quinta-feira, 19 de junho de 2014

MOVIMENTOS SOCIAIS - Cláudio da Silva Ribeiro / Virgínia de Oliveira Silva




Resumo aula 01 Movimentos Sociais e Educação | Conceito e tipologia

AS ORDENS PASSIVA E ATIVA DOS MOVIMENTOS SOCIAIS
No que diz respeito à ordem de ação social, podemos dizer que há duas ordens bem definidas de movimentos sociais: a) uma passiva e b) uma ativa.
Concebemos o primeiro tipo de ordem dentro da nomenclatura passiva, pois, a forma pela qual o movimento social se articula para realizar seus objetivos ocorre de modo bastante tranqüilo. Trabalhos comunitários e de associações de bairro, grupos religiosos, ONGs e empresas voltadas para a responsabilidade social, cujos propósitos se endereçam para a multiplicação de bens e serviços sociais dentro de moldes e padrões determinados como um modo de vida tal qual o modo seguido pelas classes hegemônicas, são exemplos de movimento social de ordem passiva.
A ordem de movimento social passiva é aquela em que determinadas pessoas socialmente adaptadas se organizam de forma a ajudar outras menos privilegiadas, sem atritos sociais.
Tenta-se manter alguns elementos socioestruturais de forma mais ampla, beneficiando uma determinada camada ou grupo social dentro de uma organização previamente estruturada (como uma escola, indústria ou mesmo o governo de um país).
Os movimentos sociais podem ser considerados como empreendimentos coletivos para estabelecer nova ordem de vida. Têm eles início numa condição de inquietação e derivam seu poder de motivação na insatisfação diante de uma forma corrente de vida, de um lado, e dos desejos e esperanças de um novo esquema ou sistema de viver, do outro (LEE apud LAKATOS, 1990).
Desta forma, você pode entender perfeitamente que um movimento social de ordem passiva ocorre devido à necessidade de mudanças, mas de acordo com a defesa de instituições que garantem e mantêm as estruturas hegemônicas.
Movimento social de ordem ativa. Esta ordem difere da anterior pelo fato de resistir e se contrapor à organização instituída. Coletivamente, atua de modo a concentrar sua agitação objetivando conquistar interesses concretos de forma a seguir um plano traçado para alcançar (o estabelecimento de) uma nova ordem.
Nessa direção, o movimento social de ordem ativa implica mudanças sociais não apenas no que diz respeito à inserção de pessoas dentro de estruturas já instituídas pelos valores hegemônicos, mas também no que diz respeito às mudanças na expressão cultural de tais valores, estabelecendo uma nova representação de vida e, por extensão, um outro modo de viver o cotidiano.
É o caso do Movimento dos Sem-Terra, o MST.
O MST é uma das maiores lições que podemos tirar da história dos movimentos sociais. Um grupo de pessoas humildes, vivendo na difícil realidade rural brasileira, diante dos problemas da falta de propriedade, iniciou um trajeto de união de interesses para resolver seus problemas de habitação. Ao empreender a luta pela reforma agrária, acabou entendendo que a conquista de todos os direitos sociais quecompõem o que se poderia chamar de cidadania plena exige também uma reforma na Educação de seus participantes.
Nesse sentido, o MST é um movimento social ativo, pois, em sua luta, institui uma nova representação social, a dos “sem terra”, cuja cultura difere do modo de vida das classes hegemônicas e revela uma preocupação em transformar politicamente nossa sociedade de consumo.
Certa vez, em 1999, perguntamos ao líder do MST por que não se candidatava a uma cargo político em Brasília. A expressão de descontentamento tornou-se patente. Ele respondeu que o movimento representava uma força de expressão contrária a toda forma de organização já existente. A contraposição em seus propósitos fundamenta uma nova forma de organização e, portanto, de representação social, de modo que, caso um de seus membros se candidatasse, reproduziria tudo aquilo o que o MST é contra. Por conta disso é que houve, na mesma época, um escândalo em torno de uma secretária do MST, ao posar nua para a revista Playboy. Ao se expor nua, ela quebrou, segundo o mesmo líder, os valores sociais do MST, vinculando-se à venda de imagem tal como orienta o mercado de produtos, próprio do sistema capitalista.
A Educação entre os membros do MST, por exemplo, ocorre em processo, com a participação de crianças, mulheres, jovens e idosos na construção de relações e consciências distintas do senso comum dito “majoritário” – alguém de vocês já viu alguma escola que reúna todos esses grupos num mesmo espaço de ensino, por exemplo?
Assim, nesse primeiro momento, aprendemos de imediato que os movimentos sociais podem ser categorizados em duas ordens:
a) passiva, quando determinado(s) grupo(s) tenta(m) manter alguns elementos socioestruturais de forma mais ampla, na tentativa de ampliar certos benefícios sociais reconhecidamente instituídos;
b) ativa, quando determinado(s) grupo(s) tenta(m) romper padrões sociais instituídos de modo a criar atritos de ordem política, no afã de profundas transformações sociais.
Por fim, destacamos que a característica fundamental dos movimentos sociais compreende a união de pessoas no desejo de estabelecer uma nova ordem de vida, seja através de atritos, seja de forma coadunada com a legalidade instituída.
TIPOLOGIA DOS MOVIMENTOS SOCIAIS
a) Tipo Migratório
Sua característica principal é a insatisfação com sua sociedade de origem, independendo se tal tipo de movimento social é composto por famílias ou indivíduos organizados em grupos. Os seus agentes migram na esperança de melhores condições sociais para um lugar totalmente diferente do local de origem.
Ex.: Os movimentos migratórios de nordestinos para o Sudeste do país, levando-os a um tipo de agregação representativa no Rio de Janeiro e em São Paulo.
b) Tipo Progressistas
Os membros do tipo progressista fazem parte de um segmento específico da sociedade (os que aspiram a mudanças pela sua ação) e, ao agir, forçam outros segmentos a modificar a estrutura social estabelecida, no afã de mudanças positivas. Também são chamados de liberais.
Agem no desejo de mudar, numa atualização social permanente contrapondo-se a regras, leis e tradições existentes.
Ex.: Sindicalistas, partidos políticos, comunidades eclesiásticas.
c) Tipo Conservacionistas ou de Resistência
Caminham exatamente na contramão dos progressistas, isto é, não somente resistem às reformas e mudanças, como procuram, até mesmo, retornar à ordem anterior as obras sociais conquistadas.
Ex.: Grupos que se manifestam contra a legalização do aborto e do divórcio; ecólogos desejosos de um retorno ao naturalismo maculado pelo mundo altamente industrializado.
d) Tipo Regressivos ou Reacionários
Movimentos sociais que reúnem indivíduos insatisfeitos com mudanças e almejam restabelecer as condições sociais que antes imperavam.
Segundo Lakatos (1990), esses indivíduos formam grupos a partir “do descontentamento e de tendências de determinada mudança” (p. 296).
Ex.: Ku Klux Klan, neonazistas, Tradição, Família e Propriedade (cuja proposta se fundamenta em princípios “puristas” da família cristã).
e) Tipo Reformistas
Movimentos sociais cujos membros primam por introduzir o que acreditam ser o melhor para a sociedade à qual pertencem, sem alterar as estruturas básicas estabelecidas. Dependendo do tipo de sociedade em que se encontram, seus membros acabam por enfrentar grandes resistências ou incentivos para sua dinâmica. A resistência é inevitável em sociedades de regime autoritário, onde mudanças advindas da participação do consenso coletivo se contrapõem, natural e indubitavelmente, à tirania. Por outro lado, o mesmo consenso coletivo é desejável nas sociedades de governo democrático. Logo, na democracia, os movimentos sociais de natureza reformista são essenciais para a atualização de sistemas estruturais societários.
Ex.: Movimentos feministas, homossexuais, ou mesmo o movimento abolicionista durante o período do Império.
f) Tipo Expressivos
Grupos que, longe de propor transformações na sociedade em que se encontram, direcionam-se a realizar transformações em sua própria percepção e reações frente ao que é socialmente conflitante, desagradável e confinante.
Ex.: Movimentos religiosos: como o Hare Krishna e o Messiânico.
g) Tipo Utópicos
São compreendidos como movimentos separatistas, pois fecundam uma realidade paralela à que se vive, numa dinâmica de idealização social. Livros como A República, de Platão, e A cidade de Deus, de Santo Agostinho, retratam o desejo humano de viver dentro de situações utópicas.
Assim, esse tipo de movimento social se caracteriza pela fuga da realidade, criando um discurso para fundamentar uma sociedade ideal.
Ex.: O movimento hippie.
h) Tipo Revolucionários
Movimentos sociais que se organizam para combater o que é socialmente conflitante, desagradável e confinante. Os grupos que se formam dentro desse tipo de movimento social desejam mudanças rápidas e saem em campo para romper com a ordem hegemônica para conquistar seus interesses.
Ex.: IRA.
Assim, conforme vimos em Lakatos (1990), os movimentos sociais se dividem em diferentes tipos, de acordo com suas características específicas: migratórios; progressistas; conservacionistas ou de resistência; regressivos ou reacionários; reformistas; expressivos; utópicos; revolucionários.
Resumo aula 02  Movimentos Sociais e Educação | Genealogia
FASE DOS MOVIMENTOS SOCIAIS
Segundo Lakatos (1990), há diferentes estágios em que podemos classificar o seu desenvolvimento estrutural. Essa autora acredita que todos os movimentos sociais passam pelos mesmos estágios em sua gênese constitutiva, sendo eles:
a) agitação; b) excitação; c) formalização; d) institucionalização.
Agitação – Segundo a autora, é um estágio prolongado em que a população, apesar de insatisfeita, nada faz em termos de ação rumo à união de grupos para o alcance de seus propósitos sociais, “talvez por não saber atuar” (p. 298).
Excitação – A intranqüilidade existente no estágio anterior, generalizada e vaga, totalmente sem direcionamento para alcançar metas, dá lugar a uma canalização das
tensões vividas por determinados grupos. Aparece, então, a importância do líder, cujo discurso dá sentido e propósitos para que determinadas coletividades sigam num mesmo endereçamento para a ação de transformação na dinâmica social de que fazem parte.
Formalização – Lakatos (1990) admite que alguns grupos podem não prescindir de formalização. Cita os grupos migratórios como sendo aqueles que não carecem de uma organização para direcionar os passos de sua ação. Em contrapartida, outros grupos dependem de uma ideologia, uma moral ou, ainda, uma significação sólida, para justificar sua ação numa direção específica de seu movimento socialmente transformador.
Institucionalização – É o estágio em que ocorre a notoriedade social da identidade e ideologia dos movimentos sociais. De modo geral, o carisma dos primeiros líderes é substituído pelo profissionalismo de representantes capazes de conduzir os movimentos dentro de sua institucionalidade. Em tal estágio, “o Estado atua para desestabilizar e/ou desmobilizar o movimento” (ibid.).
Geralmente o Estado apresenta uma atuação desestimuladora frente aos movimentos sociais que se propõem a atualizá-lo administrativa e economicamente. E isto devido ao fato de que o Estado age como uma instituição já socialmente consolidada, cuja estrutura, operada em sistemas (sistema de saúde, de educação, de habitação etc.), deve ser incorporada à vida dos cidadãos.
Uma vez institucionalizado, enfim, um movimento social deverá ser coerente em seus princípios para não perder a direção a partir da qual se fez o desejo de transformar a realidade social, e se tornar mais uma dinâmica social contraditória em sua prática!
O êxito dos movimentos sociais depende não somente da competência, através da qual líderes se demonstrarão capazes de direcionar o descontentamento percebido coletivamente, sem cair na incoerência do discurso ideológico inicial, a fim de assegurar uma consistência moral ao grupo, mas, fundamentalmente, na capacidade de pessoas carismáticas mediarem o agrupamento de pessoas por intermédio de uma significação comum diante de um mesmo tipo de sentimento; um sentimento inicial e teoricamente engendrado pela “injustiça social”: o sentimento de abandono.
No Brasil, é notório o sentimento de insatisfação dos professores em face de seus salários. Mesmo pertencendo a um sindicato que garante determinados direitos à classe docente, dificilmente encontraremos um professor satisfeito com o salário que ganha. Podemos dizer, portanto, conforme aprendemos, que o sindicato dos professores, na defesa de seus interesses, funciona dentro de uma ordem passiva, numa tipologia reformista e já totalmente institucionalizada. Nem por isso deixa de ser movimento social, pois todo sindicato tem esse perfil: a organização de pessoas para o estabelecimento de uma nova ordem (ou ajustes) de vida.

O fenômeno do exemplo do morro da Mangueira, de cujos trabalhos se destacam dinâmicas artísticas, esportivas e educacionais, retrata o fato de sua assistência estar estruturada como um movimento social de ordem passiva, dentro de uma tipologia progressista e reformista, num estágio sólido de institucionalização. O morro da Mangueira, enfim, graças a seus projetos e atividades variadas, tornou-se um modelo de movimento social desejável “aos olhos” do Estado.
Na discussão entre interesses hegemônicos e interesses de minorias, o que se tem são tensões de força. Por isso, nem sempre (ou quase nunca...) é fácil o governo aderir a decisões decorrentes das insatisfações coletivas.
Segundo Lakatos (1990), as quatro fases para a formação de um movimento social. São essas: a) a agitação, b) a excitação, c) a formalização, d) a institucionalização.
Tornamo-nos cientes de que os movimentos sociais não raro resultam de um sentimento dividido coletivamente. Sentimento derivado da insatisfação de um determinado desconforto diante de uma circunstância social desagradável e pendente de solução (a agitação); de um momento conseguinte, no qual são identificados determinados focos de intranqüilidade, pelo que o espírito de solidariedade frente a mudanças emerge de forma direcionada (a excitação); de um estágio em que a solidariedade citada se desenvolve moral e ideologicamente para o planejamento da ação em grupo (a formalização); e, por fim, o status de sobreviver como entidade que o Estado passa a reconhecer como agente social capaz de atuar positivamente na sociedade (a institucionalização).

Resumo aula 03 Movimentos Sociais e Educação | Condições estruturais, fatores individuais e situações favoráveis
ELEMENTOS PROPICIADORES À FORMAÇÃO DOS MOVIMENTOS SOCIAIS
A compreensão dos elementos propiciadores à formação dos movimentos sociais aponta para os seguintes fenômenos, segundo o pensamento de Lakatos (1990): a) condições estruturais; b) motivos individuais; c) condições sociais.
Condições estruturais que, socialmente, inclinam pessoas a se aglutinarem para agir numa direção comum. São essas, segundo Stockdale: (in HORTON; HUNT apud
LAKATOS, 1990, p. 299):
a) descontentamento social – sentimento de inadequação ou de injustiça decorrente da estrutura social vigente;
b) bloqueio estrutural – barreiras levantadas pela estrutura social impedindo pessoas e grupos de eliminarem a fonte que origina o seu descontentamento;
c) contato – possibilidade de encontro e interação por parte dos elementos descontentes, submetidos à mesma situação social;
d) eficácia – consubstanciada na expectativa do grupo de que uma ação particular proposta aliviará os motivos de descontentamento e trará alterações desejadas na organização da sociedade;
e) ideologia – conjunto de idéias e crenças que têm por finalidade justificar a ação proposta.
Há determinados fatores individuais que propiciam a união de pessoas para formar um movimento social. Tais fatores são: a) mobilidade; b) marginalidade; c) isolamento e alienação; d) mudança de status social; e) ausência de laços familiares; e f) desajustamento pessoal.
a) Mobilidade – Refere-se ao fato de que as contingências materiais e sociais impelem pessoas a se moverem de uma região a outra, procurando obter melhores condições de vida.
b) Marginalidade – Determinadas pessoas podem se sentir estimuladas à formação de movimentos sociais, caso se entendam marginalizadas. O conceito de marginalidade é mais amplo do que o entendido pelo senso comum, que geralmente o usa como sinônimo de bandidagem. Como “marginal” devemos entender tudo aquilo e aqueles que se encontram na periferia da estrutura básica da sociedade.
c) Isolamento e alienação – Afetam pessoas que, por razões econômicas ou por conta de doenças, entre outros motivos, acabam se afastando da sociedade que lhes é comum.
d) Mudança de status social – Segundo Lakatos (1990), ao ascender socialmente, uma pessoa poderá se tornar insegura a ponto de ingressar em um movimento social na expectativa de evitar a ameaça de retorno à perda do status alcançado.
e) Ausência de laços familiares – A falta de pessoas da família para cuidar pode levar pessoas a se ocuparem de outras, no afã de se sentirem úteis e de resolver problemas ligados à afetividade.
f) Desajustamento pessoal – A mesma autora sustenta o argumento de que pessoas desajustadas temporariamente são diferentes das pessoas patologicamente desajustadas. As primeiras, numa situação de desemprego, por exemplo, poderiam se engajar em movimentos sociais, mas, uma vez defendidos os seus próprios interesses e adaptadas à sociedade em comum, dificilmente continuam fazendo parte de movimentos sociais.
CONDIÇÕES SOCIAIS PROPICIADORAS DOS MOVIMENTOS SOCIAIS
A autora destaca as correntes culturais, a desorganização social ou a ANOMIA (Ausência de regras numa determinada sociedade ) e o descontentamento social como sendo os fatores mais relevantes para o incentivo à formação dos movimentos sociais.
a) Correntes culturais – As correntes culturais parecem ser engendradas a partir das relações de produção. A idéia de que pessoas precisam produzir novos produtos e coisas já implica transformações culturais, pois ninguém produz algo cuja lógica fomente a crença de que tal produto não promoverá uma melhor sobrevivência das pessoas no mundo.
b) Desorganização social ou anomia – A vida social é um processo em pleno movimento dinâmico em sua produtibilidade; situações novas emergem continuamente da dinâmica inerente à produção da ordem social, em um fluxo intermitente de novas necessidades compostas pelas relações humanas.
A anomia significa isso: a total falta de normas sociais, pelo que se insta uma “sociedade doente”.
Lakatos (1990) afirma que o estado de confusão e incerteza trazido pela anomia aos atores sociais
c) Descontentamento social – Esse estado, como denomina Lakatos (1990), diz respeito ao imaginário coletivo. Para a autora, a insatisfação comum disseminada pela sociedade geralmente decorre de três situações. São essas:
privação relativa – ocorre pelo fato de as pessoas entenderem que poderiam materialmente ter muito mais do que deveriam ter, na comparação entre o que consomem e o que idealmente pensam que poderiam consumir.
percepção da injustiça – diante das diferenças sociais, o juízo de valor e o sentimento de indignação de pessoas de qualquer classe podem justificar o aumento da incidência de movimentos sociais – na ação de grupos tentarem minimizar fatos ou condições que ajuízam injustos.
incoerência de status – “situação em que as diferentes posições ocupadas por uma pessoa não são coincidentes”.
Caminham exatamente na contramão dos progressistas, isto é, não somente resistem às reformas e mudanças, como procuram, até mesmo, retornar à ordem anterior as obras sociais conquistadas.
Ex.: Grupos que se manifestam contra a legalização do aborto e do divórcio; ecólogos desejosos de um retorno ao naturalismo maculado pelo mundo altamente industrializado.
d) Tipo Regressivos ou Reacionários
Movimentos sociais que reúnem indivíduos insatisfeitos com mudanças e almejam restabelecer as condições sociais que antes imperavam.
Segundo Lakatos (1990), esses indivíduos formam grupos a partir “do descontentamento e de tendências de determinada mudança” (p. 296).
Ex.: Ku Klux Klan, neonazistas, Tradição, Família e Propriedade (cuja proposta se fundamenta em princípios “puristas” da família cristã).
e) Tipo Reformistas
Movimentos sociais cujos membros primam por introduzir o que acreditam ser o melhor para a sociedade à qual pertencem, sem alterar as estruturas básicas estabelecidas. Dependendo do tipo de sociedade em que se encontram, seus membros acabam por enfrentar grandes resistências ou incentivos para sua dinâmica. A resistência é inevitável em sociedades de regime autoritário, onde mudanças advindas da participação do consenso coletivo se contrapõem, natural e indubitavelmente, à tirania. Por outro lado, o mesmo consenso coletivo é desejável nas sociedades de governo democrático. Logo, na democracia, os movimentos sociais de natureza reformista são essenciais para a atualização de sistemas estruturais societários.
Ex.: Movimentos feministas, homossexuais, ou mesmo o movimento abolicionista durante o período do Império.
f) Tipo Expressivos
Grupos que, longe de propor transformações na sociedade em que se encontram, direcionam-se a realizar transformações em sua própria percepção e reações frente ao que é socialmente conflitante, desagradável e confinante.
Ex.: Movimentos religiosos: como o Hare Krishna e o Messiânico.
g) Tipo Utópicos
São compreendidos como movimentos separatistas, pois fecundam uma realidade paralela à que se vive, numa dinâmica de idealização social. Livros como A República, de Platão, e A cidade de Deus, de Santo Agostinho, retratam o desejo humano de viver dentro de situações utópicas.
Assim, esse tipo de movimento social se caracteriza pela fuga da realidade, criando um discurso para fundamentar uma sociedade ideal.
Ex.: O movimento hippie.
h) Tipo Revolucionários
Movimentos sociais que se organizam para combater o que é socialmente conflitante, desagradável e confinante. Os grupos que se formam dentro desse tipo de movimento social desejam mudanças rápidas e saem em campo para romper com a ordem hegemônica para conquistar seus interesses.
Ex.: IRA.
Assim, conforme vimos em Lakatos (1990), os movimentos sociais se dividem em diferentes tipos, de acordo com suas características específicas: migratórios; progressistas; conservacionistas ou de resistência; regressivos ou reacionários; reformistas; expressivos; utópicos; revolucionários.
Resumo aula 04  Movimentos Sociais e Educação | Condutas coletivas
Os movimentos sociais seriam inexistentes se “atores sociais” não se organizassem para agir em grupo, na defesa de interesses. podemos teoricamente, tal qual nos ensina Allain Tourraine (2002), dividir as condutas coletivas em dois níveis:
• organizacional;
• social.
Condutas coletivas. Tais condutas resultariam da ação das pessoas em determinadas comunidades para defender, contestar, ou defender e contestar ao mesmo tempo, seus interesses de ordem social. Tourraine, assim, define os movimentos sociais como “a ação conflitante de agentes das classes sociais lutando pelo controle do sistema de ação histórica” (p. 283).
Conforme o pensamento de Tourraine (2002), para realizar uma correta análise das condutas coletivas, é fundamental considerar o fato de que, dependendo de seus interesses, os atores “se misturam” (“pobres” e “ricos”, por exemplo). Atores se agrupam, na dimensão dos sistemas institucionais, de forma diferenciada, através do desenrolar de seus papéis (papel de pai, professor, profissional liberal, “sem teto” etc.). “Misturam-se” porque são convocados a desempenhar uma ação socialmente importante, de acordo com fatores culturais e situacionais, representados na dinamicidade do espaço-tempo de suas vidas, nos conflitos das tensões sociais. Veja, por exemplo, o MST.
Quantos intelectuais e artistas, e mesmo pessoas do Governo, não defendem e se unem pela causa de problemas de falta de moradia dos “sem-terra”? No entanto, tais classes, diferentemente dessa última, são socialmente privilegiadas.
A organização é compreendida como uma estrutura materialmente definida para a produção efetiva de resultados concretos: um carro, o saber construído numa escola ou o atendimento médico em um hospital qualquer (público ou privado). Um carro, o saber (escolar ou não), qualquer tipo de atendimento são fenômenos mundanos e, portanto, decorrentes da ordem construída pela mão do homem;
A instituição é um complexo integrado de idéias, padrões de comportamento, relações políticas e, muitas vezes, um equipamento material, organizados em torno de um interesse socialmente reconhecido. As instituições são erguidas por uma razão vital: a manutenção da sobrevivência humana e, nesse sentido, há uma série de acordos para o seu estabelecimento, que são políticos e materiais, a fim de colocar sistemas politicamente acordados em funcionamento;
O conceito de organização abrange também a concepção de um sistema de relações entre os membros de um grupo ou entre os grupos de uma sociedade, relações essas que envolvem obrigações e compensações recíprocas, diante de padrões de contribuições e retribuições sociais. Como as instituições são construídas para a manutenção da vida humana, é fundamental que os humanos dos quais as instituições dependem para se manterem estabelecidas compreendam e obtenham delas vantagens para a sua própria sobrevivência.
Quais são os dois níveis de condutas coletivas? Como ocorrem?
Organizacional e social. O primeiro nível (organizacional) ocorre dentro das estruturas decorrentes das leis estabelecidas institucionalmente; o segundo nível (social), no âmbito das próprias instituições.
O que o passado e o futuro têm a ver com o desenrolar das condutas coletivas?
Por ser um sujeito histórico, o Homem está sempre se remetendo a âncoras do passado para refletir melhor sobre as ações que crêem poder ser positivas para o seu futuro. Nesse sentido, muitas vezes, os atores sociais mencionam ou lembram o passado para ilustrar que agir é necessário para a conquista de futuras transformações sociais.
Resumo aula 05  Movimentos Sociais e Educação | MST – Movimento dos Sem-Terra
No Brasil, as invasões de terra se misturam com as lutas pela moradia popular na cidade de São Paulo, lutas que fazem parte da própria história de urbanização da cidade.
O Movimento dos Sem-Terra faz parte dessa história e destaca-se, em 1987, pelas manifestações da Zona Leste de São Paulo. Enquanto a imprensa denominava suas ações de “invasões” de terra, seus líderes as denominavam “ocupações”. Diferentemente do que se verifica na década de 1970, com a formação de favelas na Grande São Paulo, as manifestações das ocupações de terra na década de 1980 forçaram negociações com o Estado, pois se tratava de ocupações coletivas e organizadas cujo objetivo era estabelecer direitos de moradia popular, criando polêmicas e conflitos, caso isso fosse necessário. Daí originaram-se projetos populares para a construção de moradias. Por isso, o MST tornou-se uma referência para a organização popular que se inclinou à multiplicação de buscas incessantes e socialmente necessárias para os assentamentos em diferentes pontos do país.
Na Zona Leste, todos os movimentos vinculados à posse da terra estavam intimamente associados à Igreja. O MST, que surgiu oficialmente em 1983, no estado de São Paulo, obteve sua ação na Zona Leste apoiado pela Igreja Católica. Sua efetiva organização viabilizou uma manifestação ímpar na história da política brasileira, diante do Palácio Bandeirantes, “representando 60 municípios paulistas e pretendendo pressionar o governo do Estado para obter promessas relativas à reforma agrária em São Paulo” (ibid., p. 80).
Entre 1984 e 1986, graças ao apoio da Pastoral e à sua alta organização para a ação política, o MST conquistou 1.788 lotes através de programas municipais, principalmente o Projeto João de Barro, onde as famílias constroem suas casas com material financiado pela Cohab. Os terrenos também são financiados pela Cohab ou pelo Funaps (Fundo de Atendimento à População Moradora em Habitação Sub-Normal) (ibid., p. 81)
HISTÓRIA DO MST
Institucionalizado em 1985, o MST atualmente está presente em 23 estados e participa ativamente da ação pública, através da representatividade de 1,5 milhão de seus membros. Há 300 mil famílias assentadas e 80 mil em acampamentos. As ocupações de fazendas e áreas diversas marcam a história contemporânea do espaço público e transformam o perfil da cultura brasileira, vista como uma cultura de festas de carnaval e pouco politizada, apesar de que a luta pela terra no Brasil surgiu bem antes do MST.
Finalmente, em 1984, o MST é fundado oficialmente no 1º Encontro dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra, realizado em Cascavel, PR. O 1º Congresso Nacional dos Sem-Terra ocorre no ano seguinte.
A história dos sem-terra nos demonstra que a luta organizada é condição para as conquistas sociais. A organização de acampamentos, ocupações diversas (em sedes de governos e fazendas), marchas, destruição de plantações de transgênicos e greves de fome são exemplos de suas ações.
Em 19 de abril de 1997, várias pessoas de diferentes pontos do país alcançaram Brasília pela Marcha Nacional por Emprego, Justiça e Reforma Agrária. Em agosto de 2000, o 4º Congresso Nacional contou com a participação de onze mil congressistas.
Dezessete anos de luta fizeram com que os líderes do MST organizassem sistemas internos e reivindicações para além da conquista da terra. A possibilidade de crédito, de construção de moradia, de obtenção de assistência técnica e educação, de atendimento à saúde, entre outras necessidades das famílias sem-terra, são aspectos que levam famílias assentadas a permanecerem associadas ao MST em luta contra as desigualdades sociais.
Existem hoje cerca de 400 associações de produção, comercialização e serviços; 49 Cooperativas de Produção Agropecuária (CPA) com 2.299 famílias associadas; 32 cooperativas de prestação de serviços com 11.174 sócios diretos; duas cooperativas regionais de comercialização e três cooperativas de crédito com 6.521 associados. São 96 pequenas e médias agroindústrias que processam frutas, hortaliças, leite e derivados, grãos, café, carnes e doces. Essa realidade não teria sido conquistada sem lutas. Os empreendimentos econômicos do MST geram emprego, renda e impostos, beneficiando indiretamente cerca de 700 pequenos municípios do interior do Brasil. Aliada à produção está a educação: cerca de 200 mil crianças estudam da 1ª à 4ª série nas 1.800 escolas públicas dos assentamentos. Quatro mil educadores são pagos pelos municípios e desenvolvem uma pedagogia específica para as escolas do campo. Em conjunto com a Unesco e mais de 50 universidades, o MST desenvolve programas de alfabetização para aproximadamente 30 mil jovens e adultos nos assentamentos. Há diversas universidades brasileiras (PA, PB, SE, ES, MT, MS e RS) envolvidas com cursos de Pedagogia e Magistério para formar novos educadores dentro dessa perspectiva pedagógica. Há também a formação de técnicos em administração de assentamentos e cooperativas e magistério. Em 2001, iniciaram o curso técnico em Enfermagem e um Programa de Educação Ambiental para lideranças, professores e técnicos de áreas de assentamentos, associado ao Ministério do Meio Ambiente. Preservação de matas, plantio orgânico e produção de ervas medicinais são outras ações de significativa representatividade política do MST. A luta do MST continua situando a ação em grupo, unindo e convocando a união de movimentos do campo e da cidade, objetivando continuar seu propósito de construir um projeto popular no Brasil.
ANÁLISE DAS CATEGORIAS TEÓRICAS PRESENTES NA HISTÓRIA DO MST
Poderíamos classificar esse movimento como de ordem ativa, pois seus membros querem alterar a ordem da estrutura social, estabelecendo novos direitos e modelos para a organização social.
Quanto à tipologia, você poderá facilmente identificar que há um conjunto de características que se imbricam. Podemos dizer que o MST tem um perfil migratório, já que muitas vezes seus agentes migram, ao longo do país, na esperança de melhores condições sociais; mas não deixa de ser um movimento progressista, uma vez que, ao agir, o MST impele outros segmentos (Igreja e partidos políticos) a lutar por modificações na estrutura social estabelecida. Nesse sentido, torna-se um movimento reformista, considerando o fato de que seus membros primam por introduzir o que acreditam ser o mais justo para a sociedade a que pertencem, sem com isso alterar as estruturas básicas já estabelecidas (o MST quer a distribuição de terras, ampliando o número de proprietários – mas a noção de propriedade tal qual a entendemos permanece inalterada em seu uso, mesmo que se estabeleçam cooperativas de proprietários de um mesmo solo). É revolucionário, pois não deixa de ter um caráter de combate ao que é socialmente conflitante, desagradável e confinante (como vem sendo a privação que muitos cidadãos brasileiros vêm passando), saindo em campo para romper com a ordem hegemônica, na conquista da distribuição da terra.
Resumo aula 06  Movimentos Sociais e Educação
O MST – Movimento dos Sem-Terra – e a Educação
Para os líderes do MST, lutar somente pela terra não é suficiente para uma reforma social. A luta pela reforma agrária, assim, vai além da conquista da terra e abrange a conquista da cidadania plena, cujo exercício exige a educação numa prática da autonomia do pensamento. Este último, o pensamento, depende de um conjunto de informações e práticas próprias do “estudar”. A Educação, assim, torna-se não apenas um direito pelo qual também é preciso mobilização, organização e lutas em nosso país, mas um desafio para a construção da autonomia.
Até onde temos registro, o complexo do sistema de ensino do MST reúne um universo de 1.800 escolas de Ensino Fundamental, com 160 mil crianças e adolescentes freqüentando essas unidades em acampamentos e assentamentos.
A FILOSOFIA DA EDUCAÇÃO DO MST
A Educação nos acampamentos e assentamentos tem seus princípios filosóficos voltados para:
• a formação da sociedade por meio de valores humanistas e socialistas;
• a educação de classe;
• a transformação social;
• a cooperação;
• a valorização do indivíduo.
A prática da produção do conhecimento nos assentamentos e acampamentos decorre da realidade dos estudantes. Segundo Coltro (1998), para compreender a situação da agricultura no país, por exemplo, recorre-se ao pensamento de como a agricultura do próprio assentamento vem sendo produzida.
Relacionar teoria e prática – para que os alunos tornem-se pessoas capazes de articular as questões do dia-a-dia, ou problemas que aparecem no ambiente de trabalho e na militância do MST – e combinar processos de ensino e de capacitação são os dois primeiros preceitos pedagógicos do MST. Dirceu Queiroz dos Santos, um dos coordenadores de educação do MST, explica que na Matemática, por exemplo, os alunos utilizam o próprio processo de produção para compreender a disciplina. ‘Em um dos acampamentos do Estado de São Paulo, os estudantes mediram a área onde um parque ia ser construído e calcularam quanto material seria utilizado. Usaram a teoria da disciplina na prática’, diz Santos, relacionando a luta do Movimento com as suas próprias experiências pessoais (Renata Coltro, com reportagem de Luana Fischer – Semeando – Educação no MST Projeto Experimental – Jornalismo – 4º ano PUC/SP – Junho /98).
“Saber-fazer” e “saber-ser” são os saberes que guiam os educadores em sua meta pedagógica.
APRENDER PARA O TRABALHO
A ligação entre processos educativos, políticos, econômicos e culturais, para que os estudantes sem-terra tornem-se militantes de fato, é outra preocupação pedagógica do movimento: “A escola não pode negar sua relação com a política. Deve, portanto, alimentar a indignação diante de situações de injustiça e impunidade que estão sendo, atualmente, difundidas pelos meios de comunicação e pela sociedade”, prega o boletim do MST. E para que os alunos pensem dessa forma, enfatizam-se o estudo de História, o de Economia Política e, também, a participação dos trabalhadores sem-terra em lutas sociais de outras categorias.
Nas escolas dos acampamentos e assentamentos, pretende-se mostrar aos alunos que o trabalho é gerador de riquezas e que se deve saber a diferença entre relações de exploração e relações de igualdade na lida do campo. Há, também, uma preocupação para que não se discrimine o trabalho manual, diante do intelectual (id.).
O setor de Educação, como núcleo administrativo do ensino no MST, também garante o trâmite de reconhecimento do grau obtido nas escolas do MST pelo Ministério da Educação e do Desporto (MEC), o que possibilita aos alunos o ingresso ao ensino superior comum.
Os preceitos pedagógicos cultivados no setor de Educação convergem para a filosofia pedagógica do MST. São eles, segundo Coltro (id.):
– relacionar teoria e prática;
– combinar métodos de ensino e de capacitação;
– educar para o trabalho;
– associar educação e cultura;
– incentivar a auto-organização dos estudantes;
– gerir democrática e pedagogicamente as escolas;
– incentivar atividades de pesquisa;
– associar interesses coletivos e individuais.
PRINCÍPIOS E LINHAS METODOLÓGICAS DO MST
Os princípios pedagógicos, isto é, os caminhos de fazer e pensar a Educação têm como meta concretizar determinados princípios filosóficos. Tornam-se elementos essenciais para a prática educacional e, no caso do sistema de ensino do MST, inclui a reflexão metodológica dos processos educativos, chamando atenção de que há práticas diferenciadas a partir dos mesmos princípios pedagógicos e filosóficos. Assim, as diferentes práticas pedagógicas entre escolas infantis de assentamentos e cursos de ensino específico, como Técnico em Administração de Cooperativas (TAC), atendem aos mesmos princípios filosóficos e pedagógicos.
PRINCÍPIOS DA EDUCAÇÃO NO MST
As lutas sociais do MST estão ligadas às defesas que ideologicamente o movimento sustenta. Note que há coerência em termos de lutar pelo direito comum, de produzir o fazer social de modo organizado e livre e o incentivo de uma prática de ensino cujos participantes são induzidos à reflexão (exigida na prática da autonomia). Esse fato vem despertando a admiração de governos estrangeiros que entendem o MST gerir uma ação que socializa os seus participantes. Até porque, de certa forma, as lutas sociais voltadas para o direito da ação coletiva em prol de conquistas sociais corrobora o ponto de vista do livre comércio (por intermédio de cooperativas, por exemplo). A ação social, deste modo, acaba por integrar pessoas socialmente marginalizadas para o sistema econômico vigente, já que o movimento cria suas próprias oportunidades para o trabalho, na ótica da sustentabilidade e da ecologia, na esfera de sua realidade rural – aspectos essenciais à nova ordem globalizada da atual economia mundial. Não é à toa que o MST vem despertando a atenção da ONU, de ONGs e de diferentes governos.
As principais defesas que permanecem como bases da Educação do sistema de ensino do MST
• O direito, sem restrição de idade, à educação básica.
• A construção coletiva da escolarização.
• Metodologias e práticas educativas adequadas à realidade do meio rural e do MST.
• Ensino público de qualidade nas escolas dos assentamentos.
• Pedagogias inspiradas em princípios libertários, freirianos.
Princípios filosóficos da Educação no MST
• Educação para a transformação social.
• Educação aberta para o mundo, aberta para o novo.
• Educação para o trabalho e a cooperação.
• Educação voltada para as várias dimensões da pessoa humana.
• Educação como processo permanente de formação/transformação humana.
Princípios pedagógicos da Educação no MST
• Relação permanente entre a prática e a teoria.
• Combinação metodológica entre processos de ensino e de capacitação.
• A realidade como base da produção do conhecimento.
• Conteúdos formativos socialmente úteis.
• Educação para o trabalho e pelo trabalho.
•Vínculo orgânico entre processos educativos e processos políticos.
• Vínculo orgânico entre processos educativos e processos produtivos.
• Vínculo orgânico entre educação e cultura.
• Gestão democrática.
• Auto-organização dos/das estudantes.
• Criação de coletivos pedagógicos e formação permanente dos educadores.
• Atitude e habilidades de pesquisa.
• Combinação entre processos pedagógicos coletivos e individuais.
A República, de Platão, e A cidade de Deus, de Santo Agostinho, retratam o desejo humano de viver dentro de situações utópicas.
Assim, esse tipo de movimento social se caracteriza pela fuga da realidade, criando um discurso para fundamentar uma sociedade ideal.
Ex.: O movimento hippie.
h) Tipo Revolucionários
Movimentos sociais que se organizam para combater o que é socialmente conflitante, desagradável e confinante. Os grupos que se formam dentro desse tipo de movimento social desejam mudanças rápidas e saem em campo para romper com a ordem hegemônica para conquistar seus interesses.
Ex.: IRA.
Assim, conforme vimos em Lakatos (1990), os movimentos sociais se dividem em diferentes tipos, de acordo com suas características específicas: migratórios; progressistas; conservacionistas ou de resistência; regressivos ou reacionários; reformistas; expressivos; utópicos; revolucionários.
Resumo aula 07  Movimentos Sociais e Educação | Ajudando a construir a cidadania
Parece um absurdo conceber a vida como sendo algo diferente de mundo, não é? Afinal, no senso comum, usamos os dois conceitos para nos referirmos à mesma idéia. Por exemplo, quem nunca emitiu as frases: “Eu não agüento mais essa vida!”, ou ainda, “Eu não agüento mais esse mundo!”, numa mesma concepção?
O mundo é construído pela ação do homem, cuja energia do corpo ergue a realidade mundana. A vida independe do homem, pois ela continuaria animando o planeta, mesmo, que aquele não existisse. A vida mundana depende da ação humana, mas a vida do planeta não.
 O PAPEL DA EDUCAÇÃO
As práticas educacionais transpassam, dessa forma, o preparo estritamente profissionalizante e atingem a formação humana em termos, digamos, “espirituais”. Nesse sentido, os PCN nos apresentam temas transversais, tais quais a ética e a ecologia. A ética, aliás, no discurso do ensino atual, propugna o respeito às diferenças etnoculturais, mantendo, assim, a ação (política) de educadores numa direção (ética) necessária à sobrevivência de múltiplas representatividades: saber ser tolerante diante
do que nos é estranho/diferente. Construímos, desse modo, uma nova forma de ver, perceber e significar o mundo dentro das seguintes “visões”:
• a visão contemporânea da tolerância frente à realidade social – é um ideal, se considerarmos os povos que são massacrados (de forma simbólica ou concreta) por não compartilharem das mesmas idéias da ordem da economia mundial;
• a visão do direito de expressão cultural – isso, em tese, pois as culturas norte-americana e européia permanecem hegemônicas, com privilégios sobre a expressão da cultura africana ou latino-americana, por exemplo;
• a visão do direito de consumo – também em tese, já que o desemprego é um fenômeno mundial e que a diferença de preços, mediante a qualidade da produção de mercadorias, abre um largo abismo entre diferentes classes e nações;
• a visão de eqüidade sociocultural, através da qualidade de vida baseada na difusão e no uso de alta tecnologia, na auto-sustentabilidade e na ecologia – visão que se aproxima da que citamos anteriormente, pois diz respeito ao consumo que, em última instância, ocorre também apenas em tese, por motivos óbvios.
O TERCEIRO SETOR
O que se entende hoje como Terceiro Setor abrange os movimentos sociais propugnados por voluntariedade de pessoas físicas, ONGs e empresas privadas. No Brasil, cada vez mais crescem os movimentos sociais associados à mentalidade conceitual do Terceiro Setor.
Organizações privadas sem fins lucrativos constituem o Terceiro Setor. Este gera bens, serviços públicos e privados, objetivando o desenvolvimento político, econômico, social e cultural. Ocorre, então, que:
– O Estado é o Primeiro Setor.
– O mercado é o Segundo Setor.
– Entidades da sociedade civil formam o Terceiro Setor.
As organizações não-governamentais (ONGs), as associações e as fundações são exemplos do que denominamos Terceiro Setor.
Para o professor Mário Aquino Alves, da Fundação Getulio Vargas de São Paulo (veja a página da internet www.Setor3.com.br), são fundamentais para o Terceiro Setor as características de:

a) Altruísmo – “Amor ao próximo”; significa filantropia e caridade; nos estudos de economia e sociedade, é considerada prática altruísta toda ação humana realizada sem motivação pecuniária.
b) Assistência Social – Compreende prestar serviços gratuitos de natureza variada a membros de comunidades, visando a atender necessidades de desprivilegiados.
c) Associação – É a formação social que congrega pessoas interessadas em agir coletivamente em favor de um mesmo fim.
d) Associativismo – Movimento que se mostra em avanço nos anos 60 e 70, incorporando, basicamente, a ação paralela à do Estado; não ter fins lucrativos, e o caráter internacionalista.
e) Ativismo – Atividade de militância política encontrada em diversos movimentos sociais, lembrando-nos das ações do Greenpeace e do MST.
f) Autogestão – Modelo administrativo através do qual decisões e controle de empresas decorrem dos trabalhadores. Diz respeito à participação direta e coletiva de trabalhadores na tomada de decisões.
g) Auto-Regulação – Indica a capacidade de as entidades estabelecerem suas próprias regras de funcionamento, pelo que, teoricamente, as pessoas de uma entidade se tornam capazes de criar estatutos e gerir seus destinos.
h) Auto-Sustentabilidade – “Estado alcançado por uma organização quando consegue gerar – por meio de suas próprias atividades – as receitas necessárias para garantir o financiamento de todos os seus programas e projetos.”
Os movimentos sociais são oficialmente desejáveis, desde que sigam modelos hegemônicos e que, ao assistir desprivilegiados, não coloquem em risco os interesses da economia que ordena a vida atual. Nesse sentido, por mais autonomia que possamos pensar ter, há uma dominação ideológica de fazer e ordenar o mundo em sua inevitabilidade; e, em nossas escolhas, permanecemos reféns do nosso tempo. A liberdade, portanto, é uma idéia limitada às escolhas de que dispomos. Assim, saber pensar o que lhe pode trazer alegria e bem-estar pode ser fundamental para que você venha a agir no mundo ao qual pertence. Tudo dependerá da relação entre a Educação
e a experiência de vida de cada um, mediante a rede integrada de condições socioculturais e econômicas a que nos encontramos sujeitos.
O Terceiro Setor encontra-se afi nado com a nova ordem mundial, dentro de imperativos fundamentais para atender ao mercado globalizado, cuja ótica econômica projeta a difusão irrestrita do consumo do que se produz internacionalmente. Sob tal premissa, exige-se de diferentes coletividades o saber pensar e gerir a si próprias. Na prática de tais imperativos, o papel da Educação se destaca para a construção simbólica desse tipo de mentalidade projetado pela nova ordem da economia mundial. Uma relação de ensinoaprendizagem endereçada à multiplicação de um modelo de vida a ser seguido por todos, no fomento do mundo em sua inevitabilidade: um modelo concebido a partir de idéias de tolerância e respeito entre diferentes representatividades, cujas vidas devem ser pensadas e geridas por si mesmas – apesar de tudo isso ser muito diferente do que podemos observar na prática.
Resumo aula 08  Movimentos Sociais e Educação | O Terceiro Setor e a responsabilidade social
No caso de empresas, denominamos essa atividade responsabilidade social. Já no caso de ONGs, em que a força do trabalho poderá ter um grande volume de voluntariado, temos o Terceiro Setor.

AS DIMENSÕES ECONÔMICA, AMBIENTAL E SOCIAL
Na Cimeira do Rio de Janeiro, em 1992, adotou-se o plano de sustentabilidade para o século XXI, em que se fixaram as três dimensões do desenvolvimento sustentável: a dimensão econômica, a dimensão ambiental e a dimensão social.
A dimensão econômica tem, em seu eixo, a representação de criar riqueza para todos pelo modo de produção e de consumo duráveis; a dimensão ecológica reporta-se à conservação e gestão de recursos; a dimensão social reflete a necessidade ética em que a eqüidade e a participação de todos os grupos sociais são indispensáveis para a promoção da qualidade de vida do planeta.
A dimensão econômica
A dimensão econômica da sustentabilidade diz respeito ao impacto das empresas (bem como de outras organizações, como ONGs e mesmo governos) sobre as possibilidades e condições econômicas das partes interessadas em desenvolver projetos variados tendo em vista o sistema econômico em todos os níveis (capital ativo, passivo, recursos etc.), de modo a poder pensar em viabilizar a produção empresarial de forma necessária, inteligente e não – degradante ao meio.
A dimensão ambiental
Pela perspectiva do desenvolvimento sustentável, a questão ambiental é vista pelos aspectos de recursos e poluições, considerando o impacto ambiental de curto e longo prazo. Após as premissas do desenvolvimento sustentável, as empresas politicamente corretas devem considerar a dimensão ambiental correlacionando suas atividades com os impactos de suas atividades produtivas sobre os sistemas naturais vivos e não-vivos, incluindo ecossistemas, solos, ar e água. No Terceiro Setor, muitos são os trabalhos de voluntariado para a manutenção da ecologia de diferentes lugares do planeta. O Greenpeace é a maior expressão desse tipo de movimento.
A dimensão social
A dimensão social do desenvolvimento sustentável evoca e fomenta idéias de eqüidade socioeconômica e cultural, valorizando a identidade dos seres humanos em toda a sua diversidade. No setor empresarial, a dimensão social tem, em seu raio de ação, o impacto das atividades produtivas da empresa no sistema social onde operam.
A dimensão social abrange, portanto, interesses múltiplos no raio de sua ação. Interesses que, em muitos casos, não se coadunam na prática de suas atividades. A responsabilidade social atua atendendo a áreas próximas ao seu estabelecimento na expectativa de lucrar com a diminuição de custos, como passagens de ônibus; ou mesmo atua na tentativa de preservar sua empresa de ladrões que ajam nas redondezas, tentando estabelecer um bom relacionamento com a comunidade. Longe de visar ao lucro, entretanto, muitas são as ONGs que simplesmente defendem direitos. Todos os movimentos sociais, no entanto, têm como libelo o fundamento dos direitos humanos. Parece haver uma naturalização do que é humanamente justo ou não, como, por exemplo, o direito à vida. Mas isso significa que há determinadas condições para a vida, e não apenas estar vivo. A qualidade de vida das pessoas é, nesse sentido, fundamental para o exercício dos Direitos Humanos, mas o bem-estar subjetivo também o é. Estar psicologicamente saudável para ter proveito do que objetivamente o mundo é capaz de oferecer é condição para o pleno desfrute da vida coletiva.
Resumo aula 09 Movimentos Sociais e Educação | A Declaração Universal dos Direitos Humanos como referência filosófica às atividades dos Movimentos Sociais, do Terceiro Setor e da Responsabilidade Social
Os movimentos sociais, primordialmente aqueles classificados como ativistas, poderão agir à margem da lei, caso isso seja necessário para a realização de suas conquistas sociais.
O ponto de partida da ação de empresas e do Terceiro Setor difere dos movimentos sociais, pois, nestes últimos, admitimos o fato de pessoas se associarem a outras para conquistar sua inserção social. Até mesmo no caso específico de movimentos sociais, é notável grupos travarem verdadeiras lutas sociais para forçar o reconhecimento sociopolítico e econômico de sua organização a fim de valorar sua própria manifestação cultural como expressão do e no mundo. Não é o caso de determinadas ONGs e principalmente de empresas, que não travam lutas contra a ordem dominante, ao contrário, multiplicam-na, expandindo sua realidade consensual, produzindo e mantendo a ordem dominante em sua legitimidade
A ação prática de movimentos sociais, ONGs e empresas podem ser similares até certo ponto. Não se esqueça também de que, em certo grau, a responsabilidade social faz parte das atividades do Terceiro Setor, e que ambos não deixam de ser um movimento social institucionalizado. Entretanto, a ação dos movimentos sociais ditos ativistas pode vir a ser uma ação potencialmente incisiva para o estabelecimento de uma nova ordem sociopolítica e econômica. Assim, criticamente, é sugestionável dizer que governos incentivam empresas e ONGs para o atendimento de comunidades que carecem de maiores cuidados sociais na expectativa de manter comunidades à parte de movimentos sociais ativistas, cuja ação pode desestabilizar a ordem vigente.

DECLARAÇÃO UNIVERSAL DOS DIREITOS HUMANOS
Com o fim da Segunda Guerra e suas atrocidades, o mundo se viu na necessidade de ir contra a barbárie humana, em busca da preservação da paz mundial.
Nesse sentido, paulatinamente, formou-se a Organização das Nações Unidas, que, em 1948, adotou e proclamou a Declaração Universal dos Direitos Humanos. Esses direitos partiram dos seguintes pressupostos: Considerando que o reconhecimento da dignidade inerente a todos os membros da família humana e dos seus direitos iguais e inalienáveis constitui o fundamento da liberdade, da justiça e da paz no mundo; Considerando que o desconhecimento e o desprezo dos direitos do Homem conduziram a atos de barbárie que revoltam a consciência da Humanidade e que o advento de um mundo em que os seres humanos sejam livres de falar e de crer, libertos do terror e da miséria, foi proclamado como a mais alta inspiração do Homem;
Considerando que é essencial a proteção dos direitos do Homem através de um regime de direito, para que o Homem não seja compelido, em supremo recurso, à revolta contra a tirania e a opressão; Considerando que é essencial encorajar o desenvolvimento de relações amistosas entre as nações; Considerando que, na Carta, os povos das Nações Unidas proclamam, de novo, a sua fé nos direitos fundamentais do Homem, na dignidade e no valor da pessoa humana, na igualdade de direitos dos homens e das mulheres e se declaram resolvidos a favorecer o progresso social e a instaurar melhores condições de vida dentro de uma liberdade mais ampla;
Considerando que os Estados membros se comprometeram a promover, em cooperação com a Organização das Nações Unidas, o respeito universal e efetivo dos direitos do Homem e das liberdades fundamentais;
Considerando que uma concepção comum destes direitos e liberdades é da mais alta importância para dar plena satisfação a tal compromisso:
A Assembléia Geral proclama a presente Declaração Universal dos Direitos Humanos como ideal comum a atingir por todos os povos e todas as nações, a fim de que todos os indivíduos e todos os órgãos da sociedade, tendo-a constantemente no espírito, se esforcem, pelo ensino e pela educação, por desenvolver o respeito desses direitos e liberdades e por promover, por medidas progressivas de ordem nacional e internacional, o seu reconhecimento e a sua aplicação universais e efetivos tanto entre as populações dos próprios Estados membros como entre as dos territórios colocados sob a sua jurisdição.
Artigo 1°
Todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e em direitos. Dotados de razão e de consciência, devem agir uns para com os outros em espírito de fraternidade.
Artigo 2°
Todos os seres humanos podem invocar os direitos e as liberdades proclamados na presente Declaração, sem distinção alguma, nomeadamente de raça, de cor, de sexo, de língua, de religião, de opinião política ou outra, de origem nacional ou social, de fortuna, de nascimento ou de qualquer outra situação. Além disso, não será feita nenhuma distinção fundada no estatuto político, jurídico ou internacional do país ou do território da naturalidade da pessoa, seja esse país ou território independente, sob tutela, autônomo ou sujeito a alguma limitação de soberania.
Artigo 3°
Todo indivíduo tem direito à vida, à liberdade e à segurança pessoal.
Artigo 4°
Ninguém será mantido em escravatura ou em servidão; a escravatura e o trato dos escravos, sob todas as formas, são proibidos.
Artigo 5°
Ninguém será submetido à tortura nem a penas ou tratamentos cruéis, desumanos ou degradantes.
Artigo 6°
Todos os indivíduos têm direito ao reconhecimento, em todos os lugares, da sua personalidade jurídica.
Artigo 7°
Todos são iguais perante a lei e, sem distinção, têm direito a igual proteção da lei. Todos têm direito à proteção igual contra qualquer discriminação que viole a presente Declaração e contra qualquer incitamento a tal discriminação.
Artigo 8°
Toda pessoa tem direito a recurso efetivo para as jurisdições nacionais competentes contra os atos que violem os direitos fundamentais reconhecidos pela Constituição ou pela lei.
Artigo 9°
Ninguém pode ser arbitrariamente preso, detido ou exilado.
Artigo 10°
Toda pessoa tem direito, em plena igualdade, a que a sua causa seja eqüitativa e publicamente julgada por um tribunal independente e imparcial que decida dos seus direitos e obrigações ou das razões de qualquer acusação em matéria penal que contra ela seja deduzida.
Artigo 11
1. Toda pessoa acusada de um ato delituoso presume-se inocente até que a sua culpabilidade fi que legalmente provada no decurso de um processo público em que todas as garantias necessárias de defesa lhe sejam asseguradas.
2. Ninguém será condenado por ações ou omissões que, no momento da sua prática, não constituíam ato delituoso à face do direito interno ou internacional. De mesmo modo, não será infligida pena mais grave do que a que era aplicável no momento em que o ato delituoso foi cometido.
Artigo 12
Ninguém sofrerá intromissões arbitrárias na sua vida privada, na sua família, no seu domicílio ou na sua correspondência, nem ataques à sua honra e reputação. Contra tais intromissões ou ataques toda pessoa tem direito à proteção da lei.
Artigo 13
1. Toda pessoa tem o direito de livremente circular e escolher a sua residência no interior de um Estado.
2. Toda pessoa tem o direito de abandonar o país em que se encontra, incluindo o seu, e o direito de regressar ao seu país.
Artigo 14
1. Toda pessoa sujeita a perseguição tem o direito de procurar e de se beneficiar de asilo em outros países.
2. Este direito não pode, porém, ser invocado no caso de processo realmente existente por crime de direito comum ou por atividades contrárias aos fins e aos princípios das Nações Unidas.
Artigo 15
1. Todo indivíduo tem direito a ter uma nacionalidade.
2. Ninguém pode ser arbitrariamente privado da sua nacionalidade nem do direito de mudar de nacionalidade.
Artigo 16
1. A partir da idade núbil, o homem e a mulher têm o direito de casar e de constituir família, sem restrição alguma de raça, nacionalidade ou religião. Durante o casamento e na altura da sua dissolução, ambos têm direitos iguais.
2. O casamento não pode ser celebrado sem o livre e pleno consentimento dos futuros esposos.
3. A família é o elemento natural e fundamental da sociedade e tem direito à proteção desta e do Estado.
Artigo 17
1. Toda pessoa, individual ou coletiva, tem direito à propriedade.
2. Ninguém pode ser arbitrariamente privado da sua propriedade.
Artigo 18
Toda pessoa tem direito à liberdade de pensamento, de consciência e de religião; este direito implica liberdade de mudar de religião ou de convicção, assim como a liberdade de manifestar a religião ou convicção, sozinho ou em comum, tanto em público como em privado, pelo ensino, pela prática, pelo culto e pelos ritos.
Artigo 19
Todo o indivíduo tem direito à liberdade de opinião e de expressão, o que implica o direito de não ser inquietado pelas suas opiniões e o de procurar, receber e difundir, sem consideração de fronteiras, informações e idéias por qualquer meio de expressão.
Artigo 20
1. Toda pessoa tem direito à liberdade de reunião e de associação pacíficas.
2. Ninguém pode ser obrigado a fazer parte de uma associação.
Artigo 21
1. Toda pessoa tem o direito de tomar parte na direção dos negócios públicos do seu país, quer diretamente, quer por intermédio de representantes livremente escolhidos.
2. Toda pessoa tem direito de acesso, em condições de igualdade, às funções públicas do seu país.
3. A vontade do povo é o fundamento da autoridade dos poderes públicos: e deve exprimir-se através de eleições honestas a realizar periodicamente por sufrágio universal e igual, com voto secreto ou segundo processo equivalente que salvaguarde a liberdade de voto.
Artigo 22
Toda pessoa, como membro da sociedade, tem direito à segurança social e pode legitimamente exigir a satisfação dos direitos econômicos, sociais e culturais indispensáveis, graças ao esforço nacional e à cooperação internacional, de harmonia com a organização e os recursos de cada país.
Artigo 23
1. Toda pessoa tem direito ao trabalho, à livre escolha do trabalho, a condições eqüitativas e satisfatórias de trabalho e à proteção contra o desemprego.
2. Todos têm direito, sem discriminação alguma, a salário igual por trabalho igual.
3. Quem trabalha tem direito a uma remuneração eqüitativa e satisfatória, que lhe permita e à sua família uma existência conforme a dignidade humana, e completada, se possível, por todos os outros meios de proteção social.
4. Toda a pessoa tem o direito de fundar com outras pessoas sindicatos e de se filiar em sindicatos para defesa dos seus interesses.
Artigo 24
Toda pessoa tem direito ao repouso e aos lazeres, especialmente, a uma limitação razoável da duração do trabalho e as férias periódicas pagas.
Artigo 25
1. Toda pessoa tem direito a um nível de vida suficiente para lhe assegurar e à sua família a saúde e o bem-estar, principalmente quanto à alimentação, ao vestuário, ao alojamento, à assistência médica e ainda quanto aos serviços sociais necessários, e tem direito à segurança no desemprego, na doença, na invalidez, na viuvez, na velhice ou noutros casos de perda de meios de subsistência por circunstâncias independentes da sua vontade.
2. A maternidade e a infância têm direito a ajuda e a assistência especiais. Todas as crianças, nascidas dentro ou fora do matrimônio, gozam da mesma proteção social.
Artigo 26
1. Toda pessoa tem direito à educação. A educação deve ser gratuita, pelo menos a correspondente ao ensino elementar fundamental. O ensino elementar é obrigatório. O ensino técnico e profissional dever ser generalizado; o acesso aos estudos superiores deve estar aberto a todos em plena igualdade, em função do seu mérito.
2. A educação deve visar à plena expansão da personalidade humana e ao reforço dos direitos do Homem e das liberdades fundamentais e deve favorecer a compreensão, a tolerância e a amizade entre todas as nações e todos os grupos raciais ou religiosos, bem como o desenvolvimento das atividades das Nações Unidas para a manutenção da paz.
3. Aos pais pertence a prioridade do direito de escolher o gênero de educação a dar aos filhos.
Artigo 27
1. Toda pessoa tem o direito de tomar parte livremente na vida cultural da comunidade, de fruir as artes e de participar no progresso científico e nos benefícios que deste resultam.
2. Todos têm direito à proteção dos interesses morais e materiais ligados a qualquer produção científica, literária ou artística da sua autoria.
Artigo 28
Toda pessoa tem direito a que reine, no plano social e no plano internacional, uma ordem capaz de tornar plenamente efetivos os direitos e as liberdades enunciadas na presente Declaração.
Artigo 29
1. O indivíduo tem deveres para com a comunidade, fora da qual não é possível o livre e pleno desenvolvimento da sua personalidade.
2. No exercício deste direito e no gozo destas liberdades ninguém está sujeito senão às limitações estabelecidas pela lei com vista exclusivamente a promover o reconhecimento e o respeito dos direitos e liberdades dos outros e a fim de satisfazer as justas exigências da moral, da ordem pública e do bem-estar numa sociedade democrática.
3. Em caso algum estes direitos e liberdades poderão ser exercidos contrariamente aos fins e aos princípios das Nações Unidas.
Artigo 30
Nenhuma disposição da presente Declaração pode ser interpretada de maneira a envolver para qualquer Estado, agrupamento ou indivíduo, o direito de se entregar a alguma atividade ou de praticar algum ato destinado a destruir os direitos e liberdades aqui enunciados. (www.un.org/humanrights)
No que diz respeito aos movimentos sociais, destaca-se que muitas das suas ações (de ativistas e não-ativistas) objetivam alcançar conquistas sociais que foram declaradas serem próprias dos direitos humanos já há muito tempo. Mesmo desconhecendo cada item da declaração feita pela ONU, proferida em 1948, o sentido de justiça e eqüidade parece nortear as ações de grupos em toda parte do mundo.
Através da mídia, os movimentos sociais tornaram-se expressivos no cenário mundial e
obtiveram, como foi o caso do MST e do apartheid, respostas solidárias de nações desenvolvidas; nações mantenedoras da economia global, cuja política, pela força de incentivos capitais, forçou o reconhecimento de muitas dessas manifestações como ações legítimas para a atualização da prática de direitos de classes menos favorecidas.
Ao observar melhor as interseções existentes entre os Movimentos Sociais, o Terceiro Setor e a Responsabilidade Social, podemos estabelecer convergências entre o que há de comum nas ações sociais frente à Declaração Universal dos Direitos Humanos. É inconteste as ações sociais ( os Movimentos Sociais, o Terceiro Setor e a Responsabilidade Social) terem, como ponto em comum, a filosofia dos direitos humanos. Hoje, tal filosofia ergue seu fundamento na razão de se agir para atender a premências do atual milênio evocadas pela ONU, por cujo escopo econômico direciona-se o mundo para a formalização de novos paradigmas, através de programas voltados para a auto-sustentabilidade, entre outros. Nesse sentido, os movimentos sociais se coadunam com a Educação, pois a miséria e a má divisão de renda, facilmente observáveis na vida mundana, exigem mudanças sociais que possibilitem um mundo mais economicamente igualitário. No mais, como é sabido, a Educação oferecida nas escolas é determinada pela ideologia dominante, que assegura interesses específicos, atualmente direcionados pelas nações que controlam a riqueza mundial, principais membros mantenedores de poder de decisão da ONU.
Resumo aula 10  Movimentos Sociais e Educação | Os movimentos sociais do ponto de vista sociológico
A institucionalização de movimentos passivos ou ativos só se torna possível diante de interesses globais que hoje atualizam o mundo em sua inevitabilidade.
CONCEITOS, CATEGORIAS, TIPOLOGIA, ESTÁGIOS DE FORMAÇÃO, CONDIÇÕES ESTRUTURAIS E FATORES SOCIAIS FAVORÁVEIS À FORMAÇÃO DOS MOVIMENTOS SOCIAIS
Os movimentos sociais podem ser conceituados e categorizados de diversas formas. Há, entretanto, duas ordens bem definidas de movimentos sociais: uma passiva e uma ativa. Nestas duas ordens encontramos outros aspectos de tipificação de ordem sociológica, dependendo da natureza específica de cada movimento. São esses tipos:
a) migratórios;
b) progressistas;
c) conservacionistas ou de resistência;
d) regressivos ou reacionários;
e) reformistas;
f) expressivos;
g) utópicos; e/ou revolucionários.

Todos os movimentos sociais passam pelos mesmos estágios de agitação, excitação, formalização e institucionalização.
CONDUTAS COLETIVAS
Os movimentos sociais decorrem de uma dinâmica complexa entre os diferentes segmentos da sociedade. A visão de mundo das pessoas e as necessidades políticas de atualizar a produção do que se consome culturalmente – do que não fica à parte da visão de mundo de comunidades – são cruciais para o entendimento do descontentamento social generalizado. Nisso, os aspectos históricos associados às circunstâncias momentâneas promovem uma alteração de valores que se atualizam entre os diferentes atores, em sua representação social, na tentativa de modificar as diversas estruturas socioeconômicas. Para tanto, o cotidiano de relações em que se pode verificar uma insatisfação coletiva pode nos revelar a incoerência entre o que o discurso político socialmente propõe e o que injustamente os sistemas apresentam na prática. Eis, nesse sentido, a forma pela qual as pessoas haverão de se conduzir pelo espaço social.
A partir dessa idéia, destacam-se as condutas coletivas, cuja definição exige uma compreensão das condições históricas, do espaço e do tempo a que atores sociais se encontram sujeitos, para podermos fundamentar as relações possíveis de nos orientar para uma interpretação do conjunto social que se demonstrou incapaz de evitar o quadro social em que um tipo de movimento se desenvolveu.
As condutas coletivas são vistas em dois níveis: organizacional e social. O nível organizacional diz respeito a empresas e organizações mantenedoras do sistema societário. Por sua vez, o nível social se refere às estruturas institucionais, cujo estabelecimento, por meio de regras, leis e incentivos, possibilita a existência das organizações (privadas ou públicas).
Para analisar as condutas coletivas, observam-se três condições para o seu desencadeamento: a anomia, o desejo de restauração social e o de modernização.
O PAPEL DA EDUCAÇÃO
O espaço educacional é um espaço relacional. Logo, as práticas educacionais transpassam o preparo estritamente profissionalizante e atingem a formação humana, no seu sentido psicológico e em seu sentido ético.
Dentro dessa perspectiva, aprendemos que o ensino hoje suscita uma nova forma de ver, perceber e significar a vida, conforme a seguinte visão de mundo:
a) tolerância diante da diversidade étnica e cultural;
b) pressupostos de igualdade sociocultural de forma irrestrita;
c) a auto-sustentabilidade e a ecologia. Todos esses itens são como partes de um todo filosófico para a vida em comum no planeta.
Uma vez entendida tal dinâmica, em que a escola é o ambiente da ação para a construção da visão de mundo, entende-se não menos que a realidade pode ser atualizada pela construção da ação do nosso movimento no mundo. Eis o que alguns vêm fazendo: agindo para transformar o mundo através de ações sociais e, no caso específico de determinados grupos, através de movimentos sociais. Nesse sentido, esses últimos vêm fazendo “escola” – isto é, nos ensinando a como agir para transformar realidades que não dão mais conta do que socialmente se vê por aí, em nossa injusta realidade mundana.

O TERCEIRO SETOR E A RESPONSABILIDADE SOCIAL
As atividades do Terceiro Setor e da responsabilidade social podem ser compreendidas como um tipo de movimento social institucionalizado e de natureza passiva, apesar de que suas ações possam vir a ser ativas em determinadas situações de denúncias de abuso de práticas associadas exclusivamente a vantagens de poder econômico. A área de atuação do Terceiro Setor e da responsabilidade social situa três dimensões específicas para o alcance de melhorias para a vida. Essas dimensões são a econômica,
a ecológica e a social; estas obviamente interligadas pelas atividades sociocultural e econômica.
A dimensão econômica se destaca pelas condições materiais do que, como e por que se produz o que vem sendo produzido pela mão humana. Na esfera ecológica, salienta-se a contínua destruição do planeta para se produzir o que vem sendo produzido e, por último, o escopo social se releva diante da desigualdade em todos os âmbitos – sociopolítico, econômico e cultural.
O PAPEL DA ONU
As interseções existentes entre os movimentos sociais, o Terceiro Setor e a responsabilidade social decorrem de fundamentos comuns encontrados na Declaração Universal dos Direitos Humanos. Nota-se que essas três ações sociais, ou seja, os movimentos sociais, o Terceiro Setor e a responsabilidade social, em sua interseção central, revelam-nos a filosofia dos Direitos Humanos como fundamento para a ação social. São as urgências socioeconômicas para o terceiro milênio que orientam as necessidades difundidas pela Organização das Nações Unidas. A formalização de novos paradigmas, através de programas voltados para auto-sustentabilidade econômica, legitima tanto a ação de movimentos sociais como as ações do Terceiro Setor e da responsabilidade social. Por conta disso, salienta-se o desenrolar da Educação em todo
o planeta. E, nesse sentido, a ONU, através do seu setor voltado para o desenvolvimento da formação humana, a Unesco, vem multiplicando programas cujas idéias compõem uma visão de mundo baseada na tolerância e na difusão da importância da manifestação pluricultural; Visão em que a economia do planeta deve ser produzida de modo autosustentável, globalizado e mundializado cultural e ecologicamente.
Os movimentos sociais decorrem de insatisfações coletivas. Nessa direção, a escola reúne, em seu espaço físico, oportunidades para a manifestação de diferentes representatividades sociais expressarem e desenvolverem idéias que assegurem construções de mundo numa dinâmica multiplicadora da realidade tangível. Na escola, aprendemos o que falar, como agir e socialmente atuar. Por outro lado, os movimentos sociais sustentam necessariamente a defesa de melhorias sociais, erguida no desejo de transformações. Os movimentos sociais convergem para a Educação pelo fato de que esta, mesmo tendo que “re-produzir” o que é reconhecido institucionalmente, pode ser considerada como um ambiente aos empreendimentos coletivos, no estabelecimento de uma nova ordem de vida.
Os movimentos sociais podem ser categorizados de diversas formas como ordem, tipologia e estágio (ou fase) de sua constituição. As condutas humanas também são associadas aos movimentos sociais, uma vez que atores podem ser impulsionados à ação social por questões pessoais e sociais. Nesse sentido, há tanto um conjunto de condições estruturais favoráveis como determinadas condições sociais para a decorrência dos movimentos sociais, através do que o papel da Educação é fundamental, pois a escola é espaço formador e multiplicador de visão de mundo. A relação da Educação com os movimentos sociais é estreita, já que se entende o fato de que a própria escola, em sua dinâmica, é capaz de realizar movimentos que se assemelham à expressão dos movimentos sociais pela manifestação de comunidades, cuja ação pode fomentar transformações sociais que exigidas diante de um mundo exigente de atualizações prementes à mundialização. Nesse sentido, há um movimento internacional para um mundo socialmente mais igualitário, ainda que isto seja para atender a necessidades de um consumo globalizado.
Resumo aula 11  Movimentos Sociais e Educação | A ligação em rede de diferentes dimensões na formação dos Movimentos Sociais e da Educação

O RIZOMA COMO NOÇÃO DE REDE: UM PARADIGMA TEÓRICO, CONFORME DELEUZE E GUATTARI
O conceito de Rede funda um avanço teórico cujo paradigma não se pode ignorar nos dias que correm. Este conceito explica a realidade que se concretiza múltipla em direções diversas, atingindo e alterando nossas vidas. Selecionando Deleuze e Guattari (1980) e seu conceito de Rizoma para melhor elucidar o conceito de Rede.
Os bulbos, os tubérculos são rizomas (...) até os animais o são em sua forma de matilha; ratos são rizomas. As tocas o são, com todas as funções de habitat, de provisão, de deslocamento, de evasão e de ruptura. O rizoma nele mesmo tem muitas formas diversas, desde sua extensão superficial ramificada em todos os sentidos até suas concreções em bulbos e tubérculos. Há rizoma quando os ratos deslizam uns sobre os outros. Há o melhor e o pior no rizoma: a batata e a grama, a erva daninha (p. 15).
Deleuze e Guattari estabelecem alguns princípios, pelo que universalizam o conceito:
“1º e 2º – Princípios de conexão e heterogeneidade: qualquer ponto de um rizoma pode ser conectado a qualquer outro e deve sê-lo”
Nestes princípios, retrata-se a idéia de que qualquer fenômeno pode se ligar a outro, mesmo sendo de naturezas distintas, e que isto é desejável. Diferentemente da idéia de oposição ou de complemento, estes princípios projetam possibilidades AMORFAS, que se unem, fundem e separam, sem ser necessariamente nesta ordem, criando rupturas ou não. Enfim, em termos de trajeto fenomênico, tudo é permitido num escopo sem fronteiras e aberto ao devir POLIMÓRFICO, à medida que se constitui no espaço-tempo das interseções da vida.
“3º – Princípio de multiplicidade” (p. 16).
Constitui a idéia do múltiplo como substituto necessário a “dimensões que não podem crescer sem que mudem de natureza” (p. 16). Este princípio se contrapõe à idéia do HOLÍSTICO, do Uno hierárquico, para fundar a idéia do Uno-múltiplo, sem hierarquias. Em vez de todas as coisas pertencerem a uma única raiz essencial, o todo se dá pela multiplicidade de essencialidades constituintes de um permanente devir do mundo, essencialidades que se transformam a cada instante (tempo) lugar, em cujo espaço fenômenos se formalizam. Nesse sentido, não há lugar para determinismo ou oráculos, a idéia de predestinação cai por terra. A própria constituição da vida tem vida. Portanto, inúmeras potências singulares fundam o complexo da rede deste fenômeno chamado mundo. Neste complexo, o movimento humano tem seu valor na potência da ação.
“4º Princípio de ruptura a-significante” (p. 18).
Caracteriza um rizoma com a possibilidade de ser rompido ou retomado em qualquer
ponto de sua natureza topográfica. “Todo rizoma compreende linhas de segmentaridade [vetores – que, na Matemática e na Física, indicam a intensidade, a direção e o sentido de uma força] segundo as quais ele é estratificado, territorializado, organizado, significado, atribuído etc.; mas compreende também linhas de desterritorialização pelas quais ele foge sem parar. Há ruptura no rizoma cada vez que as linhas segmentares explodem numa linha de fuga, mas a linha de fuga faz parte do rizoma. Estas linhas não param de se remeter umas às outras. É por isso que não se pode contar com um dualismo ou dicotomia, nem mesmo sob a forma rudimentar de bem e mal” (p. 18).
“5º e 6º – Princípios de cartografia e de decalcomania” (p. 21).
Parece que estes dois se fundem pela decorrência topológica. Entretanto, apresentam distintas nuanças. Enquanto o mapa é “aberto, é conectável em todas as suas dimensões, desmontável, reversível, suscetível de receber modificações constantemente” (p. 21), um decalque é um eixo imutável para o qual sempre se volta “ao mesmo tempo” (p. 21). É entendido, pois, como “competência” (p. 21). Assim o decalque traduz o mapa em imagens, e reproduz apenas, segundo Deleuze, “os impasses, os bloqueios, os germens de pivô ou pontos de estruturação”. Por exemplo, “semióticas gestuais, mímicas, lúdicas etc. retomam sua liberdade na criança e se liberam do ‘decalque’, quer dizer, da competência dominante da língua do mestre” (p. 21), isto é, dos “pontos de estruturação” que, neste caso, caracterizam uma determinada cultura no seu sentido amplo, antropológico.
REDE DE RELAÇÕES ENTRE OS MOVIMENTOS SOCIAIS E A EDUCAÇÃO ATRAVÉS DA AÇÃO DO PENSAMENTO PARA A AQUISIÇÃO DO SABER
A atuação humana, motivada (moção) pela tentativa de tornar real um ideal (volição), leva o conhecimento a desenvolver leituras possíveis – por intermédio de seus métodos tradicionais de classificação (ordem, tipologia etc.) –, auxiliando a Razão a ordenar a ação social em categorias para o saber. Assim, ao analisar a constituição dos Movimentos Sociais e da Educação, considerando microestruturas biológicas em interseção com macroestruturas físico-sociais, facilmente inferimos o mundo em rede já ser um tipo de olhar ideológico em que, necessariamente, todos os campos que o conhecimento humano é capaz de erguer se fundem na importância da manutenção do mundo. A Economia, a Psicologia, a Sociologia, a Antropologia, a Biologia, a História, a Ecologia, enfim, diferentes campos do saber, num olhar amplo, inter/trans e multidisciplinar devem ser considerados sem uma hierarquia de importância, pois todos são fatores fundamentais para o bem-estar das pessoas na organização do que denominamos mundo. Sobreviver é a pedra angular de nossos interesses mundanos. O conhecimento existe desde sempre; inclusive o argumento de Descartes para a defesa da Ciência diante do clero é essencialmente este: nos tornarmos como que senhores e possessores da Natureza” (Discurso do Método, sexta parte, p. 69).
O “Discurso do Método”, de Descartes, se tornou famoso pelo fato de que, em seu tempo, Século XVII, a Europa passava por transformações profundas graças ao espírito da Razão, que crescia entre os homens. A Revolução Copernicana, feita por Galileu, foi decisiva para o trabalho de Descartes. Em 1633, Galileu foi forçado pela Inquisição a abjurar suas teorias. Quatro anos depois, Descartes defende a Ciência e, conseqüentemente, o pensamento de Galileu, através do Discurso do Método. Nele, Descartes exalta a grande vantagem que a Razão poderá proporcionar aos indivíduos – conceito que, dentro da hierarquia lógica, está acima da espécie, que, por sua vez, está acima do gênero – ao se descobrirem as forças potenciais do planeta. Para tal defesa diante do Clero, Descartes diz Deus ser um grande matemático e, como tal, ter construído o mundo dentro de regras que o Homem poderá descobrir, já que Ele o fez à sua imagem e semelhança, dotando-o de mente e Razão para seguir os seus desígnios. Assim, o corpo deveria ser regrado como os ditames da Igreja, mas a mente deveria ser livre para ir longe pelas descobertas feitas pelo pensamento. Como se vê, o Homem, ou melhor, a Ciência só caminha mediante interesses que são acordados entre aqueles que detêm o poder. E isto não acontece por acaso, mas através de uma rede de relações de circunstâncias favoráveis ao seu acontecimento.
A partir do Discurso do Método, a sociedade européia se sentiu cada vez mais confortável em extrair leis da Física, como a da Gravidade, a da Velocidade, a do Tempo etc., e disso se construíram máquinas a serviço do homem, decorrendo a Industrialização, com seu auge no início do século XIX, com a grande Exposição de Paris, onde galerias em vidro e aço anunciavam o esplendor da Modernidade e da Burguesia. É a Razão que orienta os passos da Humanidade. E orientar passos significa defender idéias que reúnam o máximo de vantagens à sobrevivência da espécie, na garantia de estabelecer o bem-estar entre diferentes individualidades. No caso dos Movimentos Sociais, grupos vêm aprendendo a lidar com a burocracia legítima, às vezes de forma anárquica, para instaurar uma nova ordem de acordo com os interesses das classes desfavorecidas.
A Educação se situa nessa esfera do conhecimento, isto é, no âmbito da apreensão de dados voltados para a compreensão de diferentes objetos que se pretende entender para a reta formação das possibilidades humanas voltadas para a melhor sobrevivência possível. Tendo em vista que todo e qualquer fenômeno é objeto a conhecer, e que, uma vez imersa no processo da racionalidade, uma pessoa se educa não apenas cognitivamente, mas moral e ideologicamente, nota-se que a dinâmica da rede à qual está intrinsecamente associada em sua condição geocircunstancial é uma malha de condições para saltos e avanços, bem como para limites e sujeições. E isto, tanto do ponto de vista pessoal como do coletivo, pois, no corpo biológico, há uma memória pessoal, enquanto, no corpo sociológico, há a memória social. Essas memórias estão ligadas à interseção de imagens constituídas pelos registros que marcam as superfícies do corpo biológico e social que as abrigam. Imagens que acabam por indicar tendências aos seus sujeitos, que percebem, sentem e vêem o mundo de que participam. Daí o papel da escola, onde o letramento, mediante um conjunto de interpretações, favorece idéias que interessam perspectivas e ideologias, destacando ângulos específicos para se ver o mundo em sua inevitabilidade. A vivência de uma pessoa, entretanto, depende do que ela experimenta face à vida, e isto a leva ao seu diferencial como indivíduo, que – no âmbito de sua educação, na interseção das diferentes dimensões a que está sujeito (de novo, dimensão biológica, sociológica e psicológica, entre outras, como a histórica) – poderá criar e produzir sua leitura de mundo, em vez de reproduzir o que o mundo lhe oferece como idéia “acabada”, como um “produto pronto a ser consumido”. A originalidade das pessoas depende da sua ação de ousar para além do que é ordinariamente comum, estabelecendo novas possibilidades de expressão para a vida.
Pode-se assim dizer que, mediante o conjunto de fatores no qual se encontra (fatores históricos, biológicos, socioculturais etc.), uma pessoa se educa no simples fato de pensar sobre os objetos condicionantes à vida. Uma pessoa se educa, pois, ao se ver frente a frente com a sua própria condição humana, na reflexão do seu modo de viver e de se pensar, ao projetar sua ótica do que vem sendo, tendo e fazendo na ação limitada no mundo em que se encontra “enredada”. Portanto, pensar e/ou se engajar em um movimento social já forma condições para educar-se.

Resumo aula 12 Movimentos Sociais e Educação | A interseção das dimensões biológicas, sociológicas e psicológicas para a genealogia dos Movimentos Sociais e da Educação
No espaço do mundo, encontram-se o nosso corpo e sua expressão, cujo movimento revela o que temos subjetivamente, tal qual um conjunto de signos a ser interpretado pelos demais. Por exemplo, se alguém nos diz algo que nos irrita, podemos não dizer nada, mas o outro poderá ser capaz de “ler” nossa irritação, seja porque nossa expressão facial mudou, seja porque saímos “batendo as portas”. A fisionomia e as atitudes são signos interpretáveis do comportamento. Todo nosso movimento, integrado ao espaço do mundo e na interação com o outro, encontra-se passível de leitura, e esta, de uma interpretação.
Há, portanto, uma rede de condições existentes num determinado espaço-tempo nas tramas da vida de uma pessoa em sua relação com as demais. Essas condições, necessariamente, nos levam à aprendizagem, capacitando-nos a sobreviver dentro de perspectivas possíveis, integradas ao processo dinâmico de uma rede de relações. Deste modo, há:
• condições físicas, de espaço-tempo e corpo biologicamente constituído;
• condições culturais, em que valores são mediados pelas relações estabelecidas em diferentes instituições sociais (família, escola, amigos etc.);
• condições sígnicas, por meio das quais diferentes informações erguem sistemas de códigos interpretáveis à luz de perspectivas de leituras possíveis.
Nesse sentido, desenrola-se permanentemente uma Educação para o conhecimento, capaz de garantir a melhor sobrevivência possível.
A Educação – sistema social por meio do qual os processos de aprendizagem são cultuados pela dinâmica intermitente da produção do pensamento, num continuum sucessivo de relações estabelecidas entre diferentes organismos (pessoais e sociais) – compõe um conjunto de imagens dadas, pelas quais lemos o mundo (visão de mundo), e nos instrumentaliza para as interpretações possíveis de códigos (as imagens dadas) impressos na memória, que é a maior ferramenta para a Razão.
A racionalidade é, dessa maneira, um tipo de referência por meio da qual lidamos com os organismos sociais e com os nossos pares. Aquele que “está certo” “está com a razão”. Ter razão significa reunir um conjunto de saberes e conhecimentos a serem apreendidos por aqueles que ainda não “souberam” reuni-los. Educar é oferecer o saber aos indivíduos. Não um saber qualquer, mas um saber cujo conhecimento leva informações cruciais para a manutenção da vida no mundo. Mas o educador mais experiente não refuta a idéia de que a Educação se situa além do que se apreende em termos de informação.
Uma visão ampla da Educação exige, desde os tempos mais remotos, a formação do “espírito humano”. Os gregos chamavam esta formação, em seu sistema educacional, de Paidéia. Para eles, a formação do homem deveria reunir atividades diversas que alimentavam o corpo e o espírito, levando seus cidadãos à Areté, que, num sentido amplo, quer dizer retidão moral da ação humana em prol da sua comunidade.
Hoje, a Educação se preocupa com a composição de diferentes
correntes teóricas para a explicação possível de condições mentais e sociais. Na perspectiva de compreender o desenvolvimento cognitivo e comportamental de um organismo sujeito a determinados ambientes, teoricamente, o indivíduo, em sua particularidade bio-psico-sociológica, é visto como um conjunto de circunstâncias integradas ao meio.
Obtemos, nesse sentido, a idéia de que um corpo (biológico) está condicionado a um meio (sociológico) que lhe possibilita existir e nele sobreviver, mantendo-o numa dinâmica de relações imprescindíveis à vida. Essas dinâmicas reúnem um conjunto de códigos (culturais) passíveis de interpretações dependentes de registros da memória de um indivíduo e da memória social.
Considerando esses aspectos, em termos de dimensão psicossocial, podemos observar que os movimentos sociais decorrem da capacidade do Homem de agir a partir da integração de indivíduos. Uma ação por cuja dinâmica contínuos resultados expressam o esforço de organismos individuais se unirem para alcançar melhorias sociais de acordo com a visão de mundo que as pessoas são capazes de produzir e re-produzir.
Estas duas capacidades, de produção e re-produção, derivam da razão, cultuada e condicionada pela Educação. Seja na escola, seja na família, leituras de mundo são dimensionadas. Multiplicam-se leituras no corpo social, em diferentes instituições, por meio do conjunto de códigos e registros cuja representação é, de uma forma ou de outra, necessariamente interpretada para a sobrevivência.
A Educação, na formalização dos aspectos afetivos, cognitivos e morais, é possível, pois, graças à interseção de três dimensões específicas: a biológica, a psicológica e a sociológica. No entrelace destas três dimensões, desenvolve-se o homem em sua condição bio-psico-social.
Saber como o corpo organicamente se constitui e se educa para o mundo, na transposição do corpo biológico para o sociológico, formalizando sua dimensão psicológica, se faz interessante para entendermos a ação humana e os seus resultados em termos de Movimentos Sociais.

Resumo aula 13  Movimentos Sociais e Educação | A gênese da dimensão biopsicossociológica e sua pertinência para a formação dos Movimentos Sociais
O corpo humano sempre procura o prazer. Sem prazer, não temos gosto para a vida. Procuramos realizar coisas que pensamos que nos dão ou nos darão prazer. Agir no mundo depende, assim, das idéias que temos sobre o que nos trará satisfação à existência. É, portanto, uma projeção mental (de satisfação) indissociável do sentido do prazer.
“Ser o que é” está, dessa forma, associado à autopercepção gratificante que uma pessoa é capaz de, psicologicamente, projetar para si mesma. Nesta idéia, há aspectos estéticos, comportamentais, econômicos, e assim por diante.

A configuração (moldagem) da rede de neurônios resultante de uma aprendizagem constitui, de fato, uma estrutura adquirida.
Ela é a base das emoções que acompanham o reajuste vasomotor e a movimentação do volume sanguíneo segundo as variações de atividade dos órgãos envolvidos na realização da ação. O sistema cardiovascular, sob o controle do sistema neuro-vegetativo, permitirá esta adaptação (p. 20).
A motivação fundamental básica do homo sapiens é, portanto, manter viva sua estrutura orgânica. Mas a realidade, facilmente perceptível a todos, é a de que somos muito diferentes de tudo o que há na Natureza. Não nos harmonizamos com o fluxo que lhe é inerente. Vejam os animais e as florestas, que parece que funcionam de forma organicamente equilibrada. Ao contrário, transformamos os elementos naturais para erguer o mundo que nos obriga a fomentá-lo indefinidamente. A permanência no mundo nos custa nossa própria energia orgânica, trocada por dinheiro, para garantir a sobrevivência, de modo que o que sustenta a vitalidade humana é a própria manutenção da estrutura mundana e toda a rede complexa de suas instituições.
O mundo é uma construção humana, e a vida, condição para que ele exista. Pelas transformações dos elementos naturais que no planeta encontramos, erguemos o mundo (ARENDT, 2001).
Construímos coisas úteis e/ou inúteis; coisas somente admiráveis aos olhos humanos, como uma escultura ou uma pintura. O fato é que, pelas transformações de coisas naturais em mundanas, o homem organiza e mantém um dinamismo para sua sobrevivência chamado mundo, cujo fomento exige um sistema de relações que atendem a programas para a permanência das suas instituições. A sobrevivência de grupos consiste nas relações de convivência por meio das instituições. E a natureza do desenrolar das instituições decorre da nossa capacidade de manter e re-criar o mundo que nos é dado. Lidar com isso é ter cuidado com o que está ao redor.
A DIMENSÃO PSICOSSOCIOLÓGICA
Às idéias e aos procedimentos de “se viver”, está intrínseco um modo de se pensar sobre as coisas do mundo, uma representação ancorada na cultura.
 Há vários exemplos disso. Poucos sabem por que as noivas são carregadas pelos maridos na porta da casa nova ou a origem da "continência" militar em que o soldado deve bater a perna direita sobre a esquerda, elevando a mão à testa. Tudo isto, porém, apesar de ter significados atualizados, tem um sentido histórico esquecido no tempo.
Todas as idéias são veiculadas pela projeção de imagens (sonoras e visuais) de que dispomos como registros organizados na memória (BERGSON,1999) e transmitidas pela comunicação.
O fato é que o homem se organiza na relação em rede de um conjunto de imagens internas e externas, no espaço de sua memória. As imagens internas dizem respeito ao que dispõe na mente, e as externas ao que apreende em sua vigília. Se são imagens de que dispõe na memória, são imagens (re)conhecidas, dentro de uma organização anterior, que logo se atualiza, gerando nova seleção de imagens, em organização contínua (BERGSON, 1999).
O pensamento se nos coloca à mente, como um conjunto de imagens sobrepostas, nos revela, assim, uma ideologia, cuja imagem é uma organização mental capaz de explicar a realidade pelo universo sígnico interpretável à luz de leituras de mundo. Tal explicação nos oferece uma lógica, com base na qual orientamos nossas moções no mundo.

(...) infinitas organizações de imagens (...) [sobrepostas determinam inúmeras] (...) leituraspossíveis mediante o que conhecemos. E conhecemos o que entendemos, e entendemos o que lemos das imagens do mundo. A leitura de mundo pressupõe, assim, uma pessoa capaz de apreender signos e poder pensá-los. E os signos compreendem tudo aquilo que tem uma aparência (RIBEIRO, 2003).
O sistema nervoso ligado a uma estrutura básica do cérebro leva o organismo a se equilibrar de forma a manter-se vivo. A experiência do organismo com o seu entorno leva tal organismo a repetir as experiências que lhe sejam agradáveis, pois estas o alentam à vida, enquanto as experiências desagradáveis são evitadas e, em casos extremos, por conta de sua ameaça, são combatidas pelo organismo de modo que este venha a se sentir seguro em sua manutenção de vida.
O conjunto de experiências de vida do corpo orgânico é armazenado na memória como uma seleção de imagens sobrepostas de modo a criar uma rede de relações entre os significados de que um sujeito dispõe interna e externamente, pelo que pessoas agem para organizarem a vida em comum. Nesse sentido, os movimentos sociais resultam da insatisfação de imagens sociais significadas negativamente por determinados sujeitos que se unem no afã de atualizá-las pela ação organizada, forçando determinadas estruturas a reavaliar e a reestruturar sistemas deficitários. Indivíduos que buscam uma melhor forma de considerar, produzir e manter o mundo de uma forma diferente para si, pelo que evocam novas realidades de imagens sígnicas e valores diante da miséria de tantos.

RESUMO MOVIMENTOS SOCIAIS AP2
AULA 14 - A REDE DE REPRESENTAÇÕES DE IMAGENS NA CONSTITUIÇÃO DO MUNDO QUE DEPENDE DO EU E DO OUTRO
“A representação é a operação pela qual a mente tem presente em si mesmo uma imagem mental, uma idéia ou um conceito correspondendo a um objeto externo” (JAPIASSU; MARCONDES, 1996). Evocam-se, assim, os infinitos significados construídos individualmente a partir da idéia de relação entre algo externo ao homem (portanto, do mundo objetivo) e outro algo que ele constrói internamente, em sua mente (mundo subjetivo). A representação, nesse ponto de vista, pode ser a relação entre o significado de imagens “fora dele” (do homem) que se reproduzem “dentro dele”. As representações. Elas são objetivas e subjetivas. Representamos algo para lhe dar um significado e, deste, um sentido. Representamos coisas para que possamos viver em coletivo. O homem só é capaz de viver em grupo, na associação com pares que atendam a interesses, e os interesses são muitos, pois não somente dependem dos significados e do sentido que a eles damos, mas dos significados e sentidos dados à vida em coletivo. De forma tal que os sujeitos só são capazes de projetar imagens a partir desse primeiro contato com os significados sociais, dando assim um sentido às suas vidas mediante as representações sociais. Dessa forma, o homem participa com o seu sangue e vida para manter o que já aí está e que o sustenta. Uma integração entre homem e mundo. Um sem o outro nada é; ambos, vistos de forma integrada, são um só (apesar de não serem a mesma coisa), pois o produtor é aquilo que produz apesar de o produto não se resumir ao produtor. Conseqüentemente, se se fala em representação social, evocam-se significados de construção coletiva; uma convenção de significados compartilhados (a língua, por exemplo), a fim de que um fio estreito de relações (sígnicas) oriente a semântica expressiva do que denominamos realidade e, portanto, nossa leitura de mundo. Os meios de comunicação, nesse sentido da leitura de Mundo, veiculam imagens que nos são apresentadas como “imagens modelos”. Mediando idéias, dando-nos sentidos a determinados registros cujos signos, na dinâmica social, passam a representar coisas antes inimagináveis. O mercado, por meio da propaganda, ergue o sentido de tais representações a partir do desejo humano, a partir daquilo que poderia gerar prazer ao corpo humano. Na produção de significados, verificável na experiência da vivência com um outro, um mostra ao outro o que é e sente, isto é, um se esforça para representar o mundo num determinado sentido, e nos revela como este o afeta, propiciando a uma pessoa ter uma tendência de se comportar diante de determinadas situações, pelo que nos apresenta sua integração com o Outro. O Outro, em Psicologia, é tudo aquilo que não é o Eu. Dizemos, assim, que todos os significados advindos das imagens que uma pessoa adquire no seu convívio com a Cultura são um Outro que ela tem em si. A única coisa que podemos dizer que pertence a um Eu reduz-se ao ato da escolha que as pessoas fazem diante do conjunto de informações que se lhes erguem à mente como uma sucessão de imagens sobrepostas dotadas de significados. A compreensão de como se ergue o desenvolvimento psicológico e de como o comportamento está sujeito às moções e às volições é fundamental para compreendermos a fundo o fenômeno dos Movimentos Sociais e sua relação com a Educação, pois o professor capaz de compreender a subjetividade do outro que há diante de si torna-se capaz de compreender o mundo para além de si mesmo, de ver o Outro que há em si, sem nunca ter se dado conta disso. Este mesmo professor poderá ajudar seus alunos a se verem e se pensarem, na necessidade da descoberta de limites e na reta reflexão das opções de que dispõem para efetuar suas escolhas. Vamos continuar vivendo do jeito que vivemos ou não? O quê, como e por que podemos e devemos mudar em nós mesmos e, por extensão, em nosso entorno? Quais são as reais vantagens e desvantagens para agirmos no afã de transformar o tipo de vida que temos no mundo? Estas questões são fundamentais para o seu ensino, visto que ver o outro demanda uma auto compreensão sofisticada do Eu e uma sensibilidade para ver o Outro. Tanto esta auto compreensão quanto esta sensibilidade serão essenciais para o sucesso da união de indivíduos que se organizam na aprendizagem de agir em coletivo, tendo em vista que as relações humanas não prescindem de significados que afetam permanentemente o corpo, construindo significados positivos e negativos, ou gratificantes e desagradáveis para a vida de cada um, cujo Eu permanentemente busca realizar-se no Mundo mediante todas as representações que são ou que se tornam possíveis de expressar. Dessa forma, ter consciência é comungar com uma leitura amalgamada pela e na cultura. É ter ciência da semântica que determinadas ações ou atitudes obtêm nas tramas de um mundo em que os valores são permanentemente cambiáveis pelas representações que se dinamizam com a produção humana para erguer e manter o mundo. E, enfim, ao pensar sobre o Eu e o Outro, pensa-se numa consciência, pois, se o mundo é constituído na integração de subjetividades que se unem na produção de seus interesses para a manutenção da vida, interesses acordados pelos significados sociais, dos quais se depreende um modo de se produzir o mundo em sua inevitabilidade, há uma ideologia para o viver. A realidade, portanto, se nos faz perceptível através do aparelho humano que apreende imagens sobrepostas no registro da memória e as reorganiza individualmente. A projeção coletiva das imagens representadas subjetivamente é a convenção de idéias intermediada pelo significado das imagens apreendidas no mundo, dando-nos um sentido para a vida, ao dividirmos valores com o outro. Por fim, das imagens do pensamento sobre a realidade, seguindo lógicas morais e éticas, tem-se a orientação para um desenvolvimento de comportamento social esperado, garantido pelas instituições. Compreende-se, assim, que as instituições projetam. idéias e formam imagens que devem ser reproduzidas para que seja possível a uma pessoa ter um determinado tipo de consciência de mundo, cuja realidade existe pela representação simbólica, e que, portanto, foi inventado e fomentado para atender a necessidades individuais e sociais que, por sua vez, exigem um padrão de comportamento, caso uma pessoa queira pertencer a um grupo. Por todas essas razões, só poderíamos admitir que a consciência se desenvolve pela e na interação de um conjunto de imagens que são apreendidas pelo corpo e nele significadas pelo parâmetro social. As individualidades, assim, digerem valores exemplares da materialidade dos signos formados pelo sistema de comunicação social. A realidade ideológica compõe uma teia de relações em que o econômico se apresenta destacadamente (MARX, 1977), e as individualidades constituem o eixo motor de produção dessa realidade situada numa ordem determinada pelo tempo-espaço. conhecimento da realidade exterior – isto é, a aprendizagem dos limites socioculturais e as conseqüências desagradáveis advindas do custo de ser obrigado a enfrentá-las, bem como as experiências agradáveis com que um grupo social pode recompensar um indivíduo – corresponde, para Laborit (1976), ao princípio de realidade. Laborit (1976) defende existirem três níveis de organização de ação: 1) um nível bem primário, em que o organismo responde a estímulos internos e externos, de modo mecânico e incapaz de adaptação; 2) um nível elaborado para a ação, derivada da soma de experiências anteriores, conservadas na memória como agradáveis ou desagradáveis, úteis ou inúteis, em nível de sensação aprendida – pelo que se subsume a forma primitiva assim estruturada pela aquisição de uma aprendizagem; 3) o terceiro nível adviria do desejo, em que se situa o desenvolvimento do pensamento frente à articulação da antecipação da ação com a realidade, por meio de estratégias que asseguram ações gratificantes e/ou aquelas que poderão evitar o estímulo nociceptivo. Há, nesse nível, a capacidade de abstração. Pensar poder abstrair da realidade antecipações para o bem coletivo é pensar extrair o que coletividades desejam como ações que projetem sensações agradáveis à existência.
CONCLUSÃO
Uma vez que grupos entendem estarem à parte de usufruir bens de consumo e vantagens que toda essa dinâmica mercadológica promove como idéias de desejo e lutam contra a representação hegemônica para produzir sua própria realidade de produção de vida, acabando por formalizar um movimento social. Os organismos orgânicos, na integração com pares, formam organismos sociais e travam uma ação para fazer frente aos seus interesses de manutenção. Fundam novos significados diante da falta de sentido que esse mercado promove a partir da visão concreta de poucos usufruírem luxo enquanto outros vivem na miséria ou perto disso. Ou, ainda, entendem que sua miséria sustenta o luxo de ricos empresários, governantes, banqueiros e “parasitas” sociais, que produzem e mantêm uma invenção econômica cuja dinâmica cria ações, bolsas de valores e investimentos associados ao mercado de produtos que, muitas vezes, em nada interessam diretamente às suas vidas, mas das quais pessoas passam a depender indiretamente, queiram ou não. Os movimentos fazem frente à barbárie humana. Ao ver como as imagens da mente são criadas pelo processo de integração mundo interior x mundo exterior, por meio da relação entre o objeto percebido e o seu registro sígnico, engendrado na memória, entendemos que as representações são dotadas de um sentido tanto pessoal como social. Social, na medida em que os signos estão registrados em todos os fenômenos do mundo, e pessoal, visto que as projeções mentais só podem ser feitas no corpo humano, logo, a partir de sensações percebidas e significadas subjetivamente. O conjunto de significados sociais, na relação entre o fato concreto de vantagens e o de desvantagens, se contrapõe a  significados produzidos pelo mercado de consumo, mediados pela comunicação social, cuja idéia defende a razão de que produtos são vantajosos à vida e podem e devem ser distribuídos a todos, pelo que se induzem grupos a ler o mundo por um mesmo prisma, incitando-os a ter um mesmo tipo de consciência diante dos fatos a que são submetidos. A má divisão do que se produz e o difícil acesso a mercadorias que, muitas vezes, são desnecessárias à vida, entretanto, levam sujeitos a entenderem não desfrutar de um mercado de vantagens e a lutarem pelos seus direitos de consumo, ou, ainda, a lutarem para poderem sobreviver dentro do seu melhor possível, apesar de todo o interesse do mercado de ver o ser humano não pela sua capacidade de se relacionar com os demais, mas como um mero consumidor de produtos oferecidos. Ao lermos o mundo que nos cerca, vemos poucos usufruírem luxo. São muitos vivendo na necessidade. Tal leitura da organização do mundo que nos cerca pode levar grupos a se unirem para se organizarem de um modo ativo ou passivo, visando atender a suas necessidades de vida. Esse esforço coletivo de organizar a vida para atender a suas necessidades acaba por se encontrar, de uma forma ou de outra, com a inevitabilidade de tudo aquilo que aí já está, pois não são agentes apartados da teia social, não são sujeitos isolados de sistemas socioeconômicos e de sua administração voltada para o que governantes pensam ser fundamental para a manutenção da vida. Os grupos, assim, podem ir contra os interesses hegemônicos ou não, isso dependerá de sua ação e reivindicações. Enfim, os movimentos sociais podem ser vistos sob a ótica em que pessoas agem dentro de uma mesma consciência para alcançar sua felicidade e bem-estar, já que se encontram em dificuldades para usufruir a rede de vantagens socioeconômicas, associadas às idéias de conforto e facilidades em um mundo que parece ter sido erguido para o prazer. As pessoas querem ser felizes, mesmo que tenham de lutar para viver esse tipo de sentimento.
RESUMO
As imagens sobrepostas de que dispomos na mente humana dinamizam as relações entre as representações pessoais e as representações sociais. Na projeção de imagens de consumo, o mercado apresenta imagens de desejo, remetendo-nos diretamente ao prazer das sensações do corpo e reunindo um conjunto de produtos cuja aquisição trará conforto, facilidades e prazer. A incoerência entre essas imagens de vantagens e a falta de oportunidade a esses acessos mobiliza muitos a conquistar seu espaço
social e atender a suas necessidades para a sobrevivência. Categorizados como movimentos ativos ou passivos, grupos tentam agir para sanar problemas sociais, numa organização possível pela qual pensam serem capazes de trazer situações gratificantes às suas vidas, opondo-se à má divisão das vantagens sociais, mediante o que significam como desagradáveis ao organismo. Agem mediados pelos valores do mercado de vantagens à sobrevivência, pois tais grupos vivem sob o mesmo teto das representações do mercado globalizado de consumo de bens, cujas idéias são mediatizadas pela comunicação social para o desenvolvimento da consciência comum, desenvolvendo a imagem de que o consumo trará “felicidade à vida”.
AULA 15- Bem-estar e felicidade: direção comum da ação humana - BEM-ESTAR SUBJETIVO E O TRABALHO EM COMUNIDADES- Bem estar é  estar satisfeito com o que se tem, ou com o que se é, ou com o que se faz. A satisfação, assim, nessa concepção, está ligada à capacidade e ao desempenho de uma pessoa agir. O sujeito que age é uma pessoa capaz de pensar para superar obstáculos, pois até mesmo encontrar as palavras certas no momento certo exige uma ação do próprio pensamento. A troca de leitura entre pessoas é a leitura intersubjetiva. Esta leitura tem sua representação na troca de ações. Poderíamos dizer ações de troca, pois um age para trocar interesses com o outro. Nesse sentido, o outro também pode ser visto como um obstáculo a ser superado. Os significados que uma comunidade dá a determinados valores, articulando-os de forma a dar continuidade ao processo de suas representações, só pode ser entendido quando suas imagens são vivenciadas. E vivenciar é isso: compreender pelos sentidos aquilo que a razão desconhece conhecer. A satisfação se situa nesse âmbito cognitivo afetivo, em que seleciono, pela e na memória, regras e representações para conquistar o meu ter, ser e fazer social. Organizar imagens na mente é articular o pensamento. E organizamos as imagens de que dispomos de acordo com a nossa personalidade. Cada pessoa constrói sua leitura tendo como referência sua própria vivência. Suas características genéticas também são determinantes, pois o modo como cada pessoa recebe suas impressões de registro depende concretamente de como ela é bioquimicamente constituída, de maneira tal que a realidade é impressa em cada um diferentemente. Uma comunidade, assim, vivenciando suas dificuldades concretas, desenvolve, na sua vivência, seus significados próprios como sendo um registro de sua memória social. Mas, apesar disso, as regras de ordem estrutural assemelham-se a modelos hegemônicos, isto é, há sempre um “chefe” que decide e manda. Um líder que centraliza interesses. Uma hierarquia de pessoas cujos pensamentos parecem projetar imagens organizadas de modo que devem ser seguidas. Realizar é, portanto, representar o que se conhece. Ver o outro demanda enxergar suas características de personalidade, caráter e temperamento. É claro que nos sentimos mais seguros diante da previsibilidade de pessoas de caráter confiável e temperamento sereno. Mas a personalidade de cada um revela-nos como uma pessoa consegue lidar com os sentimentos a que estamos sujeitos: raiva, inveja, ciúme, rejeição, desejo de poder, sujeição, ansiedade e carências... É através da personalidade que percebemos como uma pessoa gere seus sentimentos e... vemos suas atitudes, através da compreensão do fenômeno de seu movimento no mundo.O agir do psicólogo ou do educador tem como objetivo o desenvolvimento de pessoas capazes de superar obstáculos. Pelo que penso, isso demanda um conhecimento vinculado ao perceber-se no outro, percebendo-se a si mesmo. As pessoas simplesmente se desenvolvem, desenvolvendo conhecimento, e o conhecimento ocorre a todo instante, na permanente troca intersubjetiva de leituras e ações. A prática do trabalho comunitário, portanto, visa a demandas sociais, objetivando o bem-estar pela ação solidária. Nessa perspectiva, cremos ser perfeitamente possível afetar pessoas pela compreensão de leituras que passam muito longe de serem feitas pelo nosso próprio umbigo... A potência humana se manifesta, pois, de acordo com nossas crenças e desenvoltura para agir na realização do que desejamos fazer de nossas vidas e do nosso entorno. A leitura é iniciada desde antes da alfabetização, quando aprendemos os signos que nos são apresentados como uma grande, gelada e gostosa Coca-Cola, num dia de verão, tomada ainda nos braços de nossas mães – que querem o melhor do mundo para nos dar... Mas é na escola que se formaliza a leitura de signos que chamamos alfabetos, bem como outros signos pelos quais estão implícitas diferentes ideologias, formas de pensar e orientar a conduta coletiva.

AULA 16 - Conceituando Escrita, Alfabetização e Letramento - ESCRITA, ALFABETIZAÇÃO E LETRAMENTO –
A escrita, alfabetização e letramento compõem um conjunto indissociável, em que os sistemas de escrita seriam um produto cultural por excelência , enquanto que a alfabetização e o letramento seriam processos de aquisição de um sistema escrito, logo, culturais. A alfabetização, para TFOUNI (2002), estaria relacionada mais propriamente à aquisição da escrita como aprendizagem de habilidades para a leitura, a escrita e as práticas de linguagem. A alfabetização seria adquirida formalmente, ainda segundo a autora, pelo processo de escolarização, pertencendo, assim, ao plano individual. Já o letramento focalizaria os aspectos sócio-históricos da aquisição da escrita, procurando, entre outras tarefas, “estudar e descrever o que ocorre nas sociedades quando adotam um sistema de escritura de maneira restrita ou generalizada”. O letramento tem por objetivo pesquisar quem é alfabetizado e também quem não o é, desligando-se, desta forma, de enfocar o individual e centralizando-se mais no social. Grosso modo, letramento, para essa autora, seria o processo de exposição aos usos sociais da escrita que os  indivíduos sofrem mesmo que, no entanto, não saibam ler nem escrever.
A escrita- A invenção da escrita data aproximadamente de 5000 a.C., mas a sua difusão e adoção deram-se – e dão-se até hoje, inclusive - de modo lento e sempre sujeito a fatores políticos e socioeconômicos. Neste sentido, podemos afirmar que não há neutralidade no processo de disseminação dos sistemas escritos, visto que sempre se encontram condicionados a um determinado contexto histórico-temporal. Tanto é que vários códigos foram criados pelos homens, como por exemplo:
a) pictográficos – simbolizando diretamente os referentes concretos;
b) ideográficos – procurando representar o pensamento ou as idéias; e
c) fonéticos – “representação” aproximada dos sons da fala. Porém, nenhum deles pode ser considerado como sendo um produto neutro, e sim como resultado das relações de poder e de dominação existentes em toda e qualquer sociedade humana. Esta relação de poder é melhor compreendida quando pensamos que a escrita serviria para difundir e socializar as idéias e os conhecimentos. A escrita pode ser considerada, assim, tanto como uma das causas para o surgimento das civilizações modernas, quanto para o desenvolvimento científico, tecnológico e psicossocial das sociedades que a tenham adotado de modo amplo.
A alfabetização - há duas formas usuais de se compreender alfabetização:
a) como um processo de aquisição individual de habilidades necessárias à leitura e à escrita ou
 b) como um processo de representação de objetos diversos, de naturezas diferentes.
A alfabetização se caracterizaria pelo seu aspecto de incompletude e que o ato de descrever os objetivos a serem atingidos durante tal experiência atenderia mais às necessidades de formalização das práticas escolares do que à alfabetização em si.
A escrita não deve ser considerada como a codificação da transcrição gráfica da fala, mas sim como um sistema de representação que tem se modificado historicamente. A alfabetização, assim, deixa de ser considerada como ensino de sinais gráficos correspondentes aos sons da fala e a relação que se verifica entre a escrita e a oralidade não é mais a de dependência desta com aquela, mas sim de interdependência, ou seja, esses dois sistemas se influenciam mutuamente. O processo de aquisição da leitura e de escrita é agora percebido não mais como linear (som-grafema), mas é visto como complexo, passando, inclusive, por diversos estágios durante o seu desenvolvimento.
O letramento - o letramento focaliza os aspectos sócio-históricos da aquisição de um sistema escrito por uma sociedade.” A autora destaca que os pesquisadores da questão do letramento se debruçam, entre outras, sobre as seguintes questões, tentando resolvê-las:
a) Quais mudanças sociais e discursivas ocorrem em uma sociedade quando ela se torna letrada?
b) Grupos sociais não-alfabetizados que vivem em uma sociedade letrada podem ser caracterizados do mesmo modo que aqueles que vivem em sociedades “iletradas”?
c) Como estudar e caracterizar grupos não-alfabetizados cujo conhecimento, modos de produção e cultura estão perpassados pelos valores de uma sociedade letrada? tanto a ausência quanto a presença da escrita em uma sociedade devem ser consideradas como questões importantes, pois atuam simultaneamente como causa e conseqüência de transformações sociais, culturais e psicológicas, muitas vezes, radicais.
O letramento seria a causa da produção de formas mais sofisticadas do comportamento humano – os chamados “processos mentais superiores” – como, por exemplo: o raciocínio abstrato, a memória ativa, a resolução de problemas etc. Ampliando os horizontes sociais, a autora aponta que o letramento é considerado como produto do desenvolvimento do comércio, da diversificação dos meios de produção e da complexidade da agricultura e, ao mesmo tempo, numa perspectiva dialética, revela-se como sendo uma das causas das transformações históricas profundas como a invenção da máquina a vapor, do telescópio, da imprensa, e mesmo da sociedade industrial.
A autora propõe duas formas para se acabar com tal etnocentrismo. A primeira seria considerar o processo de alfabetização e o de letramento como processos interligados, porém separados em sua natureza e abrangência. A segunda seria considerar o letramento como um “continuum”. Seriam evitadas, assim, segundo a autora, classificações preconceituosas como as ocasionadas pelas categorias “letrado” e “iletrado” e a confusão que se dá entre essas e as categorias “alfabetizado” e “não-alfabetizado”, separando-se o fenômeno do letramento do processo de escolarização, que, como já foi visto, costuma acompanhar o processo de alfabetização. Segundo a autora, a explicação para tal fenômeno não se localizaria no fato de o indivíduo ser ou não alfabetizado, mas, sim, se ele está inserido numa sociedade letrada ou não, ou seja, está na sofisticação dos processos de comunicação, dos modos de produção, das demandas cognitivas pelas quais passa toda uma sociedade quando se torna letrada e que inegavelmente irão influenciar aqueles que nela vivem, sejam eles alfabetizados ou não.
CONCLUSÃO
Nas sociedades industriais modernas, paralelamente ao desenvolvimento científico e tecnológico ocasionado pelo letramento, existe um desenvolvimento correspondente, em nível individual ou de pequenos grupos sociais, que independe do processo de alfabetização e de escolarização. No entanto, esse desenvolvimento tem um preço, pois aliena os indivíduos de seu próprio desejo, de sua individualidade e, muitas vezes, de sua cultura e de sua historicidade. TFOUNI (2002) afirma que a ALIENAÇÃO também é um produto do letramento. Afirma,  ainda, que a ciência é produto da escrita e a tecnologia, produto da ciência, e que funcionam como elementos REIFICADORES, principalmente para aquelas pessoas que, mesmo não sendo alfabetizadas, são “letradas”, mas não têm acesso ao conhecimento sistematizado nos livros, compêndios e manuais. A autora destaca também o fato de, muitas vezes, testemunharmos, como conseqüência do letramento, o fato de muitos grupos sociais não alfabetizados abrirem mão do próprio conhecimento, da própria cultura. Isso também caracterizaria essa relação como de tensão constante entre poder, dominação, participação e resistência, o que não pode ser ignorado quando se busca compreender o produto humano por excelência: a escrita e seus decorrentes necessários, a alfabetização e o letramento.
R ESUMO
Escrita, alfabetização e letramento compõem um conjunto indissociável. A escrita seria um produto cultural, enquanto a alfabetização e o letramento seriam processos de aquisição de um sistema escrito. A concepção equivocada que usualmente se faz sobre o processo de alfabetização associa-o a um modelo linear e “positivo” de desenvolvimento, pelo qual a criança aprenderia a utilizar e a decodificar símbolos gráficos que representariam os sons da fala, partindo de um ponto determinado e chegando a um outro patamar. Nesta aula ressaltamos que, na realidade, tal processo não se dá de maneira simplória, pois é preciso considerar diversas outras variáveis, desde a questão da alfabetização que ocorre quase sempre junto com a escolarização até a concepção de que este não é um processo linear, que, ao contrário, envolve níveis de complexidade crescentes, em cada um dos quais a criança conhece e constrói diferentes objetos. Por fim, o conceito de letramento, compreende o processo de exposição às práticas sociais da escrita que os sujeitos sofrem, sejam esses indivíduos alfabetizados ou não.

Lembre-se de que a escrita depende essencialmente da alfabetização, mas o letramento não, no sentido de que somos capazes de ler tudo que há no mundo, mesmo sem sermos alfabetizados. Por outro lado, só aprendemos o alfabeto pela leitura dos signos. Diversas são as práticas sociais que exigem dos sujeitos (sejam crianças, jovens ou adultos) o domínio da escrita, desde a urgência de se produzir um bilhete para um parente próximo ou para um empregado até a necessidade de se enviar uma carta cobrando e oferecendo notícias a um amigo ou sócio distante, passando inclusive pelas práticas do preenchimento de um formulário, da produção de um currículo, de um cartão de Natal etc.

Para realizar novas experiências no campo da alfabetização, torna-se necessário que o professor/alfabetizador se liberte do uso de cartilhas e revisite sua própria experiência de alfabetização, procurando criticar a idéia de que a alfabetização se restringe a cópias mecânicas, já que a relação com as palavras transcende a mera correspondência gráfi cofonética, exigindo a vivência do contexto imaginativo e significativo de que se alimenta a escrita e a leitura nas diversas práticas sociais.

AULA 17 – LEITURA  E LETRAMENTOo ato da leitura pode ser considerado metaforicamente uma festa por ser desvelador, no mínimo, em três aspectos: desvelador dos mistérios das letras, das palavras e dos conteúdos. Queremos lembrar que só tecnologia não basta para transformar a escola (vista aqui como espaço sociocultural por excelência de aquisição e incentivo à leitura): é preciso tecer conheci mento com maior autonomia, incentivar as atividades interdisciplinares, decidir as teorias a ser corroboradas nas / pelas práticas e, sobretudo, fortalecer os vínculos societários e interpessoais. Atitudes como estas poderiam minimizar os efeitos negativos percebidos ao longo da história nacional. Embora, como já tenhamos dito antes, não possamos confundir como iguais a relação que costuma se estabelecer entre o processo de alfabetização e a condição de
CIDADANIA – ou seja, o fato de o indivíduo ou de uma parcela da sociedade conseguir se alfabetizar não lhe garantiria o status de cidadania automaticamente –, podemos ainda assim reconhecer a alfabetização como um entre os vários instrumentos na luta para a conquista e ampliação da cidadania em suas múltiplas dimensões.

A UNESCO E A LUTA PELO ANALFABETISMO - A luta contra o analfabetismo tornou-se prioritária em escala mundial, uma vez que ele se tornou o indicador mais evidente da exclusão social. Com isto pretende subsidiar os poderes públicos na formulação das políticas educacionais, considerando-se as diferenças regionais e intra-regionais; para atingir seus objetivos, sobretudo na área do combate ao analfabetismo, marcada por propostas salvacionistas há longa data e que geralmente fracassaram. O objetivo do PISA é “verificar como as escolas estão preparando os jovens para os desafios futuros e detectar até que ponto os estudantes adquiriram conhecimentos e desenvolveram habilidades essenciais para a participação efetiva na sociedade”. Para Maria José Féres, então Secretária de Educação Fundamental do MEC, o grande desafio do atual governo seria trabalhar para reverter  esta “tragédia brasileira”. Segundo ela, as primeiras providências já foram tomadas com o lançamento do Programa Toda Criança Aprendendo que apresentou alternativas para o resgate da qualidade do ensino por meio da implantação de uma política nacional de valorização e formação de professores, a ampliação do atendimento escolar, o apoio à construção de Sistemas Estaduais de Avaliação da Educação Básica e Programas de Apoio ao Letramento. O atraso escolar – provocado pelos altos índices de reprovação e abandono –, a desigualdade social, a baixa renda da população e a qualidade das escolas são apontados como as principais causas do baixo desempenho dos estudantes brasileiros no PISA.  Vemos assim o quanto é essencial estudar e pesquisar a importância e a relevância atribuídas à participação individual e coletiva nos Movimentos Sociais diante de diversos elementos que trazem outro apelo e outra forma de leitura diferente da trazida pelo texto impresso.
CONCLUSÃO
A questão da leitura não se esgota no comportamento de avaliação subjetiva, ao contrário, é de ordem política, uma vez que o que está em jogo é o direito de o cidadão ter acesso tanto material quanto intelectual à informação sistematizada pela escrita e à cultura letrada. Portanto, deve haver clareza sobre o que se deve postular numa campanha social pela leitura: um direito. Sendo este mais uma face da disputa sociopolítica e cultural pelo poder, exatamente como se dá na luta pela terra, por trabalho, por habitação, por saúde e por educação, posto que é preciso reconhecer o direito à diferença de populações pobres do campo e da cidade, das formas como os jovens se expressam; de negros, indígenas, mulheres; de portadores de necessidades educativas especiais no tocante à educação. Assim, nota-se claramente a importância também sociopolítica e cultural de se fazer o inventário de experiências de incentivo à alfabetização e à leitura como as que faremos na Aula 18, buscando, quem sabe, encontrar – como disse o poeta bissexto da epígrafe, Jorge Duarte, “o(s) caminho(s) no meio da(s) pedra(s)”.

RESUMO
Você conheceu o conceito de leitura, associando-o ao universo da escrita simbólica do mundo, possibilitando a sua compreensão como um processo de inserção dos sujeitos em seu contexto histórico-temporal. Ampliou a compreensão deste conceito, abrangendo não só a leitura das palavras, mas também dos diversos e múltiplos signos do mundo. Viu como o desenvolvimento da tecnologia na sociedade pós-industrial, além de abrir novas fronteiras, proporcionou novos potenciais de relação humana, gerando a esperança da possibilidade de se pensar soluções locais para problemas globais. Aprendeu, enfim, que não podemos considerar o mero acesso ao processo de alfabetização como garantia de cidadania, ou seja, o fato de o indivíduo ou de uma parcela da sociedade conseguir se alfabetizar não lhe garantiria o status de cidadania automaticamente, mas que podemos reconhecer a alfabetização como um entre os vários instrumentos na luta para a conquista da cidadania.

 AULA 18 - Alfabetização de jovens e adultos e participação cidadã - ALGUMAS AÇÕES DA SOCIEDADE CIVIL ORGANIZADA- 1950 e 1960
Paralelamente às ações governamentais, surgem as ações dos movimentos de educação e cultura popular, objetivando alterar a situação socioeconômica da população. Conscientização, participação e transformação são os conceitos elaborados a partir da prática e das ações (inclusive a de alfabetizar unindo cultura, educação e transformação social) de movimentos como, por exemplo:
• MEB – Movimento de Educação de Base.
• CEPLAR – Campanha de Educação Popular
• CPC – Centro Popular de Cultura, • MCP – Movimento de Cultura Popular,
• De pé no chão também se aprende a ler.

EXEMPLOS DE ALGUMAS AÇÕES GOVERNAMENTAIS E NÃO-GOVERNAMENTAIS PROMOTORAS DO ACESSO À LEITURA- Dentro da Política Nacional da Leitura e de Bibliotecas Públicas, o  Programa Fome de Livro tem por objetivo instalar bibliotecas em 1,3 mil municípios brasileiros que não dispõem de acervo público de livros. Criado, originalmente, no início de 2004 para zerar o número de municípios brasileiros sem bibliotecas, o Fome de Livro foi crescendo, ganhando novas atribuições e metas, passando, inclusive, à condição de Plano Nacional do Livro e da Leitura. Composto por um conjunto de projetos e ações de vários ministérios, governos estaduais, prefeituras, empresas privadas e estatais e organizações da sociedade civil que atuam nos mais diferentes setores, o Programa Fome de Livro é, na prática, a implementação da política nacional de leitura e bibliotecas públicas. Tendo como cenário um país que apresenta índices baixos de leitura, a inexistência de projetos e ações de caráter permanente para reverter esse quadro e uma desarticulação histórica do Poder Público com a sociedade civil, o Programa Fome de Livro faz parte dos esforços do governo federal na tarefa de se construir uma política pública nacional para o livro, a leitura e a biblioteca pública no Brasil. um dos objetivos centrais do programa, o Fome de Livro pretende coordenar os esforços governamentais e da sociedade civil no sentido de integrar, otimizar e complementar ações públicas e privadas na área de bibliotecas públicas e leitura. o letramento – por meio de ações para zerar o analfabetismo, combater o analfabetismo funcional ou estimular a leitura democratizando o acesso ao livro e a todas as formas de informação – é condição fundamental para se promover inclusão cultural e cidadania, pontos inegociáveis para se construir um novo projeto de organização social mais justa. Para tanto, é imprescindível dar à leitura e às bibliotecas públicas a dimensão de uma política de Estado, na qual o Programa Fome de Livro será uma iniciativa fundamental. A tarefa inicial é, portanto, debater, integrar e dar sinergia aos bons projetos, planos e idéias no âmbito dos ministérios, estatais e programas federais. E promover, a partir de objetivos comuns, interconexões destes com as ações dos governos estaduais e municipais e de todos eles com as instituições do Terceiro Setor, as empresas  privadas e todos aqueles cidadãos interessados na questão e com muito a contribuir na tarefa de formar cidadãos leitores.

PROLER/FBN - O Programa Nacional de Incentivo à Leitura (PROLER) está vinculado à Fundação Biblioteca Nacional (FBN), órgão do Ministério da Cultura e encontra-se sediado na Casa da Leitura, em Laranjeiras, no Rio de Janeiro. Desde então, vem atuando com uma política de leitura que tem em vista colaborar para qualificar as relações sociais, através da formação de leitores conscientes e valorizadores do exercício da cidadania para a interação critica com o seu contexto. A composição plural da Comissão está baseada no fato de a preocupação com a leitura se expressar em diferentes instituições/ entidades, tanto de base acadêmico-universitária, quanto de organizações não governamentais, cuja experiência recomenda que sejam incorporadas a programas desta natureza.
O Proler/FBN busca contemplar a variedade e a diversidade das práticas brasileiras de promoção da leitura. A leitura (ou o seu equivocado conceito e prática) não tem significado uma possibilidade real de inserção dos sujeitos no mundo da informação e, conseqüentemente, o exercício da cidadania passa a ser comprometido.
A educação de qualidade implica prioridade política, como instrumento básico para sua consecução. As diretrizes norteadoras do Proler/FBN expressam o caráter de processo que deve orientar a formação de leitores. São elas:·
• Diversidades de ações e de modos de leitura manifestadas: nas práticas de leituras promovidas; nos locais e instituições abrangidos; nas atividades organizadas.
 • Especificidade do ato de ler, entendendo-se que atos de leitura exigem modos próprios e competências específicas.
• Articulação leitura e cultura, não se compreendendo a leitura fora dos contextos nos quais se expressam a riqueza da vida humana e suas produções.
• Prioridade da esfera pública, concretizando-se ações voltadas aos interesses da maioria da população leitora e não leitora. Como é ela que, de modo geral, concentra a maioria das ações e dos agentes de leitura – professores das redes públicas – deve-se pensá-la como irradiadora das práticas leitoras.
 • Publicidade da leitura, enfatizando-se que ela precisa ser tema na cena social.
• Democratização do acesso à leitura, pela disponibilização do material de leitura em bibliotecas escolares e públicas, em salas de aula e em salas de leitura em locais públicos.
Para cumprir essas diretrizes, o Proler/FBN estabeleceu vertentes organizadoras de suas ações. Formação de promotores de leitura, tendo, como público principal, professores das redes públicas.·Promoção de ações de leitura, englobando diversas práticas leitoras. Promoção de ações estratégicas de articulação e de valorização do lugar político da leitura. Estímulo à criação de bibliotecas públicas. Divulgação de informações sobre o tema leitura, disseminando-as em rede.

FUNDAÇÃO NACIONAL DO LIVRO INFANTO-JUVENIL – FNLIJ - A Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil (FNLIJ) foi criada em 1968 e tem como objetivo institucional a promoção da leitura e a divulgação de livros de qualidade para crianças e jovens. A FNLIJ investe prioritariamente em seu Centro de Documentação e Pesquisa (CEDOP), dando tratamento técnico especializado e informatizado com o objetivo de garantir a manutenção, implementação e disseminação do acervo de Literatura Infantil e Juvenil.  O CEDOP recebe mensalmente livros doados pelas editoras de todo o país. Esse acervo de literatura infantil e juvenil recebe tratamento técnico especializado.  Os livros concorrem anualmente ao Prêmio FNLIJ, nas categorias: Criança, Jovem, Livro de Imagem, Tradução Criança, Tradução Jovem, Tradução Informativo, Livro Informativo, Livro de Poesia, Livro Brinquedo, Livro Teatro, Livro Teórico, Livro Reconto, Revelação Ilustrador, Projeto Editorial e Ilustração.
 • Fundação Palavra Mágica - http://www.palavramagica.org.br É uma entidade jurídica de direito privado, sem fins lucrativos, que tem por finalidade principal o fomento e o desenvolvimento da leitura  e da cidadania e, de forma geral, da cultura e do ambiente. Acredita que a leitura é um caminho seguro que conduz para uma postura mais participativa, criativa e consciente. A Fundação Palavra Mágica cria, desenvolve e executa projetos de incentivo à leitura visando à formação para a cidadania. Todos os projetos têm a leitura como eixo central e a partir dela são trabalhados os mais diversos temas como Preservação
do Meio Ambiente, Educação para o Trânsito, Direitos do Consumidor, Conservação do Patrimônio Histórico, entre outros.
Leia Brasil www.leiabrasil.org.br/ong.htm O Leia Brasil promove o letramento através das seguintes atividades: visitas de caminhões-biblioteca às escolas públicas conveniadas, emprestando, além de livros, vídeos, gibis e exposições. É uma ONG especializada no incentivo e promoção da leitura como ferramenta de combate ao analfabetismo funcional. Promovendo as seguintes ações:
a) democratização de livros e outros bens culturais por empréstimo;
b) oferta de cursos, oficinas e treinamento continuado para educadores, bibliotecários e outros agentes de leitura;
c) planejamento e realização de eventos, espetáculos, encontros culturais e projetos promocionais em torno do livro e da leitura.
 d)incentivo à produção de textos, edita os Cadernos de Leituras Compartilhadas; e
e) armazenamento e divulgação de informações sobre a promoção da leitura.
A Mundoquelê tem por missão fomentar a leitura e a informação em todas as concepções e conceitos, disseminando-a como elemento de participação cultural, social, além de preservação da memória coletiva e individual, propiciando aos indivíduos a sua participação na sociedade.
São objetivos específicos da Mundoquelê para atingir sua missão:
a) instituir campanhas de sensibilização visando convencer diferentes atores, pessoas físicas, jurídicas e líderes de opinião, da necessidade de patrocinar a alfabetização bem como atingir as pessoas que queiram aprender a vencer suas necessidades de leitura e de escrita;
b) colaborar para que cada pessoa possa adquirir a capacidade de compreender e de utilizar a informação escrita para o desenvolvimento de suas potencialidades e participação na sociedade; c) elaborar e executar programas em matéria de pedagogia da leitura e de luta contra o analfabetismo;
 d) promover trocas entre seus associados de informação e idéias relacionadas a livros;
e) elaborar avaliações e aperfeiçoamento do “saber ler” em todos os níveis de ensino;
 f) trabalhar para o acesso de todos na formação de base em leitura e escrita;
g) estudar formas diversas que contribuam para o ensino da leitura;
h) formar leitores a domicílio e contadores de histórias;
 i) apresentar estudos e pesquisas, desenvolvimento de tecnologias alternativas, produção e divulgação de informações e conhecimentos técnicos e científicos que digam respeito às atividades relacionadas a promoção da leitura;
 j) promover a ética, a paz, a cidadania, os direitos humanos, a democracia e outros valores universais através da leitura;
l) influenciar políticas públicas de educação; e
m) buscar cooperação nacional e internacional para difusão da leitura e execução de programas com ela relacionados.

CONCLUSÃO
Em pleno século XXI, deparamo-nos, ainda, com os altos índices de analfabetismo absoluto e de analfabetismo funcional, que assolam a população brasileira, ocasionados, entre outros fatores, pela herança de uma política educacional, como vimos, quase sempre equivocada e só um pouco amenizada por parcas ações da sociedade civil organizada. Tal realidade nos impõe um verdadeiro desafio reflexivo: como garantir a todos efetivamente o desenvolvimento econômico e social, partindo de tamanha desigualdade na aquisição de direitos constitucionais?

 AULA 19-Movimentos sociais, cidadania e educação- MOVIMENTOS SOCIAIS, CIDADANIA E EDUCAÇÃO-
A cidadania – o direito de ter direitos – é uma invenção do mundo moderno. O advento do Capitalismo, com o predomínio da transformação de bens e serviço sem mercadorias, veio acompanhado de lentas mudanças nos próprios processos das interações e formas de sociabilidade. A sociedade da Idade Média era organizada hierarquicamente, em que cada sujeito ocupava um determinado lugar do qual não podia se mudar, constituída por sociabilidades baseadas em relações pessoais de fidelidade. Tratava-se de uma sociedade sem mobilidade social.
Só com a expansão das relações capitalistas os sujeitos ganharam mobilidade: enriquecendo, sobem na escala social; empobrecendo, descem. Com o advento do mercado e a liberação dos camponeses dos laços pessoais de dependência, os sujeitos ganham autonomia, com formas de sociabilidade marcadas pela impessoalidade. É esta passagem do mundo pré-capitalista sem mobilidade social para um mundo capitalista com mobilidade social que marcou o século XVIII na Europa.
A Declaração dos Direitos Humanos, o Iluminismo, as Teorias Jusnaturalistas, os Contratualistas, a Revolução Francesa, a Independência dos Estados Unidos e a Revolução Industrial Inglesa foram elementos decisivos neste processo. O Contratualismo é decorrente da idéia de Contrato Socialque surge com a passagem da vida dos homens em estado natural para a vida em sociedade organizada, ou seja, com o surgimento do Estado. Os homens fariam um contrato entre si, abrindo mão de seus direitos naturais, transferindo para o governante o poder de resolver os problemas coletivos. O direito natural é transferido ao soberano pelos contratantes, transformando-o em Direito Civil. No âmbito dos direitos sociais, o direito à educação também foi fruto de longas lutas de muitos setores da sociedade civil.

GOVERNANÇA: PARTICIPAÇÃO DEMOCRÁTICA NA GESTÃO DO PÚBLICO- No longo período da ditadura militar (1964-1985), as possibilidades de alargamento da participação popular nas decisões governamentais, principalmente no nível municipal, estavam sufocadas pelo quadro político, que restringia a ação de organizações da sociedade que pudessem contestar a autoridade constituída. A nova Constituição coloca-se tanto como marco final de um processo político como o de início de uma nova era da governança  no Brasil. Um dos resultados desse processo foi o estabelecimento dos Conselhos. Dado o acesso e a visibilidade da governança no nível municipal, devemos destacar os Conselhos Municipais, criados tanto em metrópoles como em pequenas cidades brasileiras.
A participação social é parte do processo de letramento dos sujeitos e não só a sua escolarização formal, o que contribui inclusive para a ampliação da leitura de mundo, alargando sua cidadania, ou seja, compreendendo-se, enfim, que as lutas dos grupos pelos mais diferentes tipos de direitos (civis, políticos ou sociais) são, em si mesmas, também, processos educativos.

MOVIMENTOS SOCIAIS E EDUCAÇÃO: PARTICIPAÇÃO NA ESCOLA E NA SOCIEDADE- o fato de a Educação abranger áreas diversas como a formal (escolas), não-formal e informal: “As lutas e os movimentos pela educação têm caráter histórico, são processuais e ocorrem, portanto, dentro e fora de escolas e outros espaços institucionais Ao descrever esses movimentos, Gohn (2004) nos afirma que: Os movimentos sociais pela educação abrangem questões tanto em escolas como em questões de gênero, etnia, nacionalidade, religiões, portadores de necessidades especiais, meio ambiente, qualidade de vida, pela paz, pelos direitos humanos, direitos culturais etc.
Os movimentos sociais são fontes e agências de produção de saberes. A luta social é pedagógica. A constituição dos Conselhos de Escola – com representantes de profissionais da educação e de usuários eleitos pelas suas respectivas bases – contribui para isto. Conforme nos indicou Bobbio (1987), o processo de democratização não consiste apenas na passagem da democracia representativa para a democracia direta, mas na passagem da democracia política para a democracia social; da democratização do Estado para a democratização da sociedade. Aponta a importância da “ocupação, pelas forças tradicionais da democracia, como é a democracia representativa, de novos espaços, isto é, de espaços até então dominados por organizações de tipo hierárquico ou burocrático”. Apesar desta observação, Bobbio chama também atenção para a extensão do voto em instâncias onde anteriormente ele não existia – citando como exemplo os Conselhos de Escola, com a participação de representantes de pais e da comunidade.

Disserte sobre a importância do processo de horizontalização do poder, ou seja, o contrário do verticalizado (de cima para baixo) para que se efetive realmente a Gestão Democrática no espaço escolar. Deve-se destacar a real importância e a extrema necessidade de se garantir a existência do fórum coletivo para se promover a reflexão dos problemas do espaço escolar, bem como da multiplicidade de vozes e opiniões dos diferentes segmentos (professores, alunos, funcionários de apoio, funcionários administrativos, responsáveis dos alunos, representantes da associação de moradores etc.) que ao vislumbrarem e analisarem conjuntamente um mesmo aspecto do cotidiano escolar, com certeza comporão um rico mosaico de idéias e percepções somente possível de ser realizado dada a diversidade de ângulos pelos quais a mesma questão estará sendo analisada.

CONCLUSÃO
O cidadão em seus múltiplos papéis sociais (filho, pai, membro de associação de moradores, condômino, munícipe, empregado, patrão, sindicalizado, estudante, cônjuge etc.) educa e também é educável. Educa se, mas não só no âmbito escolar formal ou informal; educa-se com os variados processos de participação coletiva: com os vizinhos, com as reivindicações da associação de moradores, com a luta por mais vagas e professores nas escolas etc.
AULA 20- Os movimentos sociais e seu caráter educativo - MOVIMENTOS SOCIAIS E EDUCAÇÃO-
No século XIX, diferentemente dos séculos anteriores, a cidadania passa a ser destinada a todos, inclusive as massas, porém com o intuito de domesticá-las, discipliná-las, ou seja, ajustá-las aos padrões da sociedade estabelecida. Nesse contexto, graças à Educação, o indivíduo poderia participar da vida em sociedade de modo harmônico. Desta forma, os direitos civis não são conquistados, e sim outorgados pelo Estado.
A Educação, como importante aliada neste processo, promove práticas pedagógicas relacionadas à persuasão, ao esclarecimento e à moralização do futuro cidadão. Já no século XX novos significados são produzidos para o conceito de cidadania. A burguesia passaria a enfatizar a questão dos direitos dos indivíduos muito mais como relativa a deveres para com o Estado do que efetivamente a direitos.
O Estado, como interlocutor da sociedade, passaria a regulamentar os direitos dos cidadãos, podendo restringilos e até mesmo cassá-los conforme a conjuntura histórica. Assim, a cidadania deixa de ser uma conquista da sociedade civil, passando a ser responsabilidade do Estado. cidadania é elaborada por grupos organizados por meio de movimentos da sociedade civil: a cidadania coletiva. Alguns fatores contribuíram para esta nova perspectiva no cenário ocidental, dentre os quais Gohn exemplifica:
• o caráter do desenvolvimento explorador e espoliativo do capitalismo;
• a massificação das relações sociais;
• o descompasso entre o alto desenvolvimento tecnológico e a miséria social de milhões de pessoas;
 • as frustrações com os resultados do consumo insaciável de bens e produtos;
 • o desrespeito à dignidade humana de categorias sociais tratadas como peças ou engrenagens de uma máquina;
• o desencanto com a destruição gerada pela febre de lucro capitalista. Este contexto conflitante propiciaria a criação de um novo ator histórico como agente de mobilização e de pressão por mudanças sociais: os movimentos sociais (GOHN, 1988). O novo cidadão coletivo, participante dos movimentos sociais, age motivado por interesses de coletividade, de diferentes matizes, que revelam diversas demandas populares, algumas de forte conteúdo social, por expressarem o lugar que esse cidadão ocupa no processo de divisão do trabalho, a exploração e a espoliação a que é exposto, bem como a ausência de direitos sociais básicos (vida, educação, saúde e moradia), como, por exemplo:
• grupos de mulheres que lutam por creches ou por vagas para seus filhos em uma escola mais próxima de suas residências;
• grupos de favelados que lutam pela posse da terra;
• grupos de pessoas pobres que lutam por acesso a algum tipo de moradia. Outras demandas advêm de grupos não tão explorados como os dos exemplos anteriores, mas da mesma forma expropriados de seus direitos civis de liberdade, igualdade, justiça e legislação, como, por exemplo:
• grupos que lutam pelo exercício da cidadania de negros, mulheres e homossexuais;
• grupos que lutam pela paz;
• grupos que lutam em defesa da ecologia. Gohn nos ensina que a educação tem papel relevante para este conceito de cidadania coletiva, exatamente porque ela se constrói no processo de luta que é, em si próprio, um movimento educativo, ou seja, a cidadania não se constrói por decretos, por intervenções iluminadas externas, por agentes ou por programas pré-elaborados. A cidadania, assim concebida, se constrói como um processo interno, no interior mesmo das práticas sociais em curso, como produto das experiências engendradas no cotidiano. A cidadania coletiva, segundo Gohn, além de construir-se no cotidiano, pelo processo de identidade político-cultural que as diferentes lutas diárias geram, também constituiria novos sujeitos históricos:
 • as massas urbanas espoliadas;
• e as camadas médias expropriadas.

OS MOVIMENTOS SOCIAIS E O SEU CARÁTER EDUCATIVO - Concebendo-se a Educação não como restrita ao processo de ensino-aprendizagem de conteúdos específicos das áreas de conhecimento conquistado e socializado permanentemente para além dos muros institucionais escolares, veremos que existe realmente uma natureza educativa nos processos externos aos canais formais de educação. Este caráter educativo constrói-se, segundo Gohn, de diversas formas, em vários planos e dimensões que se articulam, mas não estabelecem nenhum grau de prioridade entre elas.
A dimensão da organização política- O processo de conscientização constrói-se ao organizarem-se as informações que estão dispersas sobre o funcionamento de diferentes órgãos públicos: como se deve proceder para se conseguir uma obra em determinado bairro, uma verba para tal evento?, quem administra tal fundo?, quais são os agentes responsáveis pela gestão de determinado bem ou equipamento público? etc.
Tal processo é bastante conflituoso e apresenta constantemente avanços e recuos, mas é exatamente esse movimento que possibilita aos participantes dos diversos movimentos sociais apropriarem-se de importantes informações, conhecendo as engrenagens reconhecidas como técnicas e identificando os interesses envolvidos. Tal identificação de interesses dá-se segundo as óticas de classes. A outra dimensão do processo é a identificação dos interesses opostos ao movimento.
A DIMENSÃO DA CULTURA POLÍTICA - A prática cotidiana nos movimentos sociais proporciona o acúmulo de experiências, nas quais há a importância da vivência do passado e do presente para a construção do futuro. As vivências do passado (como a opressão, negação de direitos etc.) são resgatadas no imaginário coletivo do grupo para fornecer elementos concretos para a leitura do presente. Para Gohn, os aprendizados proporcionados aqui são vários:
a) aprende-se a não ter medo de tudo que foi inculcado como proibido e inacessível;
 b) aprende-se a descobrir os porquês das restrições, proibições e exclusões;
c) aprende-se a acreditar no poder do discurso e das idéias, quando expressas em lugares e ocasiões adequados;
d) aprende-se a calar-se e a resignar-se quando a situação é completamente adversa;
e) aprende-se a criar códigos específicos para solidificar as mensagens e bandeiras de luta (músicas e folhetins);
 f) aprende-se a elaborar discursos e práticas de acordo com os cenários vivenciados;
 g) e, sobretudo, aprende-se a não abrir mão de princípios que balizam determinados interesses como seus.
Em resumo, estratégias de conformismo e de resistência, de passividade e de rebelião são elaboradas, segundo os agentes com os quais se defronta. Esta dimensão educativa dos movimentos sociais revela que certas atitudes que podem ser tidas como conservadoras nada mais são, na verdade, do que revelações de parte do processo pedagógico vivenciado pelos movimentos. Cabe aqui ressaltar duas questões: a educativa e a pedagógica. A primeira é um processo cujos produtos são realimentadores de novos processos.

A dimensão espacial-temporal - A participação nos movimentos sociais e a consciência que ela gera levam ao conhecimento e ao reconhecimento das históricas condições de vida de parcelas da população, ou seja, no passado e no presente.  A participação em encontros, seminários, congressos etc. contribui para a formação desta visão historicizada dos problemas, o que leva à identifi cação de uma dimensão importante no cotidiano das pessoas: a do ambiente construído, do espaço gerado e apropriado pelas classes sociais na luta cotidiana.
Tal dimensão possibilita uma aproximação entre o dito saber popular e o saber científico, técnico, codificado. Os conceitos “tempo” e “espaço” são de grande importância no imaginário popular, sobretudo no meio rural, visto que fazem parte do universo de referência do cotidiano vivido. Já no meio urbano, “tempo” e “espaço” são categorias desapropriadas do controle dos indivíduos. O tempo não pertence mais aos sujeitos, mas, sim, ao cronômetro da fábrica ou do relógio de ponto da instituição em que se trabalha. Os espaços são restritos: o privado quase não existe, e o raro que há deve ser defendido a todo custo contra as agressões e a violência da metrópole.

CONCLUSÃO -
Os resultados de estudos de Gohn,  podemos reconhecer a partir de uma concepção atual mais ampliada de educação, ou seja, para além dos muros da formalidade das instituições escolares, que os movimentos sociais possuem caráter educativo de diferentes dimensões para a formação do sujeito consciente, com potencial para se organizar em grupos para exigir e manter direitos e deveres, tornando-se, assim, cidadão participante na sociedade.

RESUMO
O conceito de cidadania se transformou ao longo da história até se chegar ao conceito de cidadania elaborado por grupos organizados em movimentos da sociedade civil: a cidadania coletiva. Pôde aprender também que existe um caráter educativo nos processos externos aos canais formais de educação, se a concebermos, não como restrita ao processo de ensino-aprendizagem de conteúdos específicos por meio de metodologias pedagógicas institucionais, mas, sim, como algo que é conquistado e socializado permanentemente para além dos muros escolares.

AULA 21 – Redes virtuais e reais de movimentos sociais e cidadania – proposta para se constituir uma rede mundial de movimentos sociais –  
Em 2003 propôs  discutir a criação da rede mundial de movimentos sociais  é a indicação clara da intenção de construir um marco comum como referência e como ferramenta para as mobilizações internacionais , apesar de tal proposta só pode ser  bem sucedida com o engajamento de movimentos de todo o mundo em discussões e debates. A rede mundial de movimentos sociais ajudaria a desenvolver as condições para que os diversos movimentos sociais do mundo possam trocar análises, opiniões e informações  sobre a conjuntura atual e estabelecer algumas prioridades comuns e tarefas necessárias antes e depois de reuniões do FSM (Fórum Social Mundial).
Postado por Maria Tereza às 16:31

Nenhum comentário:

Postar um comentário