoras nada mais são, na verdade, do que revelações de parte do
processo pedagógico vivenciado pelos movimentos. Cabe aqui ressaltar duas
questões: a educativa e a pedagógica. A primeira é um processo cujos produtos
são realimentadores de novos processos.
A
dimensão espacial-temporal - A participação nos movimentos sociais e a
consciência que ela gera levam ao conhecimento e ao reconhecimento das
históricas condições de vida de parcelas da população, ou seja, no passado e no
presente. A participação em encontros, seminários, congressos etc.
contribui para a formação desta visão historicizada dos problemas, o que leva à
identifi cação de uma dimensão importante no cotidiano das pessoas: a do
ambiente construído, do espaço gerado e apropriado pelas classes sociais na luta
cotidiana.
Tal
dimensão possibilita uma aproximação entre o dito saber popular e o saber
científico, técnico, codificado. Os conceitos “tempo” e “espaço” são de grande
importância no imaginário popular, sobretudo no meio rural, visto que fazem
parte do universo de referência do cotidiano vivido. Já no meio urbano, “tempo”
e “espaço” são categorias desapropriadas do controle dos indivíduos. O tempo
não pertence mais aos sujeitos, mas, sim, ao cronômetro da fábrica ou do
relógio de ponto da instituição em que se trabalha. Os espaços são restritos: o
privado quase não existe, e o raro que há deve ser defendido a todo custo
contra as agressões e a violência da metrópole.
CONCLUSÃO
-
Os
resultados de estudos de Gohn, podemos reconhecer a partir de uma
concepção atual mais ampliada de educação, ou seja, para além dos muros da
formalidade das instituições escolares, que os movimentos sociais possuem
caráter educativo de diferentes dimensões para a formação do sujeito consciente,
com potencial para se organizar em grupos para exigir e manter direitos e
deveres, tornando-se, assim, cidadão participante na sociedade.
RESUMO
O
conceito de cidadania se transformou ao longo da história até se chegar ao
conceito de cidadania elaborado por grupos organizados em movimentos da
sociedade civil: a cidadania coletiva. Pôde aprender também que existe
um caráter educativo nos processos externos aos canais formais de educação, se
a concebermos, não como restrita ao processo de ensino-aprendizagem de
conteúdos específicos por meio de metodologias pedagógicas institucionais, mas,
sim, como algo que é conquistado e socializado permanentemente para além dos
muros escolares.
AULA 21 –
Redes virtuais e reais de movimentos sociais e cidadania – proposta para se
constituir uma rede mundial de movimentos sociais –
Em 2003
propôs discutir a criação da rede mundial de movimentos sociais é a indicação clara da intenção de construir
um marco comum como referência e como ferramenta para as mobilizações
internacionais , apesar de tal proposta só pode ser bem sucedida com o
engajamento de movimentos de todo o mundo em discussões e debates. A rede
mundial de movimentos sociais ajudaria a desenvolver as condições para que os
diversos movimentos sociais do mundo possam trocar análises, opiniões e
informações sobre a conjuntura atual e estabelecer algumas prioridades
comuns e tarefas necessárias antes e depois de reuniões do FSM (Fórum Social
Mundial).
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